Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
I can't make you love me - Bonnie Raitt
Há tb a - boa - versão do Jorrge Miguel mas esta é a original, e é melhor. E pronto!
Zenith de Moscovo
Quando o sol está no zénite, é porque está muito lá em cima. Em 1993 houve muita coisa. Mas houve sobretudo um dia em que tu estavas de férias e eu estava louco por te voltar a ver. Porque trabalhávamos juntos - e que bem trabalhávamos juntos! - e estava exausto, partido, amassado por tu não estares. Era sexta-feira e dia de consulta, à tarde. Dia que mais ninguém gosta para fazer consulta. Sabia que voltavas, que voltarias, que ias voltar, mas para a casa tua, casa longínqua e estranha onde entrei uma única vez. Assim como cheguei a conhecer a outra pessoa que lá morava, a cumprimentá-lo, a desejar-lhe "as melhoras!" por um qualquer merda renal. É assim. Mas era sexta-feira e dinamicamente a consulta seguia o seu curso. E batem à porta. E eras tu, em glória aleluia! Sim, depois magoaste-me muito, demasiado, tão demasiado! Mas hoje se calha lembrar alguma coisa deve ser as boas coisas. Como aquele dia de acho que férias de Páscoa ou parecido em que voltaste para mim primeiro, segundo e terceiro, e assim está explicado que, independentemente de muito se ter dado apenas por dar, nunca se calhar fui tão pura e instantaneamente feliz, nunca me senti tão fantasticamente levitado porque tão querido, tão desejado. Ali, num corredor pre-fabricado, à porta da consulta onde depois entraste para melhor nos consultar-mos.
E a vida é isto. E obrigado por aquele dia, onde sei que não houve qualquer laivo, réstea, traço de mentira entre nós, só uma paixão muito grande, que o tempo acabou por desfazer, sem mais.
Até.
E a vida é isto. E obrigado por aquele dia, onde sei que não houve qualquer laivo, réstea, traço de mentira entre nós, só uma paixão muito grande, que o tempo acabou por desfazer, sem mais.
Até.
Segunda-feira, 5 de Julho de 2010
Calcanhoto
Já não me lembrava, a Adriana C. é uma brilhante cantante de semi-melancólicas canções de amor. E foi assim.
Claro que entre os 7 anos de Jacob pastor por Raquel da história bíblica e da camoniana poesia e o últimato de meia-hora do Vambora, o muito pedido encore, cinco séculos se passaram. Seis, se contarmos com o século que passou desde que pela primeira vez dei um beijo a uma rapariga. Pressas pos-modernas, antediluvianas estações do ano, ditadas frente ao espelho. "Como se não existisse um amanhã"? Desculpem, esta expressão não consigo tratá-la, faltam-me dados na minha base de...
Lembro Camões:
"Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!"
E lembro Adriana C., "Metade":
"Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim..."
Claro que entre os 7 anos de Jacob pastor por Raquel da história bíblica e da camoniana poesia e o últimato de meia-hora do Vambora, o muito pedido encore, cinco séculos se passaram. Seis, se contarmos com o século que passou desde que pela primeira vez dei um beijo a uma rapariga. Pressas pos-modernas, antediluvianas estações do ano, ditadas frente ao espelho. "Como se não existisse um amanhã"? Desculpem, esta expressão não consigo tratá-la, faltam-me dados na minha base de...
Lembro Camões:
"Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!"
E lembro Adriana C., "Metade":
"Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim..."
Domingo, 4 de Julho de 2010
Memória
Não devia voltar a
Falar de ti mas sim
Deste mar em estrondo,
Do vento corrido,
Dos que foram quinze
Mil e quinhentos quilómetros.
Hoje há sossego, os
Dois comandos de garagem pendem
Abandonados um de cada lado
Das chaves do carro, como dois
Testículos, o que não deixa de
Ter a sua lógica,
Mudas testemunhas
Afinal tenho quatro.
Não devia voltar a
Falar de ti, mas lá fora
Há este fogo de artifício
Que o define o nome, tão
Pobre a sua mão a expandir-se
Num céu de estrelas,
Fogo de engano.
E este vai ser o meu ano mas,
De que mais posso eu falar?
Falar de ti mas sim
Deste mar em estrondo,
Do vento corrido,
Dos que foram quinze
Mil e quinhentos quilómetros.
Hoje há sossego, os
Dois comandos de garagem pendem
Abandonados um de cada lado
Das chaves do carro, como dois
Testículos, o que não deixa de
Ter a sua lógica,
Mudas testemunhas
Afinal tenho quatro.
Não devia voltar a
Falar de ti, mas lá fora
Há este fogo de artifício
Que o define o nome, tão
Pobre a sua mão a expandir-se
Num céu de estrelas,
Fogo de engano.
E este vai ser o meu ano mas,
De que mais posso eu falar?
Sexta-feira, 2 de Julho de 2010
Falto eu.
Ora bem:
Urgente um estrado para o colchão, um sofá barato, cadeiras ou bancos. Um puff barato. Convocar a Cata para 5ª escolher a cama dela. Negociar as coisas dela a vir, peluches, livros, bolas, ela a decidir, acho.
Mais? O bonsai, o Futon, a mesinha de cabeceira pintada com o relógio disney e um - qualquer - candeeiro. O recolhedor de livros. Que livros? Jorge de Sena, JMM, JMFJ, AFA, HMP, algum Saramago, algum Cesariny, alguns novos, alguns espanhóis. Larkin, Virginia Woolf. Gaiman todo. Comics - os meus. Ter cuidado - se dedicatória é porque o dedicaste, não é teu. Que livros grandes? Não sei. Vê-se. CD's - os ao lado da aparelhagem, foram escolhidos premonitoriamente há + de um mês. E os mais recentes. Mais uma dezena de imprescindíveis. Filmes e séries o + possível. Um álbum de fotos à escolha. Três passepartouts três a escolher no momento. Ou quatro. Fotos dos meus pais.
Livros de estudo: Kaplan, Current, Neurology, Washington, Pharmacology.
Louça: pequeno almoço, copos, três pratos ladeiros e de sopa, 2 sertãs, uma panela. Tupperwares. Guardanapos. Toalha para a mesa ou resguardos? Microondas. Algo para pôr a roupa depois de passada a ferro, e algo para antes de. Ferro e tábua de engomar. Cruzetas. Roupa de cama - duas mudas. Roupa p cama da miúda. Almofada. Esfregona. Balde. Vassoura. Panos de pó. Produtos de limpeza. Aspirador. Aparelhagem mini. DVD cheap. Têvê velha por agora?
Roupa p verão/praia, toalhas. O toalhão de banho de sempre. Produtos de barba. Sauvage e Farenheit. Egoiste. O fato de treino embora não goste dele. A chilaba que o Laarbi me ofereceu. Duas camisas de manga comprida, um pullover. Roupa séria just in case? Um pijama para os dias da Cata. O calçado que falta. Os chinelos Pestana. Os crocs.
Dar uma volta mais e ver bem.
O homem-mundo. A caneca de Sargadelos. Os mapas de Ovar onde estão?
E eu? Falto eu.
Urgente um estrado para o colchão, um sofá barato, cadeiras ou bancos. Um puff barato. Convocar a Cata para 5ª escolher a cama dela. Negociar as coisas dela a vir, peluches, livros, bolas, ela a decidir, acho.
Mais? O bonsai, o Futon, a mesinha de cabeceira pintada com o relógio disney e um - qualquer - candeeiro. O recolhedor de livros. Que livros? Jorge de Sena, JMM, JMFJ, AFA, HMP, algum Saramago, algum Cesariny, alguns novos, alguns espanhóis. Larkin, Virginia Woolf. Gaiman todo. Comics - os meus. Ter cuidado - se dedicatória é porque o dedicaste, não é teu. Que livros grandes? Não sei. Vê-se. CD's - os ao lado da aparelhagem, foram escolhidos premonitoriamente há + de um mês. E os mais recentes. Mais uma dezena de imprescindíveis. Filmes e séries o + possível. Um álbum de fotos à escolha. Três passepartouts três a escolher no momento. Ou quatro. Fotos dos meus pais.
Livros de estudo: Kaplan, Current, Neurology, Washington, Pharmacology.
Louça: pequeno almoço, copos, três pratos ladeiros e de sopa, 2 sertãs, uma panela. Tupperwares. Guardanapos. Toalha para a mesa ou resguardos? Microondas. Algo para pôr a roupa depois de passada a ferro, e algo para antes de. Ferro e tábua de engomar. Cruzetas. Roupa de cama - duas mudas. Roupa p cama da miúda. Almofada. Esfregona. Balde. Vassoura. Panos de pó. Produtos de limpeza. Aspirador. Aparelhagem mini. DVD cheap. Têvê velha por agora?
Roupa p verão/praia, toalhas. O toalhão de banho de sempre. Produtos de barba. Sauvage e Farenheit. Egoiste. O fato de treino embora não goste dele. A chilaba que o Laarbi me ofereceu. Duas camisas de manga comprida, um pullover. Roupa séria just in case? Um pijama para os dias da Cata. O calçado que falta. Os chinelos Pestana. Os crocs.
Dar uma volta mais e ver bem.
O homem-mundo. A caneca de Sargadelos. Os mapas de Ovar onde estão?
E eu? Falto eu.
Do silêncio.
As palavras já não me assistem como antigamente. Não me defendem nem me protegem. Assim estou, sem protecção nem defesa. Nem precisarei visto não estar sob qualquer tipo de ataque. E o facto de não estar reside noutro andar, ou na falta do mesmo. Custa-me exactamente andar, por aqui ou por ali, sempre vem a pergunta acusatória "o que fazes aqui, meu? Que estás por aqui a fazer?" Então opto por conduzir a minha cápsula espaço-tempo quilómetros sobre quilómetros, numa, sim é verdade, conversa circular comigo mesmo. Conheço-as demasiado bem, as palavras. Já não me surpreendem. Já nada me surpreende. Minto. Hoje vinha e uma canção emocionou-me de uma forma particular, como já não acontecia há anos. Chega o cinismo vital que me rege a erguer este monstro que é a comoção e ao mesmo tempo um sorriso interno pela mesma, eis uma pequena surpresa. Por rima, da "pequena morte" não vou falar, pois esta que enfrento é um pouco ao lado e maior, embora a(s) dita(s), em doses judiciárias pudessem aplacar o fogo, cortar o mato, dissuadir a catástrofe de assaltar o verão que se aproxima. Mas não, não vai haver "pequenas mortes" que te salvem, amigo. E o cão foi dado, e é uma cadela. Que faço aqui? Não sei, juro que não sei. Sei que não queria estar onde antes ia, e realmente os meus tempos ali eram como raides a um outro mundo, onde um diáfano brilho matinal com alteração de circadianos torcia qualquer sensação de vida real que se pudesse ter. Parecia sempre de manhã e que havia direito a torradas. Nem que chovessem picaretas. E chovem, oh se chovem. E as torradas eram sempre boas. E todos sabemos como ao cair a manteiga fica sempre para cima.
Se o que escrito levo faz algum sentido, que não faz, serve apenas para demonstrar como não posso andar a caminhar "por aí". Caminhar implica um sentido, ou pior ainda, uma direcção. Se hesitas vários olhares logo te questionam sobre a direcção que levas ou que procuras. Suspeitam. Interrogam-se. Estou velho para estas merdas. E porém fui especialmente equipado para o sol e suas cores, para o vento e suas correntes, para o fogo e seus intervalos.
E para o silêncio incandescente, o que hoje não é bem o caso.
Se o que escrito levo faz algum sentido, que não faz, serve apenas para demonstrar como não posso andar a caminhar "por aí". Caminhar implica um sentido, ou pior ainda, uma direcção. Se hesitas vários olhares logo te questionam sobre a direcção que levas ou que procuras. Suspeitam. Interrogam-se. Estou velho para estas merdas. E porém fui especialmente equipado para o sol e suas cores, para o vento e suas correntes, para o fogo e seus intervalos.
E para o silêncio incandescente, o que hoje não é bem o caso.
Foco
Sim, não, talvez, quem sabe. Desanimado, eu? E agora, vida? Porque eu agora vejo - eu vou lá chegar, já percebi. É só ir seguindo a estreita linha. E sem me importar o preço. Os bolsos leves. Mas falta alguma coisa.
Domingo, 27 de Junho de 2010
Uma história plebeia acontecida no Marquês.
Há momentos na vida que deviam permanecer suspensos e intocáveis, não se admitindo um depois, todas essas coisas que a seguir se desencadeiam e assustam, estragam, degradam o esse momento, tempo mais alto onde estivemos e donde não gostaríamos nunca de ter saído. O antes sendo apenas um prefácio elegíaco e antecipatório.
Assim foi e aconteceu quando e e C. descemos do 79 em Março de 1983 para passear um pouco no Marquês e acabámos por sentarmo-nos num dos bancos de jardim que por ali há. Costas voltadas para um café cujo dono é hoje meu doente e a quem eu também já há alguns anos tirei as ideias de matar a esposa por sonhada infidelidade. Visita semestral, nunca ele teve oportunidade de me oferecer um café que seja, os mais loucos que eu atrapalham-me, se não mansos, e ele pensou em esfaquear quem nunca tão pouco conhecerei. O banco era virado a poente, não me lembro se existia muito sol, não me lembro de demasiada luz.
As mãos. Continua a ser um compromisso especial, a mão que se dá a outra e assim repousa, encontra, indaga. Não vou mentir ao antes escrito e expor como este dia não foi posteriormente cumprido. Como a promessa de misteriosas forças – que todos sabemos existirem – ultrapassarem a barragem universal que nos impede, um e outro e outro dia, de apenas termos esta pequena altura e menos ainda, tão frequente vivemos ajoelhados, não se cumpriu. Ora sucede que de leituras então não muito antigas em revistas femininas de casa, eu por curiosidade tinha adquirido bom saber sobre as linhas da palma da mão. Conseguia dar-lhes nomes e não apenas, algum relevo tinha também direito a designação outra, bem como acidentes, cortes, cruzamentos, depressões. A partir daqui podia-se construir toda uma vida, as suas linhas eram chamadas, nada como pegar numa mão e aplicar a teoria numa prática que era algo de diferente, o tocar a coisa amada, electricidade. Diz-se desta como estática, eu discordo. Já não me lembro das aulas da física o porquê do nome, mas eu sei que as cargas que se transmitem por pequenos e leves toques, por ex. de dedos, podem correr mundo, ou chegar ainda mais longe, ao mais extremo oposto do corpo tocado ou à sua margem mais íntima.
A leve carga foi sendo transmitida, e o primeiro de outros contos foi contado e corrigido, sendo que o enredo já o perdi, bem como o saber dessas tais linhas, era Março e o meu aniversário estava por acontecer. Despedida C. em paragem de autocarro que descia a Constituição - o 20? -, desci eu Camões a cumprimentar todo e cada um dos traseuntes e oferecendo-lhes de uma bola de berlim que ia comendo, então a minha confeitaria preferida. Recebi dias depois bem desenhado lenço como prenda de aniversário. Mas, cá está, fujo ao que prometi, já foi o lenço depois, não conta, não interessa, embora não o tenha perdido e ache que ainda sobrevive algures por pouco uso, mais importa o ter eu perdido a certeza da data – quinze? – e menos ainda saber distinguir entre a linha da vida e a linha do coração ou do amor, isto sim não um momento mas um resumo de estes anos todos que àquela tarde no Marquês se sucederam.
Assim foi e aconteceu quando e e C. descemos do 79 em Março de 1983 para passear um pouco no Marquês e acabámos por sentarmo-nos num dos bancos de jardim que por ali há. Costas voltadas para um café cujo dono é hoje meu doente e a quem eu também já há alguns anos tirei as ideias de matar a esposa por sonhada infidelidade. Visita semestral, nunca ele teve oportunidade de me oferecer um café que seja, os mais loucos que eu atrapalham-me, se não mansos, e ele pensou em esfaquear quem nunca tão pouco conhecerei. O banco era virado a poente, não me lembro se existia muito sol, não me lembro de demasiada luz.
As mãos. Continua a ser um compromisso especial, a mão que se dá a outra e assim repousa, encontra, indaga. Não vou mentir ao antes escrito e expor como este dia não foi posteriormente cumprido. Como a promessa de misteriosas forças – que todos sabemos existirem – ultrapassarem a barragem universal que nos impede, um e outro e outro dia, de apenas termos esta pequena altura e menos ainda, tão frequente vivemos ajoelhados, não se cumpriu. Ora sucede que de leituras então não muito antigas em revistas femininas de casa, eu por curiosidade tinha adquirido bom saber sobre as linhas da palma da mão. Conseguia dar-lhes nomes e não apenas, algum relevo tinha também direito a designação outra, bem como acidentes, cortes, cruzamentos, depressões. A partir daqui podia-se construir toda uma vida, as suas linhas eram chamadas, nada como pegar numa mão e aplicar a teoria numa prática que era algo de diferente, o tocar a coisa amada, electricidade. Diz-se desta como estática, eu discordo. Já não me lembro das aulas da física o porquê do nome, mas eu sei que as cargas que se transmitem por pequenos e leves toques, por ex. de dedos, podem correr mundo, ou chegar ainda mais longe, ao mais extremo oposto do corpo tocado ou à sua margem mais íntima.
A leve carga foi sendo transmitida, e o primeiro de outros contos foi contado e corrigido, sendo que o enredo já o perdi, bem como o saber dessas tais linhas, era Março e o meu aniversário estava por acontecer. Despedida C. em paragem de autocarro que descia a Constituição - o 20? -, desci eu Camões a cumprimentar todo e cada um dos traseuntes e oferecendo-lhes de uma bola de berlim que ia comendo, então a minha confeitaria preferida. Recebi dias depois bem desenhado lenço como prenda de aniversário. Mas, cá está, fujo ao que prometi, já foi o lenço depois, não conta, não interessa, embora não o tenha perdido e ache que ainda sobrevive algures por pouco uso, mais importa o ter eu perdido a certeza da data – quinze? – e menos ainda saber distinguir entre a linha da vida e a linha do coração ou do amor, isto sim não um momento mas um resumo de estes anos todos que àquela tarde no Marquês se sucederam.
Primeira abordagem dos espaços exteriores do Foco.
Por aqui namorei quem acabou por ser perdida, por aqui andei a aprender o verbo, muito depois viriam os complementos. Estranho este espaço, os pequenos declives tão infrequentes nesta cidade. Assim se perde o amor, um deslizar de terras inconsequente, nem duas linhas nos jornais e porém. Outras vezes muro subitamente erguido e o choque frontal. Perde-se igual. Se para tudo há termo e há medida, eu peço, melhor, invoco, para essa tua ferida o fecho e a boa cerzura e para mim nada, vês, nem me mexo... sempre à espera do último primeiro beijo.
Ensaio
O amar não aparece.
Sombra de uma sombra
Que é a sombra destes muitos
Anos, amar não
Esquece mas não vem.
E é tempo de uma maré alta e
O mar que não desce, e este
Fio de água que me alimenta
Não chega e já é tarde e
Nunca é a última curva do
Caminho, e porque não
Queremos facilitar a rima
Aqui se despede aquele
Que muito te estima.
Sombra de uma sombra
Que é a sombra destes muitos
Anos, amar não
Esquece mas não vem.
E é tempo de uma maré alta e
O mar que não desce, e este
Fio de água que me alimenta
Não chega e já é tarde e
Nunca é a última curva do
Caminho, e porque não
Queremos facilitar a rima
Aqui se despede aquele
Que muito te estima.
Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
Doca Seca
Os anjos já não voam,
Deitados esperam.
E a ausência que geram
Ao não se quererem
Levantar, cria um buraco mas
Não no espaço-tempo, sim num
Meu dente que morder
Devia em suaves rendas,
Terrenos que me eram de
Vidos e que demasiado alto
Me foram erguidos.
Deitados esperam.
E a ausência que geram
Ao não se quererem
Levantar, cria um buraco mas
Não no espaço-tempo, sim num
Meu dente que morder
Devia em suaves rendas,
Terrenos que me eram de
Vidos e que demasiado alto
Me foram erguidos.
Domingo, 20 de Junho de 2010
Os caracóis que não são para comer.
Os caracóis, lentos
mensageiros.
De um tempo mais
feliz onde havia
festa e uma pos
sível solução.
O reflexo nos
meus e nos teus
olhos anuncia as
futuras cataratas,
o glaucoma que é
apenas um excesso
de tensão, hoje
não terão qual
quer sentido os
caracóis, os teus,
porque em mim já
nada o tem, tudo
o que é meu redu
zido a um ponto
e mesmo este
ainda por
marcar.
mensageiros.
De um tempo mais
feliz onde havia
festa e uma pos
sível solução.
O reflexo nos
meus e nos teus
olhos anuncia as
futuras cataratas,
o glaucoma que é
apenas um excesso
de tensão, hoje
não terão qual
quer sentido os
caracóis, os teus,
porque em mim já
nada o tem, tudo
o que é meu redu
zido a um ponto
e mesmo este
ainda por
marcar.
Dos caracóis.
Pode parecer estranho mas começo por dizer que já comi caracóis. Vejo-me ao espelho e vejo a cara de um velho. Ainda este carnaval o meu amigo Luis Correia, que fez comigo um programa de rádio durante dois anos não me reconheceu. A menina dos caracóis. Então, está tudo explicado!
Mas não está.
Mas não está.
Sábado, 19 de Junho de 2010
Trabalho e fuga a duas vozes
Eu, tu, tu e eu trabalhamos bem mais horas do que aquelas que nos eram devidas.
Imaginemos que não.
Tu sentas-te, eu preparo as bebidas.
Vai começar. O quê? Não sei ainda, sei porém que não será trabalho.
Eu, tu, tu e eu chegamos aquele sítio esgotados. É possível que nos procurem nas melhores livrarias ou no quiosque da esquina, mas a resposta repete-se: esgotados!
Nas traseiras do edifício o rapaz com a pá e a vassoura varre os nossos restos e procura restaurar os bocados.
Eu, tu, tu e eu...
Imaginemos que não.
Tu sentas-te, eu preparo as bebidas.
Vai começar. O quê? Não sei ainda, sei porém que não será trabalho.
Eu, tu, tu e eu chegamos aquele sítio esgotados. É possível que nos procurem nas melhores livrarias ou no quiosque da esquina, mas a resposta repete-se: esgotados!
Nas traseiras do edifício o rapaz com a pá e a vassoura varre os nossos restos e procura restaurar os bocados.
Eu, tu, tu e eu...
Domingo, 13 de Junho de 2010
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010
Para memória futura
Gosto daqueles que vivem
Sem intervalos,
Que não negoceiam,
Dos que levam o
Que é recusado contra
A parede e perdendo
Ainda apostam e na
Queda ganham,
Gosto.
Gosto dos que pela
Vida se extendem
Uniformes, levantados,
Como farol que
Repete e não se engana,
Gosto. Dos que não
Aguentam e ficam ou vão
Embora mas bem decidem,
O mundo é mais espesso
Porque persistem e estão,
Gosto. Daqueles que
Mesmo arruinados mais
Altos estão, porque têm
Como dez andares, e cada um
Foi aquela volta completa
Que ainda está por
Contar, gosto.
Firmes, exactos,
Completos. Sem buracos e
Sem omissões. Secretos.
Enormes.
Gosto. Prefiro.
Admiro.
Sem intervalos,
Que não negoceiam,
Dos que levam o
Que é recusado contra
A parede e perdendo
Ainda apostam e na
Queda ganham,
Gosto.
Gosto dos que pela
Vida se extendem
Uniformes, levantados,
Como farol que
Repete e não se engana,
Gosto. Dos que não
Aguentam e ficam ou vão
Embora mas bem decidem,
O mundo é mais espesso
Porque persistem e estão,
Gosto. Daqueles que
Mesmo arruinados mais
Altos estão, porque têm
Como dez andares, e cada um
Foi aquela volta completa
Que ainda está por
Contar, gosto.
Firmes, exactos,
Completos. Sem buracos e
Sem omissões. Secretos.
Enormes.
Gosto. Prefiro.
Admiro.
A solução para este enigma
Se calhar, meu amor, acabei de encontrar a solução para tudo isto. Esse que este fim-de-semana provavelmente te vai abraçar, nele queria entrar e tomar a sua forma, para que por intervalo de tempo na sua voz se formasse o meu sopro e que o seu gesto tomasse o meu sentido , e que a sua acção tivesse a minha intenção. No meio das palavras ditas, notarias, eu sei, alguma diferença. E talvez a luz, por escuro que o quarto seja, fosse, é. Escura é sempre a saída do labirinto, escasso o fio que nos liga a Grécia. Animal pendente de escolha, de cornos não decorado apesar do dedicado poema de Jorge de Sena, há esta esquina onde estou à tua espera. Virás então, improvável, fervendo ou a tremer de frio, não sei, como saber, e dirás primeiro, que "afinal eras tu!", e segundo, que animal sou eu.
Domingo, 6 de Junho de 2010
Sábado, 5 de Junho de 2010
And them...
Sex is great fun, though. Great fun! Lembro-me de uma miúda que a cada orgasmo ficava com rosáceas pelo corpo todo, como se uma alergia, tal a descarga, tal o acontecido. Não me lembro de maior reforço positivo, não me lembro de maior espectáculo. Talvez o pôr do sol e um fino em Matosinhos ou no Furadouro, e algo menos cansativo, mas estamos a falar de coisas diferentes. Ou sair da casa de alguém e cheirar a manhã e perceber que sabemos cheirar...
Sem cama atribuida.
Doente do sexo masculino, 46 anos, casado, natural de Ovar, residente em Matosinhos, médico.
Mão dominante: esquerda mas escreve com direita.
Rankin prévio: 0
Centro de Saúde: Senhora da Hora.
Não internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, por não preencher critérios para tal.
Antecedentes pessoais relevantes:
Nega hipertensão, diabetes, dislipidemia, sem hx de doença coronária. Sem enxaquecas. Cefaleias de tensão.
Fumador ocasional; consumo de álcool: ocasional.
Outras patologias:parotidite em criança; sem consequências testiculares. Varicela e sarampo quando jovem adulto, o que quer dizer que já foi há algum tempo.
Cirurgias prévias: cirurgia a tumor vesical em 2004. Fez posteriormente quimioterapia Ivesical. Controlo errático. Cirurgia de quisto pilonidal sacrococcígeo há 25 anos. Documentação nesse procedimento de alteração curiosa de curvatura do sacro.
Alergias medicamentosas: não. Alérgico ao leite "Pensal" em criança. Sem materiais heterólogos.
Medicação habitual: não.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: viva, 72 anos. Medicada por patologia psiquiátrica minor - obsessão, compulsão sobreposta a ansiedade crónica.
Pai: vivo, 83 anos. Ex-fumador. Hipertenso, possível doença coronária, doença pulmonar crónica, prostatismo.
Irmãos: não. Tem primos, no geral antipáticos.
Sem hx familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente ontem deitou-se bem tarde e dormiu para variar pouco. Hoje levantou-se apreensivo e posteriormente foi ficando bem disposto. Pela tarde dentro discutiu o sexo (de quem? não esclarece) o que o perturbou de sobremaneira. Agora não parece dizer coisa com coisa. Deu entrada neste Hospital pelas 8h20m (registo electrónico) - e predominante mas não exclusivamente tem estado a trabalhar.
Não realizou nenhum estudo.
Na não admissão à Unidade de AVC o doente não refere queixas. Aqui e ali refer: "e se mudássemos de assunto, hã?".
Ao exame objectivo: PA: 126/71 mm Hg FC: 84 ritm T aur: 36,6 Sat O2: 98%
Peso: 74,5kg Altura: 1,72m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sem sopros. AP: sem ruidos adventícios. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, colaborante, orientado. Discurso fluente. Sem alterações campimétricas. Pupilas isocóricas, médias, fotoreactivas. Sem assimetria da fenda palpebral. Movimentos oculares conservados em todas as direcções. Sem assimetria facial. Sem défices motores pontuáveis. Sem disartria. RCP flexores. Nega assimetria nas sensibilidades. Nota: mantem algum discurso errático.
NIHSS: 0.
Recusa ter alta e voltar ao domicílio. Aliás perante esta palavra esboça um "riso sardónico", como se diz na banda desenhada... e usa um que outro palavrão.
Este sim, é um caso complicado.
Mão dominante: esquerda mas escreve com direita.
Rankin prévio: 0
Centro de Saúde: Senhora da Hora.
Não internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, por não preencher critérios para tal.
Antecedentes pessoais relevantes:
Nega hipertensão, diabetes, dislipidemia, sem hx de doença coronária. Sem enxaquecas. Cefaleias de tensão.
Fumador ocasional; consumo de álcool: ocasional.
Outras patologias:parotidite em criança; sem consequências testiculares. Varicela e sarampo quando jovem adulto, o que quer dizer que já foi há algum tempo.
Cirurgias prévias: cirurgia a tumor vesical em 2004. Fez posteriormente quimioterapia Ivesical. Controlo errático. Cirurgia de quisto pilonidal sacrococcígeo há 25 anos. Documentação nesse procedimento de alteração curiosa de curvatura do sacro.
Alergias medicamentosas: não. Alérgico ao leite "Pensal" em criança. Sem materiais heterólogos.
Medicação habitual: não.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: viva, 72 anos. Medicada por patologia psiquiátrica minor - obsessão, compulsão sobreposta a ansiedade crónica.
Pai: vivo, 83 anos. Ex-fumador. Hipertenso, possível doença coronária, doença pulmonar crónica, prostatismo.
Irmãos: não. Tem primos, no geral antipáticos.
Sem hx familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente ontem deitou-se bem tarde e dormiu para variar pouco. Hoje levantou-se apreensivo e posteriormente foi ficando bem disposto. Pela tarde dentro discutiu o sexo (de quem? não esclarece) o que o perturbou de sobremaneira. Agora não parece dizer coisa com coisa. Deu entrada neste Hospital pelas 8h20m (registo electrónico) - e predominante mas não exclusivamente tem estado a trabalhar.
Não realizou nenhum estudo.
Na não admissão à Unidade de AVC o doente não refere queixas. Aqui e ali refer: "e se mudássemos de assunto, hã?".
Ao exame objectivo: PA: 126/71 mm Hg FC: 84 ritm T aur: 36,6 Sat O2: 98%
Peso: 74,5kg Altura: 1,72m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sem sopros. AP: sem ruidos adventícios. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, colaborante, orientado. Discurso fluente. Sem alterações campimétricas. Pupilas isocóricas, médias, fotoreactivas. Sem assimetria da fenda palpebral. Movimentos oculares conservados em todas as direcções. Sem assimetria facial. Sem défices motores pontuáveis. Sem disartria. RCP flexores. Nega assimetria nas sensibilidades. Nota: mantem algum discurso errático.
NIHSS: 0.
Recusa ter alta e voltar ao domicílio. Aliás perante esta palavra esboça um "riso sardónico", como se diz na banda desenhada... e usa um que outro palavrão.
Este sim, é um caso complicado.
Cama 3
Doente do sexo masculino, 61 anos, viúvo, natural da Trofa, residente na Maia com filha, reformado, era encarregado na construção civil, 4º ano escolaridade.
Mão dominante: direita.
Rankin prévio: 0
Centro de Saúde: Nogueira da Maia.
Internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, proveniente do SU (Sala Laranja), por AVC isquémico.
Antecedentes pessoais relevantes:
Hipertensão Arterial e Diabetes Mellitus tipo 2 medicados, Dislipidemia, ev hx de doença coronária.
EX- fumador, deixou há 5 anos; consumo de álcool: moderado, as refeições.
Nega doenças infecciosas (hepatite, meningite, tuberculose, sífilis, SIDA) e traumáticas (TCE ou TVM).
Outras patologias:nega.
Cirurgias prévias: cirurgia a joelho direito há décadas.
Alergias medicamentosas: não. Ev. material heterólogo no joelho.
Medicação habitual:
Lisipril 20 mg; Amlodipina 5 mg; Aspirina 100 mg; Insulina Insulatard 28+22, 10U Actrapid ao almoço. Sinvastatina; Tamsulosina.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: suicidou-se na 7ª década.
Pai:faleceu por AVC na 7ª década.
Irmãos: 3 falecidos, 1 por Enfarte agudo do miocárdio na 5ª década, 1 por complicações de Diabetes, 1 por cirrose hepática alcoólica. Dos 5 vivos
Sem hx familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente ontem deitou-se bem, hoje pelas 8h30m algo depois de acordar notou hemihipostesia esquerda.
Vinda ao SU onde entrou pelas 11h34m.
Estava hemodinamicamente hipertenso (PA: 170/83mmHg; P radial:67 ppm) e apirético. Ao exame neurológico apresentava disartria, hemihipostesia esquerda, hemiparesia FM4, não pontuada. NIHSS - 2
Realizou o seguinte estudo:
Analítico (hemograma, bioquímica e estudo da coagulação): microcitose, hiperglicemia.
ECG: ritmo sinusal.
TC cerebral: "sequela de enfarte antigo em localização cortico-subcortical occipito-temporal dta."
Foi transferido para a Unidade de AVC para prosseguir estudo etiológico e tratamento de AVC isquémico da circulação anterior.
Na admissão à Unidade de AVC o doente não trefere queixas.
Ao exame objectivo: PA: 166/91 mm Hg FC: 64 ritm T aur: 36,4 Sat O2: 98%
Peso: 94kg Altura: 1,68m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sem sopros. AP: sem ruidos adventícios. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, colaborante, orientado. Discurso fluente. Sem alterações campimétricas. Pupilas isocóricas, médias, fotoreactivas. Sem assimetria da fenda palpebral. Movimentos oculares conservados em todas as direcções. Sem assimetria facial. Sem défices motores pontuáveis. Disartria mt ligeira. RCP flexores. Nega assimetria nas sensibilidades.
NIHSS: 1
Mão dominante: direita.
Rankin prévio: 0
Centro de Saúde: Nogueira da Maia.
Internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, proveniente do SU (Sala Laranja), por AVC isquémico.
Antecedentes pessoais relevantes:
Hipertensão Arterial e Diabetes Mellitus tipo 2 medicados, Dislipidemia, ev hx de doença coronária.
EX- fumador, deixou há 5 anos; consumo de álcool: moderado, as refeições.
Nega doenças infecciosas (hepatite, meningite, tuberculose, sífilis, SIDA) e traumáticas (TCE ou TVM).
Outras patologias:nega.
Cirurgias prévias: cirurgia a joelho direito há décadas.
Alergias medicamentosas: não. Ev. material heterólogo no joelho.
Medicação habitual:
Lisipril 20 mg; Amlodipina 5 mg; Aspirina 100 mg; Insulina Insulatard 28+22, 10U Actrapid ao almoço. Sinvastatina; Tamsulosina.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: suicidou-se na 7ª década.
Pai:faleceu por AVC na 7ª década.
Irmãos: 3 falecidos, 1 por Enfarte agudo do miocárdio na 5ª década, 1 por complicações de Diabetes, 1 por cirrose hepática alcoólica. Dos 5 vivos
Sem hx familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente ontem deitou-se bem, hoje pelas 8h30m algo depois de acordar notou hemihipostesia esquerda.
Vinda ao SU onde entrou pelas 11h34m.
Estava hemodinamicamente hipertenso (PA: 170/83mmHg; P radial:67 ppm) e apirético. Ao exame neurológico apresentava disartria, hemihipostesia esquerda, hemiparesia FM4, não pontuada. NIHSS - 2
Realizou o seguinte estudo:
Analítico (hemograma, bioquímica e estudo da coagulação): microcitose, hiperglicemia.
ECG: ritmo sinusal.
TC cerebral: "sequela de enfarte antigo em localização cortico-subcortical occipito-temporal dta."
Foi transferido para a Unidade de AVC para prosseguir estudo etiológico e tratamento de AVC isquémico da circulação anterior.
Na admissão à Unidade de AVC o doente não trefere queixas.
Ao exame objectivo: PA: 166/91 mm Hg FC: 64 ritm T aur: 36,4 Sat O2: 98%
Peso: 94kg Altura: 1,68m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sem sopros. AP: sem ruidos adventícios. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, colaborante, orientado. Discurso fluente. Sem alterações campimétricas. Pupilas isocóricas, médias, fotoreactivas. Sem assimetria da fenda palpebral. Movimentos oculares conservados em todas as direcções. Sem assimetria facial. Sem défices motores pontuáveis. Disartria mt ligeira. RCP flexores. Nega assimetria nas sensibilidades.
NIHSS: 1
Cama seis.
Doente do sexo masculino, 79 anos, casado, natural de Gondomar e residente em Ermesinde, técnico de vendas reformado por idade.
Escolaridade: 4º classe
Mão dominante: direita.
Rankin prévio: 0/2.
Centro de Saúde: Ermesinde.
Internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, proveniente do SU (Sala Laranja), por AVC isquémico.
Antecedentes pessoais relevantes:
Hipertensão Arterial como diagnóstico antigo, medicado. Diabetes Mellitus de diagnóstico recente, só dieta. Dislipidemia - hipetrigliceridemia?
História recente de arritmia - fibrilhação auricular, documentada em ECG e Ecocardiograma - antiagregado e medicado com Concor.
Dois episódios recentes de tonturas e pre-sincope, o último a 31/05, com vinda ao SU deste hospital.
Terá tb patologia digestiva - difícil de esclarecer qual - e diagnóstico recente de anemia.
O ecocardiograma (26/05/010): AE 46 mm; SIV 12 PP 9; boa FSVE, PSAP 48 mmHg (doente referido como estando em FA).
EX- fumador; consumo de álcool: moderado.
Nega doenças infecciosas (hepatite, meningite, tuberculose, sífilis, SIDA) e traumáticas (TCE ou TVM).
Outras patologias: não referidas. A ajuizar de Alert de 31/05 - apneia de sono?
Cirurgias prévias: não referidas. Prostatectomizado?
Alergias medicamentosas: não conhecidas.
Medicação habitual:
Concor IC; Olsar Plus; Supralip; Aspirina. +? Em Alert de 31/05 referência a Furosemida, Motilium, Omeprazole e Lexotan.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: falecida por complicações de Diabetes na 7ª década.
Pai: falecido aos 54 anos durante cirurgia gástrica.
Irmãos: 2 meios-irmãos falecidos, 1 deles com Diabetes. 3 irmãs vivas com Hipertensão e Diabetes.
Sem história familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente teve instalação súbita de hemiplegia direita e afasia pelas 12h30m enquanto almoçava num restaurante.
Foi trazido ao SU deste hospital onde deu entrada às 12h59m, com bradicardia (PA: 118/75 mmHg; P radial:37 ppm, ritmico) e apirético. Ao exame neurológico apresentava afasia global, hemiplegia direita com hipostesia homolateral, vigil. NIHSS - 23. Foi medicado com 1,5 mg atropina ev.
Realizou o seguinte estudo:
Analítico (hemograma, bioquímica e estudo da coagulação): Hb 11,2 Creat 15,7 Ur 0,85 Plaq 172000.
ECG: bradicardia sinusal com BAV 1º grau.
TC cerebral: Area hipodensa fronto-insular esquerda sem significativo efeito de massa sobre as estruturas vizinhas a traduzir lesão isquémica em evolução".
Iniciou tratamento trombolítico as 13h50m. No fim da tropmbólise pontua 18 (fecha e abre olhos a comando; levanta MS ñ sustentada/ e coxa dir; cumpre algumas ordens).
Por quadro de aparente estridor fez Adrenalina e foi obs. por ORL que não encontrou alterações. Posteriormente a clínica evoluiu para EAP pelo que foi medicado com Furosemida, perf DNI e Boussignac. Teve boa resposta mas evoluiu para acidose respiratória pelo que foi-lhe colocado BIPAP (17/8) com boa tolerância.
Foi transferido para a Unidade de AVC para prosseguir estudo etiológico e tratamento de AVC isquémico da circulação anterior de provavel etiologia cardioembólica.
Na admissão à Unidade de AVC o doente não cumpre ordens, estando razoavelmente adaptado ao BIPAP.
Ao exame objectivo: PA: 116/61 mm Hg FC: 57 arr (arritmia sinusal) T aur: 36,4 Sat O2:98%
Peso: 80kg Altura: 1,75m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sopro sistólico BEE AP: apagamento base direita. Respiração abdominal. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, abre olhos à chamada, olhos na linha média. Não cumpre ordens, aperta a mão esquerda por reflexo. Afasia global. Hemianópsia homónima direita. Paresia facial central direita. Pupilas isocóricas, midriáticas bilateralmente (doente atropinizado.) Sem assimetria da fenda palpebral. Hemiparesia direita FM1 com hipostesia homolateral. Babinsky direito. Sem meningismo.
NIHSS: (122122303001320) = 22.
Faz-se GSA (9L): pH 7,385 pCO2 38,6 pO2 82 HCO3 22,6 Boa adaptação a BIPAP.
Faz-se desmame progressivo de nitratos.
Escolaridade: 4º classe
Mão dominante: direita.
Rankin prévio: 0/2.
Centro de Saúde: Ermesinde.
Internado na Unidade de AVC em 04-06-2010, proveniente do SU (Sala Laranja), por AVC isquémico.
Antecedentes pessoais relevantes:
Hipertensão Arterial como diagnóstico antigo, medicado. Diabetes Mellitus de diagnóstico recente, só dieta. Dislipidemia - hipetrigliceridemia?
História recente de arritmia - fibrilhação auricular, documentada em ECG e Ecocardiograma - antiagregado e medicado com Concor.
Dois episódios recentes de tonturas e pre-sincope, o último a 31/05, com vinda ao SU deste hospital.
Terá tb patologia digestiva - difícil de esclarecer qual - e diagnóstico recente de anemia.
O ecocardiograma (26/05/010): AE 46 mm; SIV 12 PP 9; boa FSVE, PSAP 48 mmHg (doente referido como estando em FA).
EX- fumador; consumo de álcool: moderado.
Nega doenças infecciosas (hepatite, meningite, tuberculose, sífilis, SIDA) e traumáticas (TCE ou TVM).
Outras patologias: não referidas. A ajuizar de Alert de 31/05 - apneia de sono?
Cirurgias prévias: não referidas. Prostatectomizado?
Alergias medicamentosas: não conhecidas.
Medicação habitual:
Concor IC; Olsar Plus; Supralip; Aspirina. +? Em Alert de 31/05 referência a Furosemida, Motilium, Omeprazole e Lexotan.
Antecedentes familiares relevantes:
Mãe: falecida por complicações de Diabetes na 7ª década.
Pai: falecido aos 54 anos durante cirurgia gástrica.
Irmãos: 2 meios-irmãos falecidos, 1 deles com Diabetes. 3 irmãs vivas com Hipertensão e Diabetes.
Sem história familiar de doença neurológica nomeadamente DVC em idade jovem, atraso mental, epilepsia, demência.
História da doença actual:
O doente teve instalação súbita de hemiplegia direita e afasia pelas 12h30m enquanto almoçava num restaurante.
Foi trazido ao SU deste hospital onde deu entrada às 12h59m, com bradicardia (PA: 118/75 mmHg; P radial:37 ppm, ritmico) e apirético. Ao exame neurológico apresentava afasia global, hemiplegia direita com hipostesia homolateral, vigil. NIHSS - 23. Foi medicado com 1,5 mg atropina ev.
Realizou o seguinte estudo:
Analítico (hemograma, bioquímica e estudo da coagulação): Hb 11,2 Creat 15,7 Ur 0,85 Plaq 172000.
ECG: bradicardia sinusal com BAV 1º grau.
TC cerebral: Area hipodensa fronto-insular esquerda sem significativo efeito de massa sobre as estruturas vizinhas a traduzir lesão isquémica em evolução".
Iniciou tratamento trombolítico as 13h50m. No fim da tropmbólise pontua 18 (fecha e abre olhos a comando; levanta MS ñ sustentada/ e coxa dir; cumpre algumas ordens).
Por quadro de aparente estridor fez Adrenalina e foi obs. por ORL que não encontrou alterações. Posteriormente a clínica evoluiu para EAP pelo que foi medicado com Furosemida, perf DNI e Boussignac. Teve boa resposta mas evoluiu para acidose respiratória pelo que foi-lhe colocado BIPAP (17/8) com boa tolerância.
Foi transferido para a Unidade de AVC para prosseguir estudo etiológico e tratamento de AVC isquémico da circulação anterior de provavel etiologia cardioembólica.
Na admissão à Unidade de AVC o doente não cumpre ordens, estando razoavelmente adaptado ao BIPAP.
Ao exame objectivo: PA: 116/61 mm Hg FC: 57 arr (arritmia sinusal) T aur: 36,4 Sat O2:98%
Peso: 80kg Altura: 1,75m
Pele e mucosas coradas e hidratadas; sem TVJ a 30º; sem sopros carotídeos; tiroide impalpável; sem adenomegalias cervicais; AC: S1 e S2 normal, sopro sistólico BEE AP: apagamento base direita. Respiração abdominal. Abdómen mole e depressível, indolor à palpação profunda, sem organomegalias; sem edemas periféricos.
Ao exame neurológico: consciente, abre olhos à chamada, olhos na linha média. Não cumpre ordens, aperta a mão esquerda por reflexo. Afasia global. Hemianópsia homónima direita. Paresia facial central direita. Pupilas isocóricas, midriáticas bilateralmente (doente atropinizado.) Sem assimetria da fenda palpebral. Hemiparesia direita FM1 com hipostesia homolateral. Babinsky direito. Sem meningismo.
NIHSS: (122122303001320) = 22.
Faz-se GSA (9L): pH 7,385 pCO2 38,6 pO2 82 HCO3 22,6 Boa adaptação a BIPAP.
Faz-se desmame progressivo de nitratos.
Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
So... sex.
Bom. Falemos então de sexo.
É nada. É tudo. 2ªs e 4ªs. 3ªs e 5ªs. Descansemos uns dias que já não dou para mais.
Sexo é nada. É agua, é um cachorro quente, uma francesinha, vamos. O que pode ser tudo é o peri-sexo. O sexo permite coisas antes, durante e sobretudo depois, que podem marcar um tempo muito amplo, para nos deixarmos daquela coisa "da vida". Se, e repito - se as defesas estiverem mesmo em baixo e mesmo assim tudo correr muito bem, os gestos a seu tempo, os levantares, os sentares e os olhares também, já estamos a falar de muito mais do que sexo. Que sem sexo não estaria ali.
E porque evito aqui cuidadosamente a palavra "amor"?
French say it better: "faire l'amour". Com o "l'" a explicar o único da coisa. Porque logo a seguir o feito é desfeito, uma e cem vezes. Até que um dia não. E se durar dez anos, no fim é fodido, é certo. Mas entretanto,uma benção. Ou não, se a jogada fôr em declive, um lento e pavoroso desmoronar, dia a dia. Só vendo, sempre.
Nas idades mais avançadas, o sexo ganha diferentes cores. Porquê? Porque em princípio é difícil a não repetição. Porque sexo é (também) um jogo. E a consciência do jogo limita o voo, sempre. E então podemos ou relativizar e avançar directamente para o centro do court de ténis e jogar sem mais instrução, ou, pelo contrário, ir atrasando a partida para um fim de época ainda por vir, e vamos falando. O risco é a época nunca chegar realmente ao fim ou a essa final tão desejada, por nunca por nunca os atletas se sentirem preparados para o embate. Porque o sexo também é embate, competição, medida, corrida, meta. E mate. Deseja-se que sem "cheque" pelo meio.
E o "amor"? É uma hipótese. E correm muitas teorias sobre.
É nada. É tudo. 2ªs e 4ªs. 3ªs e 5ªs. Descansemos uns dias que já não dou para mais.
Sexo é nada. É agua, é um cachorro quente, uma francesinha, vamos. O que pode ser tudo é o peri-sexo. O sexo permite coisas antes, durante e sobretudo depois, que podem marcar um tempo muito amplo, para nos deixarmos daquela coisa "da vida". Se, e repito - se as defesas estiverem mesmo em baixo e mesmo assim tudo correr muito bem, os gestos a seu tempo, os levantares, os sentares e os olhares também, já estamos a falar de muito mais do que sexo. Que sem sexo não estaria ali.
E porque evito aqui cuidadosamente a palavra "amor"?
French say it better: "faire l'amour". Com o "l'" a explicar o único da coisa. Porque logo a seguir o feito é desfeito, uma e cem vezes. Até que um dia não. E se durar dez anos, no fim é fodido, é certo. Mas entretanto,uma benção. Ou não, se a jogada fôr em declive, um lento e pavoroso desmoronar, dia a dia. Só vendo, sempre.
Nas idades mais avançadas, o sexo ganha diferentes cores. Porquê? Porque em princípio é difícil a não repetição. Porque sexo é (também) um jogo. E a consciência do jogo limita o voo, sempre. E então podemos ou relativizar e avançar directamente para o centro do court de ténis e jogar sem mais instrução, ou, pelo contrário, ir atrasando a partida para um fim de época ainda por vir, e vamos falando. O risco é a época nunca chegar realmente ao fim ou a essa final tão desejada, por nunca por nunca os atletas se sentirem preparados para o embate. Porque o sexo também é embate, competição, medida, corrida, meta. E mate. Deseja-se que sem "cheque" pelo meio.
E o "amor"? É uma hipótese. E correm muitas teorias sobre.
Segunda-feira, 31 de Maio de 2010
Les Herbes Folles
Boa noite. Vou agora explicar-te porque nunca te falei muito sobre o filme “Les Herbes Folles”. Alain Resnais é uma fixação como outra qualquer. Na realidade não vi tantos filmes dele quanto isso, nem tenho uma opinião tão firmemente positiva sobre a sua produção, nenhum raciocínio encaixado para debitar quando preciso sobre a sua genialidade. Tenho uma lembrança a um tempo muito forte e muito perdida sobre um filme chamado “L’Amour A Mort”, e só o título assusta-me por isso tardarei em revê-lo. Lembro também de ter visto um êxito recente dele, “On Connait La Chanson”, um filme musical (!), uma comédia de costumes doce-amarga, que estou a rever aos bocados. Lembro ainda “I Want To Go Home”, e este sim, gosto, gostei e gostarei, porque é um filme envolvente, optimista, quente. Não “Les Herbes Folles”, não. Este filme de que falo trata de pessoas sozinhas, metidas na metade da vida ou para a frente disso. Um pouco alteradas da cabeça, ou ou pouco mais. A dos seus desencontros e suas consequências, implacáveis, impossíveis de deter, como as “ervas daninhas” de que trata o título e vai lembrando em fotogramas através do filme. Vês e vais pensando: “isto não vai acabar bem”… engoles a frase em seco, olhas por ti abaixo, rezas para que assim não seja, tentas apagar o espelhismo mas não funciona. Não, não vai acabar bem, em bem, o delírio dos protagonistas leva-os a ínvias decisões que Resnais retrata com um humor seco e brutal. Tanto que a sequência final podia ter sido intitulada “A braguilha assassina”… enfim. Sabine Azéma e André Dussolier são vivos retratos de uma loucura possível.
Não gostei de me ver ali (um pouquinho…) no filme, não gostei, Resnais um dia destes vai aparecer-me em sonhos e dizer: “não digas que não te avisei”…
Não gostei de me ver ali (um pouquinho…) no filme, não gostei, Resnais um dia destes vai aparecer-me em sonhos e dizer: “não digas que não te avisei”…
Domingo, 30 de Maio de 2010
Barcelona
A solidão pede uma aprendizagem,
Os músculos dos gestos para fora
Passam a ser os musculos
Dos gestos para dentro.
A solidão acaba por não ser
Assim tão importante.
Por aqui passas, prisioneira,
Qual é maior, a minha ou a
Tua prisão?
==
Nem toda a gente tem tudo como
Esta cidade de Barcelona.
Chegará Setembro. Poderei
Eu preparar o duro Inverno
Contigo? Até lá este mar
Intermédio.
Até lá a gente
Vê-se, a gente
Vê-se. Ou não.
==
Debaixo de água ela
Escondida estava e
Respirava pela palhinha
Da Coca-Cola.
Um só dedo bastava para
Apagá-la da face da
Terra, um só e eu tinha dez…
E havia a vantagem d
Ela estar debaixo de água.
==
Tu eras
Tu és
Tu serás sempre diferente.
Só nada de presentes nem
Estes dias de hoje.
Tudo o que não volta a acon
Tecer é esta demasiada sombra…
==
Pensar numa praia.
Nela colocar-te mais teus problemas
À superfície. Dirigir-me eu para a
Água e ilustrar os meus problemas de
Emersão. Juntar tudo isto e servir,
Servir sempre.
==
Imaginem uma manhã de Maio.
Imagina uma manhã de Setembro.
E em todo este tempo os
Teus olhos vi duas, três
Vezes. Desciam.
É sempre de manhã que as
Coisas acontecem.
Um café.
==
Não é justo. Nunca foi o
Meu corpo o teu saco
De pancada.
Nunca a tua revolta deu para
Arquivar os nossos dias
Em muito bons e
Muito violentos.
E esta visão
Binocular da puta vida
Em que encalhamos os
Dois, hã?
Uma canção, é preciso uma
Canção.
Sendo hoje o dia em que não
Podemos duvidar.
==
Os meus inimigos estão aqui tão perto.
Os meus amigos também.
Exérese, de ambos devo-me afastar.
Porém,
Revelo os negativos.
==
No metro de Barcelona
À minha frente os teus pés
São defendidos pelo Sol
E pela Lua que gravados levas
Nuns chinelos - brancos?
The Sun… The Moon…
Sais.
Da vida saberás umas
Coisas, apoiada em tão firmes
Pressupostos.
==
Os músculos dos gestos para fora
Passam a ser os musculos
Dos gestos para dentro.
A solidão acaba por não ser
Assim tão importante.
Por aqui passas, prisioneira,
Qual é maior, a minha ou a
Tua prisão?
==
Nem toda a gente tem tudo como
Esta cidade de Barcelona.
Chegará Setembro. Poderei
Eu preparar o duro Inverno
Contigo? Até lá este mar
Intermédio.
Até lá a gente
Vê-se, a gente
Vê-se. Ou não.
==
Debaixo de água ela
Escondida estava e
Respirava pela palhinha
Da Coca-Cola.
Um só dedo bastava para
Apagá-la da face da
Terra, um só e eu tinha dez…
E havia a vantagem d
Ela estar debaixo de água.
==
Tu eras
Tu és
Tu serás sempre diferente.
Só nada de presentes nem
Estes dias de hoje.
Tudo o que não volta a acon
Tecer é esta demasiada sombra…
==
Pensar numa praia.
Nela colocar-te mais teus problemas
À superfície. Dirigir-me eu para a
Água e ilustrar os meus problemas de
Emersão. Juntar tudo isto e servir,
Servir sempre.
==
Imaginem uma manhã de Maio.
Imagina uma manhã de Setembro.
E em todo este tempo os
Teus olhos vi duas, três
Vezes. Desciam.
É sempre de manhã que as
Coisas acontecem.
Um café.
==
Não é justo. Nunca foi o
Meu corpo o teu saco
De pancada.
Nunca a tua revolta deu para
Arquivar os nossos dias
Em muito bons e
Muito violentos.
E esta visão
Binocular da puta vida
Em que encalhamos os
Dois, hã?
Uma canção, é preciso uma
Canção.
Sendo hoje o dia em que não
Podemos duvidar.
==
Os meus inimigos estão aqui tão perto.
Os meus amigos também.
Exérese, de ambos devo-me afastar.
Porém,
Revelo os negativos.
==
No metro de Barcelona
À minha frente os teus pés
São defendidos pelo Sol
E pela Lua que gravados levas
Nuns chinelos - brancos?
The Sun… The Moon…
Sais.
Da vida saberás umas
Coisas, apoiada em tão firmes
Pressupostos.
==
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
Uma testemunha insuspeita.
Pediram-me este testemunho, aqui estou.
Comecei a reparar neles aí por Setembro, Outubro do ano passado. Tomavam pequeno-almoço juntos. Primeiro sentados dentro, depois no exterior daquele estabelecimento quem vai para o hospital. Ele sempre com um travo nervoso no gesto, ela não, ela sempre muito bem, muito natural, exercendo as suas prerrogativas de descomprometida, como se apenas calhasse estar ali. De coincidência passaram a ser algo mais, com o tempo. Algo de não muito definido mas, sim, havia algo mais. Foi engraçado porque onde eles se sentavam começaram a sentar-se mais pessoas, o que não acontecia antes. De vez em quando acontecia uma interrupção e podia ela vir sózinha, ele não. Este tipo de comportamento definia logo ali quem estava por quem e para quê, esqueçamos aqui e já que ele por aliança se via casado, ela não. Ele voltava, ela perguntava-lhe "que tal as férias?". Depois houve uma fase em que me pareceu que ele lhe queria dar coisas, muitas coisas, quase todos os dias. E ela chateava-se, perdia a naturalidade tão sua, o lento desenvolver de quem preferia não ter acordado mas. Não se zangava mas sabia dizer não. E dizia. Passou o ano e a coisa seguiu. Disseram-me - porque algo se comentava - que também almoçavam juntos. Notei que ele mudara um pouco. Que andava mais depressa. Que levantava mais os ombros, que às vezes olhava o mundo e tudo em redor como se em desafio. Outras vezes não, e era com se carregasse um peso enorme. Ela também mudara um pouco, como se algum do nervosismo dele lhe tivesse sido passado por transfusão. Mudaram também de sítio para tomar o pequeno-almoço. Ele comprava o jornal e quase lho atirava, flores seriam na sua cabeça. Percebi que ela queria demorar menos - problemas no trabalho? Não se via presa, contrariada, aborrecida com o companheiro. Um pouco tensa sim. O ritual diário mantinha-se, pequeno e grande almoço, para este passava ele a jacto todos os dias pouco depois da uma, cruzando a praça da alimentação do centro comercial, ia comer com ela à universidade em frente. Como nada mais acontecia ali e não se observava evolução adicional - nenhum acréscimo de familiaridade, nenhuma alteração nos adereços de compromisso oficial - só posso supôr que eventualmente ao fim destes meses todos, algo mais deve ter acontecido fora desta dicotomia pequeno-almoço/almoço. Algo mais mas que nada deve ter definido, ou adiantado, ou destruido. E porém esta estranha e mínima relação, este esquema, esta "estranha forma de vida", esta fina ligação, era agora, parecia-me, também muito valorizada por ela. Se ele por pouco se atrasava logo ela desatava a mandar-lhe mensagens no telemóvel, rodando os olhares e suspirando a meia-de-leite que se consumia sem companhia. E censurava-o quando ele chegava. Avisava-o do tempo de antena curto que lhe restava. A ele de aplicar-se. Posso dizer que eram porém ali às vezes felizes, embora noutras ocasiões me parecessem dois animais acossados, nem mais. Havia dias em que acabavam a rir desalmadamente um com o outro, e não creio que fosse só por querer, pareceram-me mais exigentes do que isso. Por minutos divertiam-se imenso. Invejava-os. Outros dias quase nada acontecia, partilhando os dois um aborrecimento monumental com o mundo. Curiosamente a palavra fidelidade vinha-me à cabeça quando os via. E passaram-se - quê? - mais de seis meses.
Um dia o pequeno-almoço foi mais curto. Ele chegou e entregou-lhe o jornal mas não buscou nada para tomar, sentando-se logo. Fiquei de olho. Disse o que terá dito e logo ela levantou-se, alterada. As coisas que se dizem em voz baixa são as que fazem rodar o mundo. Ou parar. E assim rodou cada um para seu lado. Foi ele que começou a rasgar, mas o puxão final deu-o ela, foi o que me pareceu. Digo final porque não mais os voltei a ver juntos, disseram-me que também não voltaram a almoçar, juntos digo.
Ele vem tomar qualquer coisa quase todos os dias, lê o jornal, mostra-se, vai-se embora. Vem marcar o lugar.
Gostaria que esta história não ficasse por aqui. Tantos meses com tamanha ausência de maldade espantou-me, espantava-me. Mas, claro, isto não está nas minhas mãos, está nas deles.
Comecei a reparar neles aí por Setembro, Outubro do ano passado. Tomavam pequeno-almoço juntos. Primeiro sentados dentro, depois no exterior daquele estabelecimento quem vai para o hospital. Ele sempre com um travo nervoso no gesto, ela não, ela sempre muito bem, muito natural, exercendo as suas prerrogativas de descomprometida, como se apenas calhasse estar ali. De coincidência passaram a ser algo mais, com o tempo. Algo de não muito definido mas, sim, havia algo mais. Foi engraçado porque onde eles se sentavam começaram a sentar-se mais pessoas, o que não acontecia antes. De vez em quando acontecia uma interrupção e podia ela vir sózinha, ele não. Este tipo de comportamento definia logo ali quem estava por quem e para quê, esqueçamos aqui e já que ele por aliança se via casado, ela não. Ele voltava, ela perguntava-lhe "que tal as férias?". Depois houve uma fase em que me pareceu que ele lhe queria dar coisas, muitas coisas, quase todos os dias. E ela chateava-se, perdia a naturalidade tão sua, o lento desenvolver de quem preferia não ter acordado mas. Não se zangava mas sabia dizer não. E dizia. Passou o ano e a coisa seguiu. Disseram-me - porque algo se comentava - que também almoçavam juntos. Notei que ele mudara um pouco. Que andava mais depressa. Que levantava mais os ombros, que às vezes olhava o mundo e tudo em redor como se em desafio. Outras vezes não, e era com se carregasse um peso enorme. Ela também mudara um pouco, como se algum do nervosismo dele lhe tivesse sido passado por transfusão. Mudaram também de sítio para tomar o pequeno-almoço. Ele comprava o jornal e quase lho atirava, flores seriam na sua cabeça. Percebi que ela queria demorar menos - problemas no trabalho? Não se via presa, contrariada, aborrecida com o companheiro. Um pouco tensa sim. O ritual diário mantinha-se, pequeno e grande almoço, para este passava ele a jacto todos os dias pouco depois da uma, cruzando a praça da alimentação do centro comercial, ia comer com ela à universidade em frente. Como nada mais acontecia ali e não se observava evolução adicional - nenhum acréscimo de familiaridade, nenhuma alteração nos adereços de compromisso oficial - só posso supôr que eventualmente ao fim destes meses todos, algo mais deve ter acontecido fora desta dicotomia pequeno-almoço/almoço. Algo mais mas que nada deve ter definido, ou adiantado, ou destruido. E porém esta estranha e mínima relação, este esquema, esta "estranha forma de vida", esta fina ligação, era agora, parecia-me, também muito valorizada por ela. Se ele por pouco se atrasava logo ela desatava a mandar-lhe mensagens no telemóvel, rodando os olhares e suspirando a meia-de-leite que se consumia sem companhia. E censurava-o quando ele chegava. Avisava-o do tempo de antena curto que lhe restava. A ele de aplicar-se. Posso dizer que eram porém ali às vezes felizes, embora noutras ocasiões me parecessem dois animais acossados, nem mais. Havia dias em que acabavam a rir desalmadamente um com o outro, e não creio que fosse só por querer, pareceram-me mais exigentes do que isso. Por minutos divertiam-se imenso. Invejava-os. Outros dias quase nada acontecia, partilhando os dois um aborrecimento monumental com o mundo. Curiosamente a palavra fidelidade vinha-me à cabeça quando os via. E passaram-se - quê? - mais de seis meses.
Um dia o pequeno-almoço foi mais curto. Ele chegou e entregou-lhe o jornal mas não buscou nada para tomar, sentando-se logo. Fiquei de olho. Disse o que terá dito e logo ela levantou-se, alterada. As coisas que se dizem em voz baixa são as que fazem rodar o mundo. Ou parar. E assim rodou cada um para seu lado. Foi ele que começou a rasgar, mas o puxão final deu-o ela, foi o que me pareceu. Digo final porque não mais os voltei a ver juntos, disseram-me que também não voltaram a almoçar, juntos digo.
Ele vem tomar qualquer coisa quase todos os dias, lê o jornal, mostra-se, vai-se embora. Vem marcar o lugar.
Gostaria que esta história não ficasse por aqui. Tantos meses com tamanha ausência de maldade espantou-me, espantava-me. Mas, claro, isto não está nas minhas mãos, está nas deles.
Sábado, 22 de Maio de 2010
...
Viver é lamber de alguém as feridas e assim saciar-se e esquecer que feridas também tem.
As tuas feridas quero para meu repasto.
As tuas feridas quero para meu repasto.
O umbigo, o dedo em garra, o coração de lado...
É um turbilhão a quantidade de coisas que te quero dar. Não cessam, entram e saiem da minha cabeça, ficam à minha volta a bailar, é um turbilhão. E isto não pára.
Já preparei as minhas apresentações para amanhã, vou deitar-me. Sempre aquela sensação, deitar-me ao lado da pessoa errada. Amanhã vou estar exausto, o que é fixe. Cada dia que está para vir tem como que um post it, um ressalto, um sublinhado.
Eu sei que isto é mesmo confuso, eu sei que te não é fácil, eu sei que eu também não sou fácil, não me pareço a nada, e vivo a inventar enquanto caminho. Caminho? Caminho sim senhor.
Mas, por favor, não me morras.
Já preparei as minhas apresentações para amanhã, vou deitar-me. Sempre aquela sensação, deitar-me ao lado da pessoa errada. Amanhã vou estar exausto, o que é fixe. Cada dia que está para vir tem como que um post it, um ressalto, um sublinhado.
Eu sei que isto é mesmo confuso, eu sei que te não é fácil, eu sei que eu também não sou fácil, não me pareço a nada, e vivo a inventar enquanto caminho. Caminho? Caminho sim senhor.
Mas, por favor, não me morras.
Repito!
Já me disseste isso, agora preciso de dizer eu? Faltar-me-ão sempre adjectivos, elogios, cartazes...
Uma, esta: não és fácil. Tu sabes o que eu quero dizer. Pronto, um elogio.
Uma, esta: não és fácil. Tu sabes o que eu quero dizer. Pronto, um elogio.
Uma coisa
Uma coisa não entendo: teres que me explicar que não és uma... qualquer...? Já não passámos dessa rua?
Sobram-me adjectivos, faltar-me-ão sempre adjectivos!
Sobram-me adjectivos, faltar-me-ão sempre adjectivos!
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
Uma simples carta.
É mesmo assim: tu não acreditas que eu me separe. Se eu me separar pensarás que apenas quero provar que sou capaz. Bom, e assim estamos de encravados. E possivelmente continuaremos. Nunca o que é bom para sempre dura? Talvez não. Mas se não o provarmos como saberemos? Que é bom, o quanto tempo dura…
Não. Não estou assim tão deprimido. Vou estar provavelmente, depois da bomba atómica ser largada. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Da Angeles é diferente. Tenho pena, muita. Mas agora estou a faltar-lhe ao respeito e à verdade. E há demasiado tempo. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Mas prosseguir aqui é mentir-lhe. E ela não merece um pai mentiroso.
Eu sei que a minha despedida – que, repito, não o foi – foi atabalhoada, etc. Foi precisa. A tua presença diária impedia-me de entristecer. Tu não imaginas o bem que me fazes. E eu sentia isso e tudo ficava mais confuso. Muitas vezes eu pensava: porquê mudar? Mas há meses que eu penso mudar! Esta semana serviu definitivamente para “assentar ideias”.
Eu quero fazer-te feliz, Cristina! Não sei se só um dia, se uma semana, um mês, um ano, dez… É isto, é o que eu quero. Voltei a mandar-te sms, etc. de alguma forma para reatar um pouco os nossos canais de comunicação. Quando eu sair de casa, assim a coragem aconteça, talvez demore algum tempo a podermos voltar a estar cara a cara, eu apalermado, tu de esquina… Vou ter que fazer algum luto de tudo isto, catorze anos, suponho que vai ser muito mais difícil do que sequer imagino. Posso até voltar atrás. Mas parece-me pouco provável…
Um dia, um dia, um dia, vou telefonar-te, procurar-te, sei lá, e vou pedir-te muito a sério, que é como quem diz, com um sorriso de orelha a orelha, se queres namorar comigo. Vivo a pensar nesse dia. Espero que a tua resposta seja a que eu DESEJO.
Se não for, valeu a pena tentar, porque a vida… É ISTO! Tentar e tentar e tentar…
Não. Não estou assim tão deprimido. Vou estar provavelmente, depois da bomba atómica ser largada. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Da Angeles é diferente. Tenho pena, muita. Mas agora estou a faltar-lhe ao respeito e à verdade. E há demasiado tempo. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Mas prosseguir aqui é mentir-lhe. E ela não merece um pai mentiroso.
Eu sei que a minha despedida – que, repito, não o foi – foi atabalhoada, etc. Foi precisa. A tua presença diária impedia-me de entristecer. Tu não imaginas o bem que me fazes. E eu sentia isso e tudo ficava mais confuso. Muitas vezes eu pensava: porquê mudar? Mas há meses que eu penso mudar! Esta semana serviu definitivamente para “assentar ideias”.
Eu quero fazer-te feliz, Cristina! Não sei se só um dia, se uma semana, um mês, um ano, dez… É isto, é o que eu quero. Voltei a mandar-te sms, etc. de alguma forma para reatar um pouco os nossos canais de comunicação. Quando eu sair de casa, assim a coragem aconteça, talvez demore algum tempo a podermos voltar a estar cara a cara, eu apalermado, tu de esquina… Vou ter que fazer algum luto de tudo isto, catorze anos, suponho que vai ser muito mais difícil do que sequer imagino. Posso até voltar atrás. Mas parece-me pouco provável…
Um dia, um dia, um dia, vou telefonar-te, procurar-te, sei lá, e vou pedir-te muito a sério, que é como quem diz, com um sorriso de orelha a orelha, se queres namorar comigo. Vivo a pensar nesse dia. Espero que a tua resposta seja a que eu DESEJO.
Se não for, valeu a pena tentar, porque a vida… É ISTO! Tentar e tentar e tentar…
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Centelha Asiática.
Correr pela rua fora,
temer as pontes que
tremem, rir com des
tino, lamber o mesmo
ao fechar uma carta ou
uma ferida recente.
Espero que esta te encontre bem,
espero que esta espera te encontre
também.
Nada retira o desejo
adicional e repetido de
um pouco de centelha
asiática.
temer as pontes que
tremem, rir com des
tino, lamber o mesmo
ao fechar uma carta ou
uma ferida recente.
Espero que esta te encontre bem,
espero que esta espera te encontre
também.
Nada retira o desejo
adicional e repetido de
um pouco de centelha
asiática.
Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
Alvarenga
Em Alvarenga, antigo concelho, que ainda é Arouca mas já é Montemuro, vai-se de propósito comer o bife!
18 de Maio
Encerrado. Um doente agravo para entretenimento, depois devolvo-o à vida. Ele não me agradece. A linha está ali, não a piso, não a cruzo.
Os sinais vitais.
Digo: um pulso que acelera, as artérias tensas, tensas. Um olhar enterrado. Tropeço é uma freguesia do concelho de Arouca, Raiva de Castelo de Paiva. Como se come bem em Arouca!
Os sinais vitais.
Digo: um pulso que acelera, as artérias tensas, tensas. Um olhar enterrado. Tropeço é uma freguesia do concelho de Arouca, Raiva de Castelo de Paiva. Como se come bem em Arouca!
Terça-feira, 18 de Maio de 2010
Porto de Abrigo
Há anos e anos que amo a tua cidade. As suas ruas, os seus enganos, o sujo e abstracto chão medieval.
Há anos e anos que amo a tua cidade. Já fiz várias vezes a corda completa do seu rio violento, animal de disfarce nunca completamente tomado. Procuro a tua cidade quando chove e atravesso as praças exuberante. Sofro o castigo da tua cidade ao sol e busco refúgio debaixo dos beirais e abraçando as montras assombradas. Levanto o empedrado novo “tipo Ibérico” e parto alguma coisa para manter o nível, é muito importante manter o nível numa cidade assim, subida, inclinada, desmantelada. O nível do óleo, entendes-me? À antiga calçada dou um beijo ou uma mija, depende.
Que pena a tua cidade, estão a esventrar-lhe a alma, os Aliados, as Cardozas, essas merdas tipo residence tipo tiro nos cornos.
Que pena, agora que decidi que cidade amo, eis que estão a fodê-la à grande, confesso que, ignorante da nomenclatura, não sei se é à francesa, diz-me tu…
Bom, acabem lá com a cidade, façam lá o servicinho, não se preocupem. A cidade de que falo nem sabe que existo. Mas neste desencontro tenho vivido estes anos todos, e tem dado para os gastos. E tu…
Há anos e anos que amo a tua cidade. Já fiz várias vezes a corda completa do seu rio violento, animal de disfarce nunca completamente tomado. Procuro a tua cidade quando chove e atravesso as praças exuberante. Sofro o castigo da tua cidade ao sol e busco refúgio debaixo dos beirais e abraçando as montras assombradas. Levanto o empedrado novo “tipo Ibérico” e parto alguma coisa para manter o nível, é muito importante manter o nível numa cidade assim, subida, inclinada, desmantelada. O nível do óleo, entendes-me? À antiga calçada dou um beijo ou uma mija, depende.
Que pena a tua cidade, estão a esventrar-lhe a alma, os Aliados, as Cardozas, essas merdas tipo residence tipo tiro nos cornos.
Que pena, agora que decidi que cidade amo, eis que estão a fodê-la à grande, confesso que, ignorante da nomenclatura, não sei se é à francesa, diz-me tu…
Bom, acabem lá com a cidade, façam lá o servicinho, não se preocupem. A cidade de que falo nem sabe que existo. Mas neste desencontro tenho vivido estes anos todos, e tem dado para os gastos. E tu…
Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
16 de Maio
Sobrevivo, que é algo mais. Despedido ao elevador, descido. Noite onde preciso. Noite.
E eu mordomo. Servil servente. Não pedreiro. Aprendiz de obra. Não engenheiro. Serpente?
E eu mordomo. Servil servente. Não pedreiro. Aprendiz de obra. Não engenheiro. Serpente?
Domingo, 16 de Maio de 2010
15 de Maio
Deste mês a metade já devorada. Mapeados eventos, dias, discurso. E um urso e sua figura.Em sendo necessário ser.
Sábado, 15 de Maio de 2010
15ª Cefaleia
Sempre presente nestes monólogos esta cadela que é tudo o que me resta. Lembro-me dela jovem, mexida, saltarina, sofria então de uma paixão verdadeiramente assolapada por mim, à qual eu devotamente respondia. O entendimento perfeito. Que foi evoluindo para este silêncio que sobrevive aos nossos dias, um atrás do outro como aqueles elefantes da história, tromba e rabo, pesado atrás de pesado.
Assim as pessoas fossem, assim.
Assim as pessoas fossem, assim.
Problema identificado
O estar contentíssimo por te ter conhecido. O não conseguir entristecer como devia. O não parar de pensar em ti.
14 de Maio
Booking ponto come. Os cartazes do Fernando Mendes enchiam as paredes da defunta Casa Forte. Falas dos filhos de e parecemos ter nascido em países diferentes quando não, trinta quilómetros de distância, mais não. O remate de quarta de manhã era para ter acontecido já na sexta anterior, assim não foi pela tua aparição em público, eis uma ironia ainda maior, ainda maior. A vida como a doença às vezes antecipa-se, dá-nos a volta. O público, o mais cruel dos espectadores. Terça-feira como um "acto único, o terceiro de três, assim visto, the third of a perfect pair, e depois... o abismo, terra ignorada, como antigamente os navegantes indo para Ocidente.
Booking ponto come. Óptimos preços em Junho.
Booking ponto come. Óptimos preços em Junho.
Sexta-feira, 14 de Maio de 2010
Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
13 de Maio
Dia de Cova de Iria. Sim, existe uma FNAC no MarShopping, confirmado. Comprou-se. Estava com alguma traça mas não houve tempo. Melhor. Muito melhor.
Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
Memória futura - sms
"Resulta curto escrever o prazer e a alegria tidas. Cito: 'muito fixe!' Não me estou a despedir. Peço desculpa por hoje, não pelo resto, que não o é. (o nunca dado) Beijo." 12052010 - 10h52m
"Eu também não consigo descrever até porque não escrevo tão bem. Beijo" 12052010 - 10h54m
"Eu também não consigo descrever até porque não escrevo tão bem. Beijo" 12052010 - 10h54m
Os poemas
Os poemas são só poemas. É pendurá-los na parede, é dar-lhes significados. Os poemas, que são só poemas. Um conjunto ordenado de palavras. O que querem dizer, pomos tu e eu creme por cima, ou outro tipo da cobertura, à discrição. E feita a descrição do local, acrescente-lhe cada um o poema que quiser. Ele há... muitos. Poemas, locais. E há os actores. E seus papéis. Que têm aquela traseira porta por onde saiem pensando: "E agora? Mudo? Acabo? Começo?".
Mundo este onde o representar não se acaba. E para quando a própria representação?
Mundo este onde o representar não se acaba. E para quando a própria representação?
Terça-feira, 11 de Maio de 2010
Carta
Escrevo num quarto de hotel de cinquenta euros. E a primeira pergunta é: o que faço eu aqui? A resposta é simples: estou aqui à tua procura.
Mas amanhã vou tomar pequeno almoço e almoço contigo como se nada fosse. Como se nada fosse? Não. Amanhã almoçaremos juntos pela última vez, não sei por quanto tempo.
Preciso de tempo, de espaço, e de alguma paz visual para decidir coisas. A minha vida na minha casa está a tornar-se-me fisicamente, e digamos que estou adequadamente a usar o sentido literal do termo, fisicamente repito muito difícil.
Vivo sinalizado por ti, de alguma forma. Isto ASSIM não pode continuar.
O que vou decidir? Não sei. Não sei. Não sei!
Claro que isto não é uma carta nem é nada. Claro que agora agora bebo cada milímetro de ar que respiras. Claro que já vivi demasiado para saber o falível de todas estas coisas. Este milhar de coisas que me falta fazer contigo. Milhar, digo, mais! Podemos cair nas palavras de caca? Adoro-te e mais alguma coisa. E preciso de não te ver durante uns tempos. Que tempos serão estes? Se calhar ficarei à espera de um sinal, um qualquer sinal que marque o sentido, um sentido para estas coisas que me estão a acontecer. Sinal que não vai acontecer, eu sei. Eu já vi este filme, pagando bilhetes a preços variados, em variadas companhias. Sim, eu sei, à segunda é mais barato. Segunda-feira, queria eu dizer. Cara amiga, também, a partir de agora vamos entrar em sessão contínua.
Teu
Mas amanhã vou tomar pequeno almoço e almoço contigo como se nada fosse. Como se nada fosse? Não. Amanhã almoçaremos juntos pela última vez, não sei por quanto tempo.
Preciso de tempo, de espaço, e de alguma paz visual para decidir coisas. A minha vida na minha casa está a tornar-se-me fisicamente, e digamos que estou adequadamente a usar o sentido literal do termo, fisicamente repito muito difícil.
Vivo sinalizado por ti, de alguma forma. Isto ASSIM não pode continuar.
O que vou decidir? Não sei. Não sei. Não sei!
Claro que isto não é uma carta nem é nada. Claro que agora agora bebo cada milímetro de ar que respiras. Claro que já vivi demasiado para saber o falível de todas estas coisas. Este milhar de coisas que me falta fazer contigo. Milhar, digo, mais! Podemos cair nas palavras de caca? Adoro-te e mais alguma coisa. E preciso de não te ver durante uns tempos. Que tempos serão estes? Se calhar ficarei à espera de um sinal, um qualquer sinal que marque o sentido, um sentido para estas coisas que me estão a acontecer. Sinal que não vai acontecer, eu sei. Eu já vi este filme, pagando bilhetes a preços variados, em variadas companhias. Sim, eu sei, à segunda é mais barato. Segunda-feira, queria eu dizer. Cara amiga, também, a partir de agora vamos entrar em sessão contínua.
Teu
Sábado, 8 de Maio de 2010
Das refeições
Pequeno almoço, almoço: repetidamente. Lanche, jantar, ceia: colocar um visto, pois já houve. Que refeição fica a faltar?
Trinta anos
Há trinta anos Rua Heliodoro Salgado, s/n, 3880 Ovar. Se calhar também acordado e a combater demónios não tão díspares como possa parecer. Difíceis tempos os meus. Tardia adolescência, tardia aprendizagem. De tudo escasso. Fome perene. O 10º ano foi um ano relativamente calmo, do que me lembro. Para os meus pais acho que não. Mas já confundo tudo. Discutiam. Eu também discutia. Eu detesto discutir. Eu há trinta anos estava ainda do lado de minha mãe. Hoje mal consigo ainda estar a seu lado mais que uns minutos.
Tempo de cortar
Tudo o que cresce para os lados porque não tem como crescer para cima sempre chega o momento em que chega alguém com uma podadeira e poda. Que foda!
2010
Ano de mais olhos que barriga? E para quem esta definição? Ou será chapelaria suficiente para dois embora em cada cabeça de cabeça diferentes contas se façam?
Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
Antecipação e Delírio
Escrevo no parque subterrâneo de Carlos Alberto. Claro, se um vem para a Baixa, mesmo que por santa obrigação, atrás teria que vir o perdigueiro...
Oh, como eu gosto desta cidade em que te persigo! Destroçada por obras e casas falidas, em ruínas, decapitadas, o Porto é sempre um caso, uma paixão que só pode ser forte e violenta. Por isso me cruzo com turistas atemorizados, espreitando os humores da cidade inexplicados nos maus manuais para eles, para turistas. Está por escrever um bom livro sobre esta Cidade. Talvez eu tente e falhe. Ao escrever sobre o Porto inevitavelmente estarei a falar de esquina sobre ti. Persigo-te há, quê, seis meses, mais? Peço desculpa pelo verbo, mas não deixa de ser exacto. Dominas-me os dias, nem tu sabes como. A tua exiguidade de estímulos defende-me aliás de uma ocupação maior ainda, de um que seria quase totalitarismo. Caminhei por estas ruas, tropeçando no péssimo piso que une os Aliados a D.João IV, subindo e admirando as novas árvores de Sáda Bandeira, rodeando o Bolhão, fotografando a Sapataria Principal para depois te mandar a prova de que, e não me canso. Sinto-me como a voltar a casa. Cada canto destruído ou renovado, cada boteco derruído ou refeito é para mim uma agradável surpresa. Ah, que delícia este caminhar, este sentir.me vivo entre estas duras e estranhas gentes! "Salsichinha Fast Food"! Deste lado uma revista ao dependuro informa-me que o Toy teve um AVC! Em frente a Ordem do Carmo tenta desmentir a alegria do Moinho de Vento, mais os seus bancos completamente arrancados. Como se chamavam aqueles armazéns em Sá da Bandeira abiaxo do Tamegão que fecharam? A Ourivesaria do Bolhão mantém-se, etc. etc.
E porém, este todo caminho que eu faço é como uma visita guiada, faço-o acompanhado. E se eu tivesse vindo à Baixa do Porto realmente sózinho e "à procura" de ninguém?
Oh, como eu gosto desta cidade em que te persigo! Destroçada por obras e casas falidas, em ruínas, decapitadas, o Porto é sempre um caso, uma paixão que só pode ser forte e violenta. Por isso me cruzo com turistas atemorizados, espreitando os humores da cidade inexplicados nos maus manuais para eles, para turistas. Está por escrever um bom livro sobre esta Cidade. Talvez eu tente e falhe. Ao escrever sobre o Porto inevitavelmente estarei a falar de esquina sobre ti. Persigo-te há, quê, seis meses, mais? Peço desculpa pelo verbo, mas não deixa de ser exacto. Dominas-me os dias, nem tu sabes como. A tua exiguidade de estímulos defende-me aliás de uma ocupação maior ainda, de um que seria quase totalitarismo. Caminhei por estas ruas, tropeçando no péssimo piso que une os Aliados a D.João IV, subindo e admirando as novas árvores de Sáda Bandeira, rodeando o Bolhão, fotografando a Sapataria Principal para depois te mandar a prova de que, e não me canso. Sinto-me como a voltar a casa. Cada canto destruído ou renovado, cada boteco derruído ou refeito é para mim uma agradável surpresa. Ah, que delícia este caminhar, este sentir.me vivo entre estas duras e estranhas gentes! "Salsichinha Fast Food"! Deste lado uma revista ao dependuro informa-me que o Toy teve um AVC! Em frente a Ordem do Carmo tenta desmentir a alegria do Moinho de Vento, mais os seus bancos completamente arrancados. Como se chamavam aqueles armazéns em Sá da Bandeira abiaxo do Tamegão que fecharam? A Ourivesaria do Bolhão mantém-se, etc. etc.
E porém, este todo caminho que eu faço é como uma visita guiada, faço-o acompanhado. E se eu tivesse vindo à Baixa do Porto realmente sózinho e "à procura" de ninguém?
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
Donde que realmente
E portanto e na ausência de toda e qualquer impedimento constitui-se esta sociedade por quotas iguais.
Ora nem mais.
E que o primeiro milho, em havendo, seja dos pardais.
Ora nem mais.
E que o primeiro milho, em havendo, seja dos pardais.
LCD
Leve Caminho Devagar.
Caminho? Onde está? Onde a marcação? Leve? Como se não se ouvissem bem os meus passos, como se não fosse sempre ouvida a minha entrada em casa. Devagar, como se não tivesse já chegado o tempo de chegar.
Portanto não é tanto assim, um funeral por exemplo, leva mais gente, embora morto apenas um, em princípio...
Leve ou não leve, caminho. Velocidade incerta por não haver referência visual adequada
Caminho? Onde está? Onde a marcação? Leve? Como se não se ouvissem bem os meus passos, como se não fosse sempre ouvida a minha entrada em casa. Devagar, como se não tivesse já chegado o tempo de chegar.
Portanto não é tanto assim, um funeral por exemplo, leva mais gente, embora morto apenas um, em princípio...
Leve ou não leve, caminho. Velocidade incerta por não haver referência visual adequada
Terça-feira, 4 de Maio de 2010
Um provisório às vinte e duas.
O que vale um homem? Como medir? Qual o metro? Esta questão não me sai da cabeça. Levo toda uma vida aqui, agora sei. E a esta questão vou ter de responder, mais tarde ou mais cedo. Trabalho num espaço dedicado a uma patologia frequente. Acho que o meu trabalho é razoável. Podia ser melhor. É razoável. Estou casado pela segunda vez. Leva este casamento doze anos. A relação catorze anos. Tenho uma filha de onze anos. Sei neste momento muito pouco sobre este casamento. Sei que me sinto exterior a ele. Não sei bem porquê.
(...)
A Unidade tinha-me deixado muito sozinho. Sem a adulação ou a genuína amizade das pessoas mais novas que por mim passavam, o meu trabalho no hospital passou a ser terrivelmente solitário. Comecei a lamentar os tempos idos de enfermaria, os cafés do meio-da-manhã, coisas que porém realmente já tinham acabado um pouco antes de eu sair da enfermaria… Julgo que por meados de 2008 eu estava pronto para entrar, se já por lá não andava, neste processo de reequação, algures entre a depressão e a real realidade…
(...)
Lembro-me de olhar para a minha filha pelo retrovisor e ter uma vontade imensa de chorar. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não choro há muito, muito tempo.
(...)
Eu já não tinha moinhos de vento pela frente nem por trás. Considerava a maior parte das coisas pelas quais tinha lutado perdidas, ou inalcançáveis. Já tinha decidido não ser escritor suficientemente bom para merecer publicação. Tinha percebido que as minhas funções profissionais iam ser as que tinha uma dezena de anos mais, depois enfermaria, depois reforma. O doutoramento já nem era sonho distante. A fama de hipertensivista já lentamente se ia desvanecendo. O circulo de amigos ia-se perdendo mas algo se poderia fazer, achava eu. Um dia, certamente, um dia.
(...)
O problema era eu. Só podia.
E chegámos aos dias de hoje. E eu sou o quê? Faço o quê? Importo o quê? Faria falta como, se subitamente desaparecesse? Um verdadeiro enigma. Só vendo…
Por tudo isto, por todas estas faltas e penaltis falhados é que eu sinto em mim como que uma necessidade de um luto. E prolongado. Por tudo o que falhei e não consegui, por tudo o que me propus fazer e não consegui. Sei e lembro-me bem de quando comecei esta viagem, pondo eu o início no primeiro ano da faculdade ou imediatamente antes, no último ano do secundário. Que iria viver sozinho. Eu sabia. Sei hoje pouco mais do que sabia então. Estou a precisar de mais silêncio. Entrecortado talvez de muito barulho. Mas só às vezes. Silêncio. Preciso de me ouvir. O meu silêncio. Lembro bem quando melhor o ouvi, aí por meados de 1996...
(...)
Preciso também de perceber o que vão ser estes próximos vinte anos. Antes de ficar velho e começar a esperar a morte. Como vão ser? A ideia era não começar a esperar a morte já agora.
(...)
Sinto-me um palhaço. Ou pelo menos uma espécie de palhaço. Aliás, é a expressão prévia que me define: eu não sou bem nada, ando sempre lá perto, mas não sou bem aquilo! Sou uma espécie de palhaço pois a minha função é pôr toda a gente bem disposta! Falta eu, claro, mas como não estar bem disposto eu? Ora eu não tenho andado nada bem disposto. Se calhar o melhor é por-me mal disposto sozinho…
(...)
O amor “é a última, a nunca comprovada e mais importante das hipóteses”. É. Nesta fase eu não estou para amar ninguém, acho. É aliás justo.
Valho a pena viver? E como? E quanto? Eis as perguntas.
(...)
(...)
A Unidade tinha-me deixado muito sozinho. Sem a adulação ou a genuína amizade das pessoas mais novas que por mim passavam, o meu trabalho no hospital passou a ser terrivelmente solitário. Comecei a lamentar os tempos idos de enfermaria, os cafés do meio-da-manhã, coisas que porém realmente já tinham acabado um pouco antes de eu sair da enfermaria… Julgo que por meados de 2008 eu estava pronto para entrar, se já por lá não andava, neste processo de reequação, algures entre a depressão e a real realidade…
(...)
Lembro-me de olhar para a minha filha pelo retrovisor e ter uma vontade imensa de chorar. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não choro há muito, muito tempo.
(...)
Eu já não tinha moinhos de vento pela frente nem por trás. Considerava a maior parte das coisas pelas quais tinha lutado perdidas, ou inalcançáveis. Já tinha decidido não ser escritor suficientemente bom para merecer publicação. Tinha percebido que as minhas funções profissionais iam ser as que tinha uma dezena de anos mais, depois enfermaria, depois reforma. O doutoramento já nem era sonho distante. A fama de hipertensivista já lentamente se ia desvanecendo. O circulo de amigos ia-se perdendo mas algo se poderia fazer, achava eu. Um dia, certamente, um dia.
(...)
O problema era eu. Só podia.
E chegámos aos dias de hoje. E eu sou o quê? Faço o quê? Importo o quê? Faria falta como, se subitamente desaparecesse? Um verdadeiro enigma. Só vendo…
Por tudo isto, por todas estas faltas e penaltis falhados é que eu sinto em mim como que uma necessidade de um luto. E prolongado. Por tudo o que falhei e não consegui, por tudo o que me propus fazer e não consegui. Sei e lembro-me bem de quando comecei esta viagem, pondo eu o início no primeiro ano da faculdade ou imediatamente antes, no último ano do secundário. Que iria viver sozinho. Eu sabia. Sei hoje pouco mais do que sabia então. Estou a precisar de mais silêncio. Entrecortado talvez de muito barulho. Mas só às vezes. Silêncio. Preciso de me ouvir. O meu silêncio. Lembro bem quando melhor o ouvi, aí por meados de 1996...
(...)
Preciso também de perceber o que vão ser estes próximos vinte anos. Antes de ficar velho e começar a esperar a morte. Como vão ser? A ideia era não começar a esperar a morte já agora.
(...)
Sinto-me um palhaço. Ou pelo menos uma espécie de palhaço. Aliás, é a expressão prévia que me define: eu não sou bem nada, ando sempre lá perto, mas não sou bem aquilo! Sou uma espécie de palhaço pois a minha função é pôr toda a gente bem disposta! Falta eu, claro, mas como não estar bem disposto eu? Ora eu não tenho andado nada bem disposto. Se calhar o melhor é por-me mal disposto sozinho…
(...)
O amor “é a última, a nunca comprovada e mais importante das hipóteses”. É. Nesta fase eu não estou para amar ninguém, acho. É aliás justo.
Valho a pena viver? E como? E quanto? Eis as perguntas.
(...)
Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
14ª cefaleia
"Porque afinal nunca soubeste, ou melhor, nunca soubeste bem, que é pior ainda. Sempre ao lado, pobre rapaz, por pouco, mas sempre a rematar ao lado. E como era por pouco nunca te decidiste a mudar o tipo de remate, sua potência, a forma de pegar com o pé na bola..."
A humilhação de assim se ter visto submetido a um imaginário futebolístico era dupla. Ou não, mas era sim muito eficaz.
A humilhação de assim se ter visto submetido a um imaginário futebolístico era dupla. Ou não, mas era sim muito eficaz.
12ª cefaleia.
No fim-de-semana acontece também que há a família, e que a família pede presença. Aí é-me difícil imitar o que completamente desconheço. Lembro que mesmo em dias de fino convívio a família era como que o espaço exterior, a cintura de asteróides para exploração dentro de séculos, não para nós evidentemente. Não, nada sei sobre a tua família. Mas porém assumo, pelo pendular de alguns movimentos, pelo recitar das horas dominicais que vou anotando, que a familia acontece, não só mas mais ao fim de semana. Assim faço portanto também, remato as medidas de higiene da Cefaleia, meto-a no carro e dedico umas horas a monosilabicas e ou circunstanciais conversas com os meus pais, sendo o tempo fatiado e a baixa política partida em rodelas. Como como não como durante a semana, pois em casa de meus pais micro-ondas é palavra e objecto ausentes. Também o diálogo não se estende às minhas recentes e estranhas rotinas, desistiram eles há muito de me entender, condicionar, dar sequer alguma sugestão sobre um sentido ou uma direcção de vida. "Estás bem filho?" "Estou óptimo!", respondo. E salto da Economia para o Desporto. "E a tua roupa?" "Tenho-a vestida!"
E agora o umbigo.
É costume dizer-se que está um palmo acima. É minha opinião que está onde deve estar. Área eleita de diversão, se deitado horizonte, se na vertical entalhe. Porque sabemos sua origem parece que dali tudo nasce e parte. Mas também pode ser estação de recolha, ou pelo menos apeadeiro. Não, um umbigo assim não é para se ficar indiferente.
Sábado, 1 de Maio de 2010
Outra coisa
Outra coisa a cartilagem. Da orelha.
Assimétrica preensão portanto
de um e outro lóbulo de uma e outra
orelha. Que à direita a ceder, que à
esquerda maior resistência.
Cartilagem, termo gastronómico.
E falamos da sua ausência, ficando
apenas pele e tecido.
Que removido o tecido...
Assimétrica preensão portanto
de um e outro lóbulo de uma e outra
orelha. Que à direita a ceder, que à
esquerda maior resistência.
Cartilagem, termo gastronómico.
E falamos da sua ausência, ficando
apenas pele e tecido.
Que removido o tecido...
Descalça
Um dia gostaria que viesses ter comigo descalça.
Pode-se dizer que seria um começo, em mais sentidos do que um,
ou num apenas,
um começo. E ficaria talvez de uma vez esclarecido
afinal quem é que de nós tem mais garra.
Pode-se dizer que seria um começo, em mais sentidos do que um,
ou num apenas,
um começo. E ficaria talvez de uma vez esclarecido
afinal quem é que de nós tem mais garra.
Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
Dos sismógrafos
São uns aparelhos curiosos. Parece que servem para muito pouco. Monitorizam mas na realidade não prevêem, não previnem. Quando acontece chamam mas sempre pelo menos um pouco tarde demais.
Como serão os registos destes últimos inexplicados dias?
Como serão os registos destes últimos inexplicados dias?
Pequeno e humilde
Não eu. Não o carro que é meu. Não sei se já repararam mas eu não vivo, corro. E o meu carro faz-me a vontade. Que é de mim extensão. Tem a minha coragem possível. É o meu exosqueleto. Já basta de tudo o mais. Não o posso querer pequeno, humilde.
Do cheiro dos livros
(apaguei a mensagem, vai ser de cor com direito a revisão, como a minha filha...)
Lembro-me agora disseste-me "não leio os livros mas gosto de cheirar os livros", para quê marcar os livros, os livros sinalizados por um cheiro, um rasto, um pó de estrelas, uma impressão sobreposta à original impressão, como marca-de-água, posso assim fechar este livro à confiança, seguro não da tua companhia (nunca estarei), mas sim que marcado estará o sítio onde ele se voltará a abrir e tu nele.
Lembro-me agora disseste-me "não leio os livros mas gosto de cheirar os livros", para quê marcar os livros, os livros sinalizados por um cheiro, um rasto, um pó de estrelas, uma impressão sobreposta à original impressão, como marca-de-água, posso assim fechar este livro à confiança, seguro não da tua companhia (nunca estarei), mas sim que marcado estará o sítio onde ele se voltará a abrir e tu nele.
Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
Hey, hey, hey...
Man, take a hold on yourself! Behave! Control your self! Take it easy! And take it as it comes...
Equilíbrio, desequilíbrio.
Este actual equilíbrio entre as partes vivas e as partes mortas nos meus dias não é bom. Será saudável? Como nos barcos existem as águas vivas e as águas mortas, ou parecido, já nem lembro bem. Nem lembro bem quais ficam acima ou abaixo da linha de água. Enfim, a metáfora, é só virar-lhe a capa e dá para um lado, para o outro... Como estou, disparo sobre tudo o que mexe. Fui então ver "Les Herbes Folles" de Resnais. Não me encontrei ali, aquele não era o meu abismo. Gostei porém do filme. Traduzir "folles" por "daninhas" implica um passo à frente. Eu posso sempre ter a minha loucura e não atrapalhar ninguém. Mas não acaba a loucura por atrapalhar alguém ou alguma coisa, mais tarde ou mais cedo?
P.S.: a coisa do "sentido" lembra uma linha, um carreiro, uma rua. Eu sempre gostei de descampados, de grandes espaços, e de parar.
P.S.: a coisa do "sentido" lembra uma linha, um carreiro, uma rua. Eu sempre gostei de descampados, de grandes espaços, e de parar.
Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
Baby you can't drive my car!
O meu carro. Não entendem.
Falámos das minhas coisas. Mais explicada extensão de mim que o meu carro? Onde quero estar ele me deposita. Eterno projecto de fuga. Última instância. Nunca o meu carro me julgou. Peço e obtenho. Acelero e acelera. Ninguém me responde melhor. Ninguém me esconde melhor. O meu carro é só meu. E esta certeza alimenta-me.
Falámos das minhas coisas. Mais explicada extensão de mim que o meu carro? Onde quero estar ele me deposita. Eterno projecto de fuga. Última instância. Nunca o meu carro me julgou. Peço e obtenho. Acelero e acelera. Ninguém me responde melhor. Ninguém me esconde melhor. O meu carro é só meu. E esta certeza alimenta-me.
Quarta-feira, 21 de Abril de 2010
Bessa hotel
Vendo bem ser a tua
sombra seria uma boa
opção. Permitiria à noite
total liberdade, podendo
tu sempre acordada fre
quente ligar uma qualquer
luz e logo um toque a recolher,
eu a tua sombra recuperada
e obedecendo, eis-me aqui,
sou a tua sombra, acabei de
te nascer do chão onde
pousaste os pés,
ligação à terra.
sombra seria uma boa
opção. Permitiria à noite
total liberdade, podendo
tu sempre acordada fre
quente ligar uma qualquer
luz e logo um toque a recolher,
eu a tua sombra recuperada
e obedecendo, eis-me aqui,
sou a tua sombra, acabei de
te nascer do chão onde
pousaste os pés,
ligação à terra.
O separar das águas ou a subida do nível das mesmas.
Há meses que penso, rumino e matuto sobre viver sózinho. Meses. Acontecerá? Dada a demora e o peso cada vez mais esmagador que todo este ruminar está a ganhar, decida eu sair ou ficar, tempos complicados virão. Penso diariamente em sair. E fico. Todos os dias.
Ser médico e internista em enfermaria
É uma droga dura. Fornece abastecimento endorfínico quase permanente. A vida de enfermaria tem enquadramento que permite reforços positivos almost on a daily basis. Grande parte dos internamentos são de relativa fácil resolução, haja as luzes medianamente acesas para a sua decifragem. O rodeio por gente de crepuscular sabedoria e atitude permite também com frequência frequente dizer mal dessa mesma gente e ainda por cima com razão! Estamos a falar de um duplo ou triplo prazer e de aquisição fácil: os internamentos são diários, as asneiras correlativas quase também. Last but not the least há a côrte dos alunos e médicos mais novos a admirar a tua performance, as certezas, a presença de espírito, os ditos e os calamares, and so on. Tu decides, és o especialista, o "truta", mais que cabeça de casal. Que saudades eu tenho da vida de enfermaria. Claro que quem for consultar o ano de blogue "diário médico 2" diria - o rapaz estava desesperado. A verdade é que não sabia o que me esperava na Unidade de AVC. Ah, sim: o dobro do ordenado.
Terça-feira, 20 de Abril de 2010
...
A minha paixão por e a minha resolução de futura vida deviam ser duas coisas diferentes.
(a cont.)
(a cont.)
Segunda-feira, 19 de Abril de 2010
A refinaria de Leça.
Continuo na minha que a refinaria de Leça é um espectáculo giro à noite, as luzinhas, as duas pequenas chamas, o silêncio, etc. Agora a praia também está bem, um passadiço, o bater uniforme do mar, o pôr de sol certo, muito certo para este início hesitante de um qualquer bom tempo, enfim. De noite ou de dia, teimo em considerar esta zona muito interessante.
Teimo nisto e em muitas outras coisas...
Teimo nisto e em muitas outras coisas...
Homens
We, men...
Eis um bom começo, não é? Mas avançemos. Nós, os homens, cometemos um erro frequente e que é o seguinte: não escolhemos como queremos estar mas sim com quem queremos estar. E da dissidência entre estes dois estares podem-se estragar muitos jantares. Erro que procuro, procurei, procurarei não praticar, visto estar identificado. Ora portanto...
Eis um bom começo, não é? Mas avançemos. Nós, os homens, cometemos um erro frequente e que é o seguinte: não escolhemos como queremos estar mas sim com quem queremos estar. E da dissidência entre estes dois estares podem-se estragar muitos jantares. Erro que procuro, procurei, procurarei não praticar, visto estar identificado. Ora portanto...
Venus

Venus é um filme de e para Peter O’Toole. O resto são cantigas. Ou se ama o Homem ou então é deixá-lo estar. Não é propriamente um filme de autor, embora o argumento seja de Hanif Kureishi, um autor. Por isso talvez seja um filme de argumento. Mas um argumento que se aceita e se deixa comer, apesar de uma que outra indigestão.
Peter/Maurice envelheceu. Ele é um actor que teve o seu êxito, o seu tempo. Era “lindíssimo”. Agora é um velho impotente cuja especialidade é representar moribundos, mesmo. Ele vive tudo isto com ironia e desprezo qb. , mas o aparecer da sobrinha de um seu amigo vai permitir-lhe “uma última dança”.
E aqui a primeira questão: quando devemos parar de dançar? O tipo de dança vai evoluindo com os anos? Ou a partir de determinada década o papel passa a ser ver os outros dançar, e pagar umas bebidas? Maurice/Peter acha que não - até porque, fora dos papéis que repetidamente lhe entregam, sente que vai morrer. E daqui nasce o filme. O resto são curvas de argumento, de cujas quais aceito praticamente todas, incluindo o interlúdio melodramático com o namorado de Venus/Jodie, pois Peter/Maurice vai ter até direito à sua última luta e à sua última derrota varonil, para com ela de uma vez ganhar a rapariga.
A segunda questão é: estarão as raparigas de acordo com tudo isto? Realizador, argumentista consagrado, actor principal monstruoso, tudo são homens. A visão Peter/Maurice da vida não é um paroxismo de feminismo altruísta. Maurice/Peter é um aristocrata mas também terá sido no seu tempo um infiel praticante. Quando refere que "um corpo nu de mulher deve ser a coisa mais bela que a maior parte dos homens alguma vez verá", Jodie responde perguntando "E uma mulher?". Peter/Maurice hesita e depois reponde "Talvez (não teria muito pensado no assunto) o nascer do seu primeiro filho". Ora esta é uma visão muito masculina da coisa.
Porém, fiquemos com a mensagem principal e que é:
Tudo "to keep the flame burning". A minha, a tua, a de quem fôr. Assim deve ser, amém. Till death do us part (from the living).
Da amiga ou a utilidade dos ratos.
Acontece sempre aquela história da amiga de quem gostamos e achamos piada, apesar de toda a informação negativa, repetidamente fornecida por quem de direito. "Mas não é a tua melhor amiga?" Nada, segue. Mas resistimos. E ao resistir o rato começa a roer a rolha, a pequenina rolha que sela o perfume guardado só para determinadas ocasiões programadas e por programar, cria-se uma fenda, uma saída, o perfume começa a circular, a perder-se, chega um determinado momento e é obrigatório dar-se por perdido, foi-se, kaputt! A amiga ainda tem a sua piada, nem muita nem pouca mas confirmadamente tem, e o torcido nariz ausculta todos os odores que o dia lhe vai fornecendo, seus cambiantes, perfume, nem cheirá-lo!
Dei um exemplo. Outros podia dar em como vivemos rodeados por roedores.
Dei um exemplo. Outros podia dar em como vivemos rodeados por roedores.
Eu já estive aqui antes...
Repetem-se os lugares e diferem os sentimentos despertados pelos mesmos. É assim: os anos passam e a memória dilui-se inapelavelmente. Esta e aquela vista, este e aquele andar, este e aquele sítio onde me sentei. Acresce que a obra humana vai fazendo os seus estragos, quero eu dizer que também alguém me faz o favor de ir transformando os sítios onde antes aconteci. Enumero: Carrefour-Coruña; José Manuel Péréz, obnubilado intensivista a cujo doutoramento assisti em directo em Santiago; crepería Petite Bretagne en Riego de Água-Coruña; Plaza Millán Astray, onde já quase morei há 13-14 anos.
E nada. O defeito só pode ser meu.
E nada. O defeito só pode ser meu.
Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
Servartes - Joana Cora
Onde estávamos já não estamos.
Hoje, dezasseis de Abril, estamos aqui. O que quer dizer que ontem era quinze e catorze o dia anterior. Que o meio do mês,essa virtuosa localização, já passou. Estamos onde estamos, não onde estávamos. Acumulamos conversa e conversa, mais. E silêncio. Pequenos. Aqui, ali. Hesitações, de voz, de fala, de tronco. O não ir para a frente do touro porque não é o dia. Não, hoje não.
E nada, hoje é dezasseis de Abril do ano com a sua graça de dois mil e dez. E não cessa a delícia. E o periabismo. Que poderá rimar com a presbiopia - explico - os olhos começarem a ficar velhitos e com dificuldade de ver ao perto.
Bom, posto isto, que se fôda as letras pequenas! Onde assino?
E nada, hoje é dezasseis de Abril do ano com a sua graça de dois mil e dez. E não cessa a delícia. E o periabismo. Que poderá rimar com a presbiopia - explico - os olhos começarem a ficar velhitos e com dificuldade de ver ao perto.
Bom, posto isto, que se fôda as letras pequenas! Onde assino?
Segunda-feira, 12 de Abril de 2010
abcde
a.
Os temas humilhantes
evito. Contorno.
Secciono. Assim a dose.
"Os óculos de sol!"
"Sony?" "Sony?".
Centímetros de.
A centímetros de
uma certa tragédia.
b.
O que me surpre
ende é que humilhes
tão pouco, usando o
usado, falando o
falado. Que pros
sigas a meu lado,
ainda que apenas por
uns centímetros.
c.
O desejo de um feliz
natal este ano também,
e de uma perene noite
feliz, decomposta esta
situação num tempo,
num modo. Sei exacta
mente do que estou a
falar.
d.
Corrijo: está a
água a correr, o
banho quase pronto,
os sais, o resto, de
mais nada sei nem ou
vi falar. Entro.
e.
Finalmente,
pôrra!
Os temas humilhantes
evito. Contorno.
Secciono. Assim a dose.
"Os óculos de sol!"
"Sony?" "Sony?".
Centímetros de.
A centímetros de
uma certa tragédia.
b.
O que me surpre
ende é que humilhes
tão pouco, usando o
usado, falando o
falado. Que pros
sigas a meu lado,
ainda que apenas por
uns centímetros.
c.
O desejo de um feliz
natal este ano também,
e de uma perene noite
feliz, decomposta esta
situação num tempo,
num modo. Sei exacta
mente do que estou a
falar.
d.
Corrijo: está a
água a correr, o
banho quase pronto,
os sais, o resto, de
mais nada sei nem ou
vi falar. Entro.
e.
Finalmente,
pôrra!
Terça-feira, 6 de Abril de 2010
15
1.
Estava o mar encapelado.
Cinza o ar todo. Não tinha eu fumado
O dia. Perdido veículo de
Expressão, porque na manhã
Aberto?
Interessante para passeio,
Disseste. Que caminho queres
Tomar, falamos de um castelo?
Gaia, Canidelo.
Os peixes, mais do que um signo.
2.
Ligas o computador, desligas
A luz de um quarto. Movem-se
As imagens num rectângulo
Tamanho médio. Expressão que me
Definirá. Medir este quarto com um pau
De fósforo.
O mar, o vento, o meu silêncio, três
Chagas que um cristo qualquer poderia
Amenizar recorrendo ao minibar.
Eis, vagamente, o meu corpo.
Eis, concretamente, a tua noite.
Terra em vaso.
Porque esperas.
3.
Um dia voltarei a ter a razão do meu lado.
Nem me lembro da última vez.
Dás-me a tua razão de pé porque me sento eu,
E assim já se conversa.
Será um ‘otel, escolhe tu a primeira letra.
Expostos, não escolhidos
Visitantes.
A mais nobre das profissões ser
Aqui arqueiro, onde
O alvo.
4.
A frente oeste não existe.
Procurei-a de Azurara a Lavadores e
Não está.
O mar faz o seu trabalho, disfarce e
Solução. Aviso sonoro.
“Cala-te!” ou “Não deixes de dizer aquilo!”.
“Empresta-me cinco euros para o almoço”.
Em mil pedaços uma noite.
A pouca alegria no que
Reconheces, cantando.
5.
Vou comer ainda menos,
Magistratura de influência.
Voltarão as cores à sua
Simples frequência, assim os verdes
Não mais desdobrados,
Deslumbrando.
A pequena fala sucedida
Sucederá. Pastilha azul,
Spray milagroso. E nelas
Toda a nossa culpa
Distribuida.
6.
Conto os dias que
Faltam: não sei contar.
Em todos os sentidos
Dedos. Os olhos
Escuros, mediação.
Digo: o tempo
Tombado a teus pés.
Disse? Não registo.
Trabalho de recolha de
Efluentes, soberano, moeda
Antiga. Em nenhum registo
Constarás.
7.
Posto não haver tempo disponível
Será preciso pedir o empréstimo do
Costume.
Credito à habitação dos dias.
Que será uma ilha,
Onde o precário
Abrigo.
8.
Do rio es-
Tirar um curso,
Saltar o leito,
Evitar a corrente
Mais forte,
As mais a mim chegadas.
Será preciso tirar um curso.
9.
O isolado fogo tem a
Baixa temperatura da
Palavra certa uma e
Outra vez.
Vigio. Escrevo entre
Escritos. Acabo?
Dois faróis assinalam
A barra de Aveiro.
Manobrar.
Ou isso.
10.
Devastada ideia
No ano findo.
Nada resta,
Pequenos animais alimentam-se de.
Não sossego. Não alimento.
Pasto de chamas, fogo lento.
Lentos pastores,
Opostas cores.
11.
Como podemos esperar.
Um cofre: nem sequer
A palavra pesa. As
Mãos abanam. Vento,
Vento. À porta da casa
Branca a guardo.
Chave, ignição, no automático
As luzes, o resto.
12.
Eu um pouco: “sou um pouco…”
Muito e bastante, em especial.
Um continente, modelo. Não, o
Habitual tamanho. Revestido.
Da atenção ao acto a revolução e
Almansil, por exemplo. Ou a
Golpe de gesto ou com cartão de
Pontos.
13.
A tua parte do texto
Foi-se, fugiu.
Por ex.: “Não mudarás a
Tua vida!” “Estás bem assim!”
Pre-cozinhado, pré-
Aquecido. Ou lembro aquela
História das omeletes
Sem ovos. E
Sem cavalos o auriga.
14.
“…e escurinha!” A doença e a Nossa
Senhora do pela tua saúde!
Ou a perene indisposição para
Umas coisas, como por ex. uma
Longa viagem.
Entrelinhas veio de Rio Mau a
Lampreia, que é de Penafiel,
Arrifana.
Que horas são já no teu relógio?
15.
Se sozinhos vivem os meus poetas
Passarei a limpo este nosso tempo
A quase nada cor o pequeno
Almoço aos poucos quinze a
Vinte minutos escassearão as
Formas o termo tudo perderá
Definição alfa ómega
Radiação cósmica mas não
Esqueço não esquecerei
“Sou a mais vulgar
Das mulheres.”
Estava o mar encapelado.
Cinza o ar todo. Não tinha eu fumado
O dia. Perdido veículo de
Expressão, porque na manhã
Aberto?
Interessante para passeio,
Disseste. Que caminho queres
Tomar, falamos de um castelo?
Gaia, Canidelo.
Os peixes, mais do que um signo.
2.
Ligas o computador, desligas
A luz de um quarto. Movem-se
As imagens num rectângulo
Tamanho médio. Expressão que me
Definirá. Medir este quarto com um pau
De fósforo.
O mar, o vento, o meu silêncio, três
Chagas que um cristo qualquer poderia
Amenizar recorrendo ao minibar.
Eis, vagamente, o meu corpo.
Eis, concretamente, a tua noite.
Terra em vaso.
Porque esperas.
3.
Um dia voltarei a ter a razão do meu lado.
Nem me lembro da última vez.
Dás-me a tua razão de pé porque me sento eu,
E assim já se conversa.
Será um ‘otel, escolhe tu a primeira letra.
Expostos, não escolhidos
Visitantes.
A mais nobre das profissões ser
Aqui arqueiro, onde
O alvo.
4.
A frente oeste não existe.
Procurei-a de Azurara a Lavadores e
Não está.
O mar faz o seu trabalho, disfarce e
Solução. Aviso sonoro.
“Cala-te!” ou “Não deixes de dizer aquilo!”.
“Empresta-me cinco euros para o almoço”.
Em mil pedaços uma noite.
A pouca alegria no que
Reconheces, cantando.
5.
Vou comer ainda menos,
Magistratura de influência.
Voltarão as cores à sua
Simples frequência, assim os verdes
Não mais desdobrados,
Deslumbrando.
A pequena fala sucedida
Sucederá. Pastilha azul,
Spray milagroso. E nelas
Toda a nossa culpa
Distribuida.
6.
Conto os dias que
Faltam: não sei contar.
Em todos os sentidos
Dedos. Os olhos
Escuros, mediação.
Digo: o tempo
Tombado a teus pés.
Disse? Não registo.
Trabalho de recolha de
Efluentes, soberano, moeda
Antiga. Em nenhum registo
Constarás.
7.
Posto não haver tempo disponível
Será preciso pedir o empréstimo do
Costume.
Credito à habitação dos dias.
Que será uma ilha,
Onde o precário
Abrigo.
8.
Do rio es-
Tirar um curso,
Saltar o leito,
Evitar a corrente
Mais forte,
As mais a mim chegadas.
Será preciso tirar um curso.
9.
O isolado fogo tem a
Baixa temperatura da
Palavra certa uma e
Outra vez.
Vigio. Escrevo entre
Escritos. Acabo?
Dois faróis assinalam
A barra de Aveiro.
Manobrar.
Ou isso.
10.
Devastada ideia
No ano findo.
Nada resta,
Pequenos animais alimentam-se de.
Não sossego. Não alimento.
Pasto de chamas, fogo lento.
Lentos pastores,
Opostas cores.
11.
Como podemos esperar.
Um cofre: nem sequer
A palavra pesa. As
Mãos abanam. Vento,
Vento. À porta da casa
Branca a guardo.
Chave, ignição, no automático
As luzes, o resto.
12.
Eu um pouco: “sou um pouco…”
Muito e bastante, em especial.
Um continente, modelo. Não, o
Habitual tamanho. Revestido.
Da atenção ao acto a revolução e
Almansil, por exemplo. Ou a
Golpe de gesto ou com cartão de
Pontos.
13.
A tua parte do texto
Foi-se, fugiu.
Por ex.: “Não mudarás a
Tua vida!” “Estás bem assim!”
Pre-cozinhado, pré-
Aquecido. Ou lembro aquela
História das omeletes
Sem ovos. E
Sem cavalos o auriga.
14.
“…e escurinha!” A doença e a Nossa
Senhora do pela tua saúde!
Ou a perene indisposição para
Umas coisas, como por ex. uma
Longa viagem.
Entrelinhas veio de Rio Mau a
Lampreia, que é de Penafiel,
Arrifana.
Que horas são já no teu relógio?
15.
Se sozinhos vivem os meus poetas
Passarei a limpo este nosso tempo
A quase nada cor o pequeno
Almoço aos poucos quinze a
Vinte minutos escassearão as
Formas o termo tudo perderá
Definição alfa ómega
Radiação cósmica mas não
Esqueço não esquecerei
“Sou a mais vulgar
Das mulheres.”
Inultrapassável
Inultrapassável. Não sei. Where the fuck are the outer limits? Outer outer outer limits?
Sexta-feira, 26 de Março de 2010
Da Casa Branca
Foi a mais silenciosa das noites, o que foi estranho. Ela dormia não dormia, sendo a diferença bem pequena. Um pequeno fechar e abrir de boca marcando um ruido mínimo, um pequeno abrir dum pequeno cofre. Assim dormia. Adormecer com Cesariny ao lado tem sempre algum perigo. Pode meter magalas, terminologia imprópria para menores. Escatologia vária. Mas lá fora residia a fúria de um mar que representava todas as fúrias havidas e por haver, a gaivotaria mal tentando resistir em derivas aéreas a destempo, e desoras, pois era de noite. Em linha recta, como recto tinha sido o caminho tomado até ali, nem dois quilómetros, a cidade do Porto. Repito que quando falo contigo parece-me falar com toda uma cidade. Mas se calhar não. A tudo posso ainda dizer se calhar não. Pois continuo sem nada saber. Adormecer com Cesariny tem por outro lado a vantagem da segurança própria de quem não está para aí virado. E duas camas permitem dois lados para onde virar. Mas só uma porta condiciona sempre a possível rota de fuga. Por outro lado - eis os lados - vai-se sempre corrigindo, como se em gesso a versão da estátua futura, a versão futura de um viver que não há-de vir. Algo como "(...) ela com alguma frequência continuava a invadir-lhe os espaços, os tempos, os gestos. Invadia com um jeito só seu, ora brusco ora hesitante, o corpo aos solavancos como abrindo caminho, que não precisava, estava aberto. Ele deixava, oh se deixava. Admitia-se ocupado. Não parecia haver limites, mas sim, havia limites. Tinham sido aprendidos muito antes, numa qualquer pre-história partilhada. Porque todas as histórias têm uma pre-história. Falavam como que diferentes línguas, atravessando meias palavras. Mas naqueles momentos de aparente desequilíbrio, que se sentasse e demorasse um tempo a medir a coisa, estavam só e apenas um para o outro, ali, um com o outro. E com pequenas cargas de ombro ele conseguia o equilíbrio. Até porque tinha sido ele a abrir a porta, podia não abrir. O disparate medido e comumente praticado era ali um droga fácil, que também ele tinha aprendido a administrar. Podia ser dito que ele de vez em quando lhe vinha condicionar a dose, reduzir o miligrama. Ele também em consumo, consumindo-se. E aqui era ela a deixar que essa interferência se desse. Era isso: interferiam um no outro. Nestes dias, que noutros não. E assim mantinham-se interessantemente vivos. O que é muito dizer, nos dias que correm. (...)"
As gaivotas, de manhã, eram já mais. Porque era um dia outro já. A fúria mantinha-se, a fúria está ali sempre, condiciona. Não rendidas mas condicionadas, por um qualquer dos lados que o vento acaba por permitir, elas penetram na muralha invisível e seguem para a vida, ou se não apenas pousam e esperam, amanhã será o dia de chegar ao mar e comer.
"Comer, beber, homem, mulher." Título de um filme. O dia a dia ainda possível.
As gaivotas, de manhã, eram já mais. Porque era um dia outro já. A fúria mantinha-se, a fúria está ali sempre, condiciona. Não rendidas mas condicionadas, por um qualquer dos lados que o vento acaba por permitir, elas penetram na muralha invisível e seguem para a vida, ou se não apenas pousam e esperam, amanhã será o dia de chegar ao mar e comer.
"Comer, beber, homem, mulher." Título de um filme. O dia a dia ainda possível.
Quarta-feira, 24 de Março de 2010
Domingo, 21 de Março de 2010
Do The Right Thing!
Era um filme do Spike Lee, há mais de vinte anos que o vi. A confusão foi ainda maior por não entender a mensagem subjacente aquele filme específico e portanto então não me ter identificado com a atitude do protagonista , o Spike Lee lui mêmme. What's the right thing, for me, for you? What's right? Tudo isto gira à volta da questão da verdade ,a verdade, devemos sempre trabalhar com a verdade, etc. e tal... Lembro-me de uma discussão que tive com uma rapariga nova que trabalhou comigo, há anos, actualmente casada com o rapaz que publicou comigo o blogue sobre leituras. A Cecília Rinto, dela falo, é mais um/uma dos discípulos que me encheram os dias nos tempos da Medicina e que hoje honro e choro a sua ausência. E ela não concordou comigo. Tocava violino na tuna, fazia uns sons agudos enquanto escrevia os diários, era engraçada.
A história é esta: a irmã duma grande amiga minha teve comigo há muitos anos um diagnóstico de Hipertensão secundária, isto é, provocada por um problema numa artéria renal. Diagnóstico feito, fez a dilatação da artéria no SantoAntónio, e siga. A rapariga alguns anos depois começou a ter problemas de dores e alterações da sensibilidade nos membros inferiores, e vou evitar os termos técnicos. To cut a long story short, após vários exames e com a ajuda decisiva dum amigo meu Neurologista chegou-se à óbvia conclusão que a rapariga tinha esclerose múltipla (EM). Não sendo eu íntimo da jovem, professora de filosofia do ensino secundário, discuti com a irmã, ainda por cima médica e grande amiga minha, repito, a oportunidade do acesso da doente ao diagnóstico definitivo, pelo risco de "labeling" e desespero associado, acudindo a irmã com o argumento de que o perfil psicológico da irmã contraindicava definitivamente o conhecimento do diagnóstico. As palavras "esclerose múltipla" foram varridas do mapa. Clinicamente ela evoluiu bem, esta história tem mais de dez anos, a doença tem progredido pouco ou nada, a minha doente e agora também grande amiga tem uma vida activa e produtiva. Eu julgo que ela sabe/não sabe do diagnóstico mas voluntariamente engana-se, vigiando qualquer lapsus linguae meu. Esta história tem mais dois episódios.
O primeiro aconteceu quando finalmente a minha amiga doente decidiu casar, e pôs a hipótese de gravidez. A conversa do costume sobre o relógio biológico, etc.: ela é dois anos mais velha do que eu. Aqui tive algummas trocas de palavras mais duras com a irmã índice, a que é médica, etc., mas afinal manteve-se a mentira, embora com uma porta que eu entreabri que a minha doente amiga decidiu não aproveitar/arriscar.
O segundo episódio foi quando há dois anos a minha amiga doente agravou um pouco os sintomas e eu consegui arranjar-lhe um Neurologista da àrea da EM que a observasse, de forma a eventualmente reiniciar tratamento. Acontece que as análises, etc., não foram conclusivas, a clínica estacionou, ela com uma nova combinação de antidepressivos mais uns quantos placebos melhorou, etc., etc. AEste Neurologista ficou com dúvidas no diagnóstico! Terminando, oficialmente na cabeça dela ela não tem esclerose multipla. Tem sim uma doença blablabla mas que não é, não senhor, nem pensar. A história de Dâmocles e da espada.
Claro que não me sinto nem orgulhoso nem triste com isto. Estou e estarei apreensivo. Sou hoje muito amigo desta rapariga. Falamos com frequência, tomamos um café aqui e ali. A sua irmã, confidente de horas muito antigas, telefona-me em apertos e só, sempre a correr.
Era um caso de medicina. Iaaarrrgh!
As relações pessoais, afectivas, etc., são a completely different ball game, certo? Todos sabemos quem queremos, quanto, como, porquê, e os verbos necessitar, precisar, ceder, brunir, nunca por nunca são chamados, certo? As mais das vezes porém acredito que a palavra mentira não se aplique ao quadro legislativo. Voemos até Paris: este fim-de-semana a esquerda ganhou as regionais em França. Ganhou? Sim, com 47% de abstenção. É, a partir de determinada idade passamos a abstermo-nos, muito, com frequência, sempre.
Bom ,ams nada disto tinha a ver com a questão índice: do the right thing! Chama-se a um texto assim um manobra de diversão. Passeando pela família de palavras anexa encontro divergir, encontro divertir, encontro divertículo (intestinal)...
A história é esta: a irmã duma grande amiga minha teve comigo há muitos anos um diagnóstico de Hipertensão secundária, isto é, provocada por um problema numa artéria renal. Diagnóstico feito, fez a dilatação da artéria no SantoAntónio, e siga. A rapariga alguns anos depois começou a ter problemas de dores e alterações da sensibilidade nos membros inferiores, e vou evitar os termos técnicos. To cut a long story short, após vários exames e com a ajuda decisiva dum amigo meu Neurologista chegou-se à óbvia conclusão que a rapariga tinha esclerose múltipla (EM). Não sendo eu íntimo da jovem, professora de filosofia do ensino secundário, discuti com a irmã, ainda por cima médica e grande amiga minha, repito, a oportunidade do acesso da doente ao diagnóstico definitivo, pelo risco de "labeling" e desespero associado, acudindo a irmã com o argumento de que o perfil psicológico da irmã contraindicava definitivamente o conhecimento do diagnóstico. As palavras "esclerose múltipla" foram varridas do mapa. Clinicamente ela evoluiu bem, esta história tem mais de dez anos, a doença tem progredido pouco ou nada, a minha doente e agora também grande amiga tem uma vida activa e produtiva. Eu julgo que ela sabe/não sabe do diagnóstico mas voluntariamente engana-se, vigiando qualquer lapsus linguae meu. Esta história tem mais dois episódios.
O primeiro aconteceu quando finalmente a minha amiga doente decidiu casar, e pôs a hipótese de gravidez. A conversa do costume sobre o relógio biológico, etc.: ela é dois anos mais velha do que eu. Aqui tive algummas trocas de palavras mais duras com a irmã índice, a que é médica, etc., mas afinal manteve-se a mentira, embora com uma porta que eu entreabri que a minha doente amiga decidiu não aproveitar/arriscar.
O segundo episódio foi quando há dois anos a minha amiga doente agravou um pouco os sintomas e eu consegui arranjar-lhe um Neurologista da àrea da EM que a observasse, de forma a eventualmente reiniciar tratamento. Acontece que as análises, etc., não foram conclusivas, a clínica estacionou, ela com uma nova combinação de antidepressivos mais uns quantos placebos melhorou, etc., etc. AEste Neurologista ficou com dúvidas no diagnóstico! Terminando, oficialmente na cabeça dela ela não tem esclerose multipla. Tem sim uma doença blablabla mas que não é, não senhor, nem pensar. A história de Dâmocles e da espada.
Claro que não me sinto nem orgulhoso nem triste com isto. Estou e estarei apreensivo. Sou hoje muito amigo desta rapariga. Falamos com frequência, tomamos um café aqui e ali. A sua irmã, confidente de horas muito antigas, telefona-me em apertos e só, sempre a correr.
Era um caso de medicina. Iaaarrrgh!
As relações pessoais, afectivas, etc., são a completely different ball game, certo? Todos sabemos quem queremos, quanto, como, porquê, e os verbos necessitar, precisar, ceder, brunir, nunca por nunca são chamados, certo? As mais das vezes porém acredito que a palavra mentira não se aplique ao quadro legislativo. Voemos até Paris: este fim-de-semana a esquerda ganhou as regionais em França. Ganhou? Sim, com 47% de abstenção. É, a partir de determinada idade passamos a abstermo-nos, muito, com frequência, sempre.
Bom ,ams nada disto tinha a ver com a questão índice: do the right thing! Chama-se a um texto assim um manobra de diversão. Passeando pela família de palavras anexa encontro divergir, encontro divertir, encontro divertículo (intestinal)...
Sábado, 20 de Março de 2010
Silêncio hoje.
Porque há momentos em que não é para falar mas fazer, ou, pelo contrário, esperar. Em silêncio manobrando.
Quarta-feira, 17 de Março de 2010
Definição
Não há. Só fazendo se sabe o amor como é, como sai, como fica feito. Para que conste. Porque toda a memória é futura agora.
11ª Cefaleia.
"Tiraste-me as palavras! Merda! Quero as palavras de volta! Com tanta coisa que me dizes já só consigo falar em espelho!"
Falo o menos possível, e com poucas pessoas. O meu trabalho profissional assim o permite. Persigo uma nova meta de economia da dicção. E fujo das palavras mais fortes como da peste. A Cefaleia nem precisa de me ouvir, do bem que nos entendemos. A solidão é a ausência de discussão. É portanto um estado perfeito. Sinto-me um pouco como a República de San Marino, ou o estado de Andorra. Ensaio às vezes expressões de boa circunstância ao espelho, algum dia serão precisas. "Tens claramente razão!" "Isso mesmo ia eu dizer!" "Não prossiga, encontrou a palavra certa!"
Falo o menos possível, e com poucas pessoas. O meu trabalho profissional assim o permite. Persigo uma nova meta de economia da dicção. E fujo das palavras mais fortes como da peste. A Cefaleia nem precisa de me ouvir, do bem que nos entendemos. A solidão é a ausência de discussão. É portanto um estado perfeito. Sinto-me um pouco como a República de San Marino, ou o estado de Andorra. Ensaio às vezes expressões de boa circunstância ao espelho, algum dia serão precisas. "Tens claramente razão!" "Isso mesmo ia eu dizer!" "Não prossiga, encontrou a palavra certa!"
Da música que se ouve
A música que eu ouço diz-me o que fazer. Lembro-me de há muitos anos dizer que só duas coisas nunca me tinham desiludido: os meus doentes e minha música. Mantém-se. Procuro que música ouço. Donde o que quero ouvir. Donde sou eu que "faço" a música. Mas sim, a música nunca me desiludiu. Estou sim cada vez mais velho para dançar. E é um bocado apatetado dançar sózinho.
Terça-feira, 16 de Março de 2010
Poema da Couve Coração
Domingo, 14 de Março de 2010
Sábado, 13 de Março de 2010
Comida
Alimento-te. Mesmo? Não te darei nada que já não tenhas comido. E comido, e comido. Ou exactamente o contrário.
Avatar
Vou conseguir não ver o filme do James Cameron. Vivendo com quem vivo, é fácil. E, porém, estou a viver um filme igual, se bem que muito mais real, acho, tendo em conta que somos tu e eu habitantes de planetas diferentes. Escuso de explicar, pôr em cima da mesa o mapa de estrelas e apontar a distância entre, que é em anos-luz, e lembro que um ano-luz é o espaço que demora a luz - por exemplo a tua - a percorrer em um ano. Bastantes anos-luz, digo. Bom, ponhamos que pertencemos à mesma galáxia, e já não está mal. Ponhamos que a respiração é difícil mas o oxigénio não escasso sim algo excessivo, num e noutro planeta. Que desse excesso as possibilidades de combustão são algumas, até importantes. Contacto. Aviso: é em Souselas que acontece a co-incineração, e na Arrábida. Não devíamos ir por aí.
Esta coisa
em forma de blogue já não é a mesma coisa. Embora, claro, ignore por completo se algum dia lerás isto. Mas a possibilidade existe, donde Maconde!
Sexta-feira, 12 de Março de 2010
As crianças, meu deus, as crianças...
Cruzei-me agora mesmo com uma amiga minha (latu sensu), mais sua criança. Que crianças nunca teria, ouvi-a uma década. Depois adoptou uma gata encontrada na rua. Tem agora uma filha. O marido provoca-me sono só de olhar para ele. Lembro-me de ter jantado com eles, apartamento recém adquirido em Leça, vista panorâmica para o mar. No salão, despido, de baile, pontificava contra a parede um aparelho de musculação. Francis Bacon anestesiado. Eu adormeço com muito facilidade na maior parte das situações. Durmo pouco, estou a envelhecer. Desconheço para onde vou. Esta minha amiga enerva-me.
Redux
Há os filmes que depois de muitos anos de culto lhes acontecem muitas versões: “director’s cut”, “cenas extra”, “fim alternativo”, “versão redux”.
Sinto-me por aqui, com a excepção do culto, claro. E estarei a evoluir para uma espécie de versão “redux”. Qualquer delas, das versões, acaba sempre por não saber, por não ser, como “daquela primeira vez” que se viu o filme no cinema..
Sinto-me por aqui, com a excepção do culto, claro. E estarei a evoluir para uma espécie de versão “redux”. Qualquer delas, das versões, acaba sempre por não saber, por não ser, como “daquela primeira vez” que se viu o filme no cinema..
Quinta-feira, 11 de Março de 2010
10ª Cefaleia.
E janto a partir duma dedicada colecção de congelados e equiparados que vou investigando em vários super, mini e hipermercados da grande e partida metrópole em que residimos, eu e tu. Crescem lentamente as variedades que uso. Vou refinando as escolhas, tentando obter a classificação de omnívoro qualificado. Sei que cozinhas pouco. Revejo-me a conviver dentro dessa situação, decoro gestos de cozinha para ineventualidades. A Cefaleia viaja lentamente através das variantes alimentares que a Eukanuba lhe vai permitindo. Eu elevo a arte do micro-ondas ao sétimo céu, à nuvem número nove, e sento-me e espero. Também pratico a execução de dois, três pratos de cozinha que domino. Umas omeletes, um outro de forno. As batatas assadas saem-me cada vez melhor assadas. Falho todo e qualquer arroz.
Não tem chovido. Tem feito sol. Ainda não comprei a torradeira, mas vou comprar.
Não tem chovido. Tem feito sol. Ainda não comprei a torradeira, mas vou comprar.
Quarta-feira, 10 de Março de 2010
Plural
Onde estávamos estamos. Houve algumas palavras novas, das mais velhas que no mundo há. Ficámos? Ficamos. A pressão dos sms's a postergar o acetileno.
Quarta-feira, 3 de Março de 2010
Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
9ª Cefaleia.
Sexta feira é o dia em que preparamos, tu e eu, o fim-de-semana. E este, mais que os dias, é três noites, três longas noites. Sendo que a terceira tem características autónomas. Mas aí já chegaremos.
Tu e eu vamos ao Blockbuster mais próximo e alugamos alguns filmes para o fim-de-semana que se aproxima. Conhecendo eu agora os teus horários, não coincidimos. Conhecendo eu os teus hábitos de visionamento, escolho sempre filmes que, assumo, não verás ou já terás visto bastante. Acredito que hoje por hoje somos, eu e tu, os melhores clientes da loja de Blockbuster de que falo. Não entendo como vão falir.
Tu e eu vamos ao Blockbuster mais próximo e alugamos alguns filmes para o fim-de-semana que se aproxima. Conhecendo eu agora os teus horários, não coincidimos. Conhecendo eu os teus hábitos de visionamento, escolho sempre filmes que, assumo, não verás ou já terás visto bastante. Acredito que hoje por hoje somos, eu e tu, os melhores clientes da loja de Blockbuster de que falo. Não entendo como vão falir.
Acordo, não acordo.
Acordo, não acordo. Os dentes para depois da primeira bebida, Matinal. Que foi aquecida. Ainda o vento não protagoniza o dia, a soprada chuva. Nova camisa, a cara lavada. Que não a barba. Não, não quero outra torrada. Levo e trago uma futura figura do meio musical português. Volto e vamos. Cavalos que se recusam trabalhar, mas é sábado, sabiam? Mais um pato trucidado ao almoço. Água. Corrijo, estava bom. E depois? Um pião na saída para Leça, em uma hora chega a polícia, não sabem de mim, distraídos. Nunca sou eu o homem que vai preso. Os eucaliptos aguentam. Bandeiras de espuma no mar encapelado, a religião a sublimar a tempestade que nem por isso. As compras do mês de toda a gente, o telefonema preventivo, antes. Palmeiras anãs aguentam. Imóvel a ponte móvel. A pouca surpresa de todo o lixo à porta de casa, decidiu o vento que não era para reciclar hoje, os contentores derrubados. Lembras-te ainda de ontem? Subir, que é sempre o princípio do fim. Um pinheiro de brincar caiu, confortá-lo. Voam pratos e chove fininho. Bombeiros e um banho. Lentamente a humidade fecha a porta. Por duas vezes pensei comprar um kit de magia, comércio português para uma ilusão feliz. Não comprei. Cinco filmes cinco? Como as refeições que recomendam, as nunca feitas coisas correctas para uma longa vida, puta que pariu a longa vida. Quatro anos tinha e a publicidade que mais me fascinava era aquela dos cigarros muito mas muito compridos no Século Ilustrado. E falta a merenda, talvez um filme infantil, nenhuma discussão por mais breve, vários níveis de silêncio para sobremesa. Ou vá de criticar as pessoas do costume, enrolar uma que outra história e criar a cortina de fumo que a hora está a pedir. Contacto, chegou a hora do filme. Não fujo, não posso fugir. Não há palavra que não se desdobre em duas, agora reparo. Falo das encomendas para as quais não chego, e ganho a súbita certeza que já alguém me encomendou a alguém. Que hoje se descer a corrigir o estacionamento do carro ou depositar o lixo em local propício para que o vento o desate, receberei um tiro. O primeiro sorriso do dia. Mas não. O congelador está preenchido com a repetição de um aviário oferecido, como podes tu continuar a congelar o coração? Cala-te, caralho! Vejamos, haverá um momento Bach, e um que outro exercício de distensão atmosférica. A roupa lá fora, colisões assumidas dentro. As compras, arrumá-las. Poucos euros para catorze itens. Músculos a trabalhar, tensão que não termina. E sobre o estirador a folha em branco. A circunstância de Ortega y Gasset assombra a casa e conduz os diálogos a bom porto, apesar do número de barras fechadas no país ser elevado. Há sempre uma solução, que é o tempo que progride, a mão que fechada pende e cede. Já é noite e está quase.
E tu, que fazes tu aqui? Não te despedes, não dizes até amanhã? É suficiente lenitivo afirmar que sou eu a pedir-te que fiques e comas comigo a mesma refeição? Um beijo, deixa-te estar, serve-te. Reparo que a sopa está líquida e junto-lhe pão.
E tu, que fazes tu aqui? Não te despedes, não dizes até amanhã? É suficiente lenitivo afirmar que sou eu a pedir-te que fiques e comas comigo a mesma refeição? Um beijo, deixa-te estar, serve-te. Reparo que a sopa está líquida e junto-lhe pão.
Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010
8ª Cefaleia.
Duas vezes por semana vou fazer compras contigo.
Antigamente pouca vezes tinhamos juntos ido "desfazer dinheiro em compras". A expressão era minha. Só recentemente percebi como o acto de comprar pode ser revelador sobre a personalidade de alguém. Comecei portanto o ano passado a seguir-te a prudente distância, verificando comportamentos, anotando feições. Percebi portanto que pouco paravas nas montras, entrando logo a seguir. Uma vez no interior da loja tocavas, medias, comparavas, sempre algo insatisfeita com alguma coisa. Percebi finalmente que compravas muito menos do que o prometido. Bastante menos do que eu antigamente pensava. Fui acumulando referências, nomes, detalhes. Adquiri como meus raciocínios que antes me eram completamente espúrios. E agora repito trajectos e também caras e caretas; aprecio, peso, pergunto medidamente este ou aquele produto. E compro. Três meses depois coloco-os à venda no eBay, e consigo o ocasional lucro que o aleatório de todos estes negócios pode permitir.
Antigamente pouca vezes tinhamos juntos ido "desfazer dinheiro em compras". A expressão era minha. Só recentemente percebi como o acto de comprar pode ser revelador sobre a personalidade de alguém. Comecei portanto o ano passado a seguir-te a prudente distância, verificando comportamentos, anotando feições. Percebi portanto que pouco paravas nas montras, entrando logo a seguir. Uma vez no interior da loja tocavas, medias, comparavas, sempre algo insatisfeita com alguma coisa. Percebi finalmente que compravas muito menos do que o prometido. Bastante menos do que eu antigamente pensava. Fui acumulando referências, nomes, detalhes. Adquiri como meus raciocínios que antes me eram completamente espúrios. E agora repito trajectos e também caras e caretas; aprecio, peso, pergunto medidamente este ou aquele produto. E compro. Três meses depois coloco-os à venda no eBay, e consigo o ocasional lucro que o aleatório de todos estes negócios pode permitir.
Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010
7ª Cefaleia.
Assumo que sonho agora pouco contigo. As minhas noites são calmas e tranquilas. Cismo um bocado, mas de dia. Sendo que a palavra suscita-me considerações historicistas - O Grande Cisma, etc. - e daí derivações sobre aquele momento em que discordei de ti. Sem razão, dizias. E sem pena desapareceste. "Quem é ele?" Rias e disparatadamente, até as lágrimas te virem aos olhos, rias, mas não comigo, e um abcesso abria e revia pús entre o coração e o estômago, aproximadamente. Isto tinha que envolver o diafragma e distorcer abundantemente o esófago, enfim, tudo deixava de funcionar. E dizias o nome dele, já nem me lembro quem era, e encolhias os ombros: "ora pensa lá se isto tem lógica...", e continuavas a rir. Como eu gostava que o teu riso fosse à minha frente e por mim, as lágrimas de riso um sinal de sucesso, era cada vez mais difícil o sucesso entre nós. Tinha uma agenda onde anotava os dias bons, uma agenda cada vez mais despovoada. Naquele dia tracei um risco. Terias razão no que dizias e eu sabia, sabia, mas era superior às minhas forças.
Lembro que antigamente as leiteiras falsificavam o leite com urina, elas próprias urinavam para dentro dos recipientes, assim constava. Acho que a urina não adulterava o pH ou a densidade do leite, e os fiscais não reparavam. Durante algum tempo assim fizeste com a nossa relação, intenção mais benigna que a das leiteiras de então, acredito. Um belo dia porém de bexiga vazia decidiste cortar cerce o cancro: "não te aguento mais!".
Lembro que antigamente as leiteiras falsificavam o leite com urina, elas próprias urinavam para dentro dos recipientes, assim constava. Acho que a urina não adulterava o pH ou a densidade do leite, e os fiscais não reparavam. Durante algum tempo assim fizeste com a nossa relação, intenção mais benigna que a das leiteiras de então, acredito. Um belo dia porém de bexiga vazia decidiste cortar cerce o cancro: "não te aguento mais!".
Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
4ª cefaleia.
Tenho tomado mais café ultimamente e com um único objectivo: não dormir. Sei que dormes mal. Do pouco que conversámos julguei adquirir os teus hábitos televisivos. A minha relação com o rectângulo que ilumina e adormece tem sido intermitente, com períodos ora de grande dependência ora de profunda aversão. Graças a ti tenho agora a minha vida televisiva bem organizada. De manhã compro o jornal e analizo os programas televisivos a haver à noite. Balizo as horas entre as vinte e uma - sei que raramente estás em casa antes disso - e as duas. Apontei como limite as duas da manhã de modo a que o espertar não se reflectisse demasiado no meu rendimento laboral. Pego numa caneta e assinalo os programas que julgo irás ver, ou que verias se pudesses, ou se calhar gostarias de não perder e a correr ligarás o aparelho e já estará a meio mas, bom! Assinalo com uma seta um a um e o jornal rabiscado fica a meu lado no carro. Depois compro outro que será usado durante a tarde para as conversas de circunstâncias do escritório. Que o primeiro-ministro não devia e que o ministro não teme. A bola. O tempo. A morte de alguém. Findo o dia de trabalho, o segundo jornal é reciclado. O primeiro está à minha espera no lugar ao lado do conductor. Consulto-o nas filas do trânsito, com cuidado embora. Em casa descongelo o que comerei. Atraso de propósito o jantar assumindo que o comer perante a televisão deverá ser um mimetismo do teu viver naquele preciso momento. Assumo, não faço a mais pequena ideia. Às vezes acontece que também te vejo entrar, mas é raro. Só não atraso o comer da cadela. Ela não te ama como eu amo, por isso não deve ser obrigada a estas solidariedades. Patê, Eukanuba, água, água. A Cefaleia vem depois para o sofá ver o que eu vejo na televisão, distraidamente atenta. Para nada cobiça o que como. São onze anos, já disse. A serenidade feita bicho. Eu não. Como?
3ª cefaleia.
Consegui chegar mais tarde ao emprego. Assim, da janela da cozinha vejo-te sair para o trabalho todas as manhãs, frontal, acelerando. Digo frontal pois a saída da garagem do teu prédio cospe os carros como se para mim fosse, e acresce ser o teu carro munido de uma suspensão que reproduz um último soluço de pavimento antes do nivelar com o passeio e da posterior rampa que se dilui na Rua X. Com esse último soluço vejo-te e não te vejo. Sempre usas óculos escuros quando sais de manhã. A Cefaleia entretanto acordou, reclama também ela o seu sustento, os anos que tem permitem logo após abandoná-la à escassez de espaço de um T2 sem varanda. É uma Cefaleia "antiga". Tem exactamente onze anos.
2ª cefaleia.
Decidi tornar-me conhecido no teu bairro. Que não é um bairro mas sim um entrecruzado de prédios que não existiam nem há dez anos. Não importa, tenho que fazer alguma coisa. Compro o jornal no rés-do-chão de onde vives. Desnecessariamente às vezes também tomo ali café. A senhora da tabacaria tem uma pequena máquina onde tira uns cafés que depois serve por um pataco aos clientes. Donde a utilidade disto numa tabacaria, ultrapassa-me. Santificada intenção será, e divina, mas que não me foi revelada em sonhos. O café nem é mau. A tua entrada é ventosa, uma massa atlântica parece abandonar a rua por uns metros e varrer o espaço coberto de sul para norte, todo um projecto, toda uma ideologia. Mas eu insisto. Pego na cadela, fecho as luzes, desço, vou tomar café agora.
1ª Cefaleia.
Comprei o apartamento mesmo em frente ao teu, não como combinado, pois nunca combinámos nada. Tanto assim que só após a escritura me lembrei que o teu apartamento afinal deita para as traseiras. Irresolúvel esta questão, o nosso não comunicar, a ausência de qualquer sinal. Passeio religiosamente a minha cadela pelas dez, onze horas da noite, buscando as traseiras de um prédio que não o meu, iluminado pela luz de uma janela que muito pouco provavelmente será a tua, como resolver esta situação, este imbróglio, tento falar com a minha cadela e ela não me responde, late apenas, amiga, muito amiga mesmo. Chama-se Cefaleia.
Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010
Oh! The English Poem...
Valentine's Day is over!
Was there ever one?
Whether fucking or kissing,
mind the gap between,
any other day happy or sad,
you measure your weight
and call the dentist.
Look, don't you move a muscle,
coffee will be at last,
nothing more, the heart
with a slight acceleration,
the scent of the two drugs
competing.
And that will be it,
our Valentine's Day over,
and it will be ok,
or grand, the choice is yours.
Was there ever one?
Whether fucking or kissing,
mind the gap between,
any other day happy or sad,
you measure your weight
and call the dentist.
Look, don't you move a muscle,
coffee will be at last,
nothing more, the heart
with a slight acceleration,
the scent of the two drugs
competing.
And that will be it,
our Valentine's Day over,
and it will be ok,
or grand, the choice is yours.
Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Zelig VI
"E sobreveio uma dor lombar."
Era eu muito criança, tanto que ainda mal sabia falar, quanto mais dizer, e lembro ter começado a chorar na escola, chamada esta então do "Quartel", e era a 1ª classe. Aluno modelar numa turma onde a violência por parte do professor, o comportamento discricionário consoante a classe de origem e a humilhação, eram prática diária, preocupou-se este com um dos poucos alunos onde estava ele eximido dessas práticas que tanto, tanto o desgostavam. Sim, confirmo, era um filho-da-puta. Não sabia eu bem porque chorava. Lembro que quando era criança chorava por tudo e por nada, algo que me sucedia com frequência. Tarde embora, algures na adolescência a fonte secou, até hoje. Não me vanglorio pela coisa: trata-se efectivamente de um defeito que tenho.
Bom, o professor perguntou-me o que se passava e eu inventei que a minha preocupação passava por umas supostas crises de dor ciática que o meu pai por aqueles dias andava a ter. Já nem nisto tenho eu a certeza - não seriam já cólicas renais similares a outras que posteriormente eu sei que ele teve? Não sei. Adiante, o certo foi a mentira. Os meus pais chamados, e comovidos com a sensibilidade, eu diminuido pela atenção e pela culpa. Mas eu não podia confessar uma outra qualquer razão que eu sentia ultrapassar as poucas palavras que então eu tinha disponíveis para aquele banho de angústia que me afogava. Porquê? Sabia lá eu! Seis, sete anos? Não tinha mais idade.
Quase quarenta anos depois, a região lombar de gente a quem eu quero volta a estar agora objectivamente sob a minha atenção. E, pela primeira vez desde que me conheço, tenho o que por tradição os médicos chamam lumbago, que é uma espécie de sub-ciática, de dor ciática amputada. Á esquerda, esclareço.
Isto passa.
Era eu muito criança, tanto que ainda mal sabia falar, quanto mais dizer, e lembro ter começado a chorar na escola, chamada esta então do "Quartel", e era a 1ª classe. Aluno modelar numa turma onde a violência por parte do professor, o comportamento discricionário consoante a classe de origem e a humilhação, eram prática diária, preocupou-se este com um dos poucos alunos onde estava ele eximido dessas práticas que tanto, tanto o desgostavam. Sim, confirmo, era um filho-da-puta. Não sabia eu bem porque chorava. Lembro que quando era criança chorava por tudo e por nada, algo que me sucedia com frequência. Tarde embora, algures na adolescência a fonte secou, até hoje. Não me vanglorio pela coisa: trata-se efectivamente de um defeito que tenho.
Bom, o professor perguntou-me o que se passava e eu inventei que a minha preocupação passava por umas supostas crises de dor ciática que o meu pai por aqueles dias andava a ter. Já nem nisto tenho eu a certeza - não seriam já cólicas renais similares a outras que posteriormente eu sei que ele teve? Não sei. Adiante, o certo foi a mentira. Os meus pais chamados, e comovidos com a sensibilidade, eu diminuido pela atenção e pela culpa. Mas eu não podia confessar uma outra qualquer razão que eu sentia ultrapassar as poucas palavras que então eu tinha disponíveis para aquele banho de angústia que me afogava. Porquê? Sabia lá eu! Seis, sete anos? Não tinha mais idade.
Quase quarenta anos depois, a região lombar de gente a quem eu quero volta a estar agora objectivamente sob a minha atenção. E, pela primeira vez desde que me conheço, tenho o que por tradição os médicos chamam lumbago, que é uma espécie de sub-ciática, de dor ciática amputada. Á esquerda, esclareço.
Isto passa.
Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Zelig III
Quando o trânsito intestinal se torna assunto, as coisas não andam bem. Mas vamos arriscar, pois disso se trata.
Posso dizer que tive uma infância e uma adolescência obstipadas. Não me vou estender sobre o assunto, vou sim confessar o que foi sempre o meu espanto pela regularidade metronómica do meu pai, transitando regularmente todas as manhãs antes de ir para o emprego, sem mais. Assim foi sempre, assim é ainda, embora agora sem emprego.
Viajemos até aos aconchegos dos dias de hoje. Acrescento um facto importante: a minha dieta actual é, com frequência, bem mais mediterrânica do que já foi. Tresanda a saudável por todos os poros. Não tenho culpa: assim me é servida. E, por um lado, até gosto. Isto dos lados mereceria outra explicação. Claro que tanta verdura tinha que ceder vez a alterações substanciais na tramitação intestinal do meu expediente, já que nem por isso o Sporting tem sido campeão mais vezes, alternativa possível para uma rima em verde, cor de que falamos.
Agora uma coisa confesso: não é esta tramitação hoje mais acelerada de que falo tranquilamente silenciosa e contumaz como a de meu pai era, é, será. Acredito que, por influências do escafandro, explico, de convívios estreitos com várias variações da síndrome do cólon irritável, alguma que outra urgência colónica me tenha surgido, sido induzida por estas vizinhanças. O trânsito acontece-me hoje em dia on a daily basis but regularity unknown, e com paroxismos que podem ocasionar eventual estorvo.Lá está, plasma-se a observação no observador que não no observado.
E arrico-me eu a terminar a sessão todo cagado.
Mais um assunto sobre o qual nunca pedi opinião e ajuda ao meu pai - assim fosse e talvez ele me explicasse o mistério do metrónomo e outros mais.
Posso dizer que tive uma infância e uma adolescência obstipadas. Não me vou estender sobre o assunto, vou sim confessar o que foi sempre o meu espanto pela regularidade metronómica do meu pai, transitando regularmente todas as manhãs antes de ir para o emprego, sem mais. Assim foi sempre, assim é ainda, embora agora sem emprego.
Viajemos até aos aconchegos dos dias de hoje. Acrescento um facto importante: a minha dieta actual é, com frequência, bem mais mediterrânica do que já foi. Tresanda a saudável por todos os poros. Não tenho culpa: assim me é servida. E, por um lado, até gosto. Isto dos lados mereceria outra explicação. Claro que tanta verdura tinha que ceder vez a alterações substanciais na tramitação intestinal do meu expediente, já que nem por isso o Sporting tem sido campeão mais vezes, alternativa possível para uma rima em verde, cor de que falamos.
Agora uma coisa confesso: não é esta tramitação hoje mais acelerada de que falo tranquilamente silenciosa e contumaz como a de meu pai era, é, será. Acredito que, por influências do escafandro, explico, de convívios estreitos com várias variações da síndrome do cólon irritável, alguma que outra urgência colónica me tenha surgido, sido induzida por estas vizinhanças. O trânsito acontece-me hoje em dia on a daily basis but regularity unknown, e com paroxismos que podem ocasionar eventual estorvo.Lá está, plasma-se a observação no observador que não no observado.
E arrico-me eu a terminar a sessão todo cagado.
Mais um assunto sobre o qual nunca pedi opinião e ajuda ao meu pai - assim fosse e talvez ele me explicasse o mistério do metrónomo e outros mais.
Carta (fora do baralho).
"Posso ajudar-te a que gostes menos de mim!"
Lembro esta coisa antiga para melhor pensar em ti. Esta frase foi inventada para mim, só pode ter sido. Há muitos anos senti-a como veneno. E porém hoje, levo-a em consideração. Dou os obrigados passos atrás, ganho a difícil distância. Não acedo ao extrarádio pela simples escusa de que não me sais da cabeça. E porém encontro-me sentado a teclar estes nadas, e tenho aqui a meu lado o programa deste espectáculo onde consta o mesmo de sempre, de um passámos para a eventualidade de um segundo número, com direito a volteio e ocasional pirueta, pode até acontecer no fim um agradecimento, uma ligeira vénia. Pois, a vénia. E sempre ali os mesmos livros em saldo entre a Cinq a Sec e o centro de fotocópias. Menos não será o sinal devido. Talvez o sinal devido seja o sinal mais, talvez.
E porém uma imagem em espelho assalta-me os dedos, que escrevem.
Convinha efectivamente que eu estivesse, passasse, decidisse gostar menos de ti. Para que a distância entre o consequente ao entusiasmo não ultrapasse em milhas o que efectivamente acontecerá, porque não houve espaço para mais.
I am The Man on the Moon! No sentido de que há mesmo muitas coisas que neste momento não sei como vão ser. O não domínio já era uma palavra de ordem noutros campos, eu sei. Aqui, é mais uma extensão do que sentido vai sendo.
So, wouldn't you Fly With Me to The Moon? Eu sei que assim apanho uma desajeitada boleia do teu gosto pelo cancioneiro norte-americano, mas.. é assim que eu vejo a coisa, The Moon would be the perfect place for us! And the stars!
Bem, passemos então a engendrar um plano B.
Lembro esta coisa antiga para melhor pensar em ti. Esta frase foi inventada para mim, só pode ter sido. Há muitos anos senti-a como veneno. E porém hoje, levo-a em consideração. Dou os obrigados passos atrás, ganho a difícil distância. Não acedo ao extrarádio pela simples escusa de que não me sais da cabeça. E porém encontro-me sentado a teclar estes nadas, e tenho aqui a meu lado o programa deste espectáculo onde consta o mesmo de sempre, de um passámos para a eventualidade de um segundo número, com direito a volteio e ocasional pirueta, pode até acontecer no fim um agradecimento, uma ligeira vénia. Pois, a vénia. E sempre ali os mesmos livros em saldo entre a Cinq a Sec e o centro de fotocópias. Menos não será o sinal devido. Talvez o sinal devido seja o sinal mais, talvez.
E porém uma imagem em espelho assalta-me os dedos, que escrevem.
Convinha efectivamente que eu estivesse, passasse, decidisse gostar menos de ti. Para que a distância entre o consequente ao entusiasmo não ultrapasse em milhas o que efectivamente acontecerá, porque não houve espaço para mais.
I am The Man on the Moon! No sentido de que há mesmo muitas coisas que neste momento não sei como vão ser. O não domínio já era uma palavra de ordem noutros campos, eu sei. Aqui, é mais uma extensão do que sentido vai sendo.
So, wouldn't you Fly With Me to The Moon? Eu sei que assim apanho uma desajeitada boleia do teu gosto pelo cancioneiro norte-americano, mas.. é assim que eu vejo a coisa, The Moon would be the perfect place for us! And the stars!
Bem, passemos então a engendrar um plano B.
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