As higienes, eis um tema que nos poderia levar a longas conversas, as higienes.
Andas devagar e com certezas, é porque sentes bem que em ti não há revolução.
Gestos mudas, mas por centímetros, decididos ao lavar os dentes, desfazer a cara da noite, refazer o cabelo. Que o tens fino e entristecido.
E poderias vir até mim num pequeno acelerar do passo, dar-me um empurrão, rir, ultrapassando o teu sorriso de todos estes dias, ponte sobre as higienes, as malditas higienes.
E chegamos ao fim do turno e no mesmo passo nos despedimos, o sorriso como um fio que apetece puxar.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Porto descendente
Era meio-dia e caminhava pela Praça da Batalha adiante. Via-se assim mesmo, era esta caminhada um exemplo da vida irregular que levava, dos perigos, dos enganos. Assim esta praça, irregular na forma e cada vez mais no conteúdo, Porto igual a Nápoles menos a organização.
E via-se a caminhar no meio dos legos que montava quando miúdo, e a maior caixa estava agora pintada de amarelo e era um teatro, nacional. E pensou-se como um tipo que fazia cenas. Um encenador. Que os havia muito importantes, nomes que circulavam nas praças públicas de aquém e além o dia-a-dia de uma pessoa normal, como ele. A pensar que fazia uma cena. Olhou à sua volta. Sabia ser a população circundante gente de impressão difícil, papel onde a tinta iria escorrer e perder-se ficando a a folha em branco. Isso, era esta gente uma resma de páginas em branco, por escrever. Só que um encenador não escreve nada. Reescreve. Muda. Recompõe. E repõe se bem sucedido. Um encenador é nada.
Ao fundo uma rua reconformada para avenida de acesso a uma nova ponte. A rua agora avenida descia bastante, já descia assim quando ainda era rua somente, era difícil não estugar o passo, uma opção seria rolar por ali abaixo mas a ponte impedia qualquer opção mais desperada que não o mergulho voluntário, pensado e ensimesmado. Outro encenador ali decidira.
E via-se a caminhar no meio dos legos que montava quando miúdo, e a maior caixa estava agora pintada de amarelo e era um teatro, nacional. E pensou-se como um tipo que fazia cenas. Um encenador. Que os havia muito importantes, nomes que circulavam nas praças públicas de aquém e além o dia-a-dia de uma pessoa normal, como ele. A pensar que fazia uma cena. Olhou à sua volta. Sabia ser a população circundante gente de impressão difícil, papel onde a tinta iria escorrer e perder-se ficando a a folha em branco. Isso, era esta gente uma resma de páginas em branco, por escrever. Só que um encenador não escreve nada. Reescreve. Muda. Recompõe. E repõe se bem sucedido. Um encenador é nada.
Ao fundo uma rua reconformada para avenida de acesso a uma nova ponte. A rua agora avenida descia bastante, já descia assim quando ainda era rua somente, era difícil não estugar o passo, uma opção seria rolar por ali abaixo mas a ponte impedia qualquer opção mais desperada que não o mergulho voluntário, pensado e ensimesmado. Outro encenador ali decidira.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
E não se sabe porquê acabou morto
Eis que afinal lhe aconteceu alguma coisa - vamos já aproveitar! Antes era muito saudável ,independente e tudo o resto mas agora... vejamos... Levanta-se? Anda? Pensa e bem pela cabeça que ainda é sua? Não interessa, algo no seu corpo, por fusível pequeno que tenha sido, perdeu o tino - temos que o prender, pôr-lhe um açaimo. E as coisas que lhe vamos oferecer são: um cateter venoso para que entrem por aí coisas várias sem ter que se preocupar com o que são; dois tubinhos no nariz para assegurar-lhe um oxigénio que, seguramente e por erro, achava que não o tinha em falta; e por último, a melhor das prendas, vai ser algaliado, porque - temos nós esta curiosidade - a sua diurese deve ser medida com muita atenção, coisa que em nós só se consegue através de um saco ao lado da cama. Ah, ainda não lhe disse? Eu sei que se consegue levantar e tudo o resto, mas o melhor, o mais correcto, o mais eficaz, é o senhor descansar numa cama, os próximos dois dias, se não se importar, e repare que tudo isto é no seu interesse, melhor para nós era não estar a fazer nada, olaré. Se insistir em levantar-se teremos que o amarrar, se decidir retirar algumas das coisas que a ciência obriga a acrescentar ao seu corpo e já mencionadas, seremos forçados a fazer-lhe umas "luvas de boxe" - ah, ah, ah! que piada, como se aqui houvesse uma luta, uma guerra, entre nós, caro amigo - para que não possa pegar em nada, puxar por nada, arrancar nada, enfim, não queremos que se magoe, percebe?
Pode enfim acontecer que ao dar uma volta na cama e como está impossibilitado de se agarrar a nada - caia ao chão e fracture uma clavícula ou o colo do úmero, ou faça uma hemorragia interna, daquelas que não se vê mas nos apaga a luz progressivamente, pode também acontecer que uma das nossas dedicadas funcionárias lhe enfie a comida pelo sítio errado, estamos a falar de esófago vs traqueia, coisas tão próximas e tão parecidas vidé o nome o GPS, aí tussa, tussa muito, vá lá, ajude-nos, senão pode acontecer a temida pneumonia de aspiração e também morre...
Pode enfim acontecer que ao dar uma volta na cama e como está impossibilitado de se agarrar a nada - caia ao chão e fracture uma clavícula ou o colo do úmero, ou faça uma hemorragia interna, daquelas que não se vê mas nos apaga a luz progressivamente, pode também acontecer que uma das nossas dedicadas funcionárias lhe enfie a comida pelo sítio errado, estamos a falar de esófago vs traqueia, coisas tão próximas e tão parecidas vidé o nome o GPS, aí tussa, tussa muito, vá lá, ajude-nos, senão pode acontecer a temida pneumonia de aspiração e também morre...
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
A lista das diferenças
Se calhar não vais acreditar mas pode ter sido os olhos, não sei, ou a boca, não sei, sabes, estamos a falar de um trio de atributos que em momentos quase desaparece na finura de um pensar, coisa de míopes talvez, ou de gente que busca coisas diferentes e lança um fino periscópio de dois olhos em fenda como nos comics, a boca cerrada pensando a palavra que não saiu para ser dita. Passaram muitos anos, apareceste tu e ficou tudo um pouco confuso, posso porém garantir-te que lembro-me bem de um dia espantado ter-me posto a fazer uma lista de diferenças e eram mais que os dedos das duas mãos e dos dois pés. E, claro, houve o encantamento, acho que foi para um lado e para o outro, como os sinos, o sobreviver a cada separação com mais e mais pó de magia, sabes, as separações foram mesmo muito importantes. E de pouco mais me lembro, só daquela lista que fiz, a das diferenças - e não falo de um desenho para preencher os tempos mortos, falo da descrição de alguém, ainda hoje, ontem - e amanhã será assim certamente, uma pequena viravolta dá-se e eu faço - check! - eis a diferença! E fico bem melhor. E aqui sabe-se que os sinos são uma escola, a escola dos sinos!
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Omeprazol(e)
Está velho. Está. Uma diferenciação de um verbo que explica. Não podes afirmar apenas o ser, há também esta questão do manejo mais difícil do espaço, dos gestos que tremem, da máscara que não esconde. E o tempo que passou. Lembras de raspão quando não lhe falavas. Não falavas. Foi a tua adolescência assim, dentro e zangado. E um corpo adiado. Com o teu pequeno mundo que era ainda e apenas duas outras pessoas. Tomavas partido por uma e depois, evolução natural, por ninguém. Aí deixaste de falar. Levou-te anos. Curiosa aquela porta do teu quarto, tinha um gatilho mas não chave. E no entanto parecia-te ser assim que a barreira melhor se estabelecia, a barragem contra os elementos, a criação do casulo dentro do qual refazias o dia tido e combinavas estratégias. Porta a que depois voltaste para pendurar as tuas palavras de ordem: FALAR!
Mas voltemos. Passaram muitos mais anos, aquela porta abriu-se e agora até ali dorme quem mais te quererá, reacção inversa de um útero à procura de quem saiu, já o quarto não é teu e sentes esse desconforto que é ao mesmo tempo uma perda e uma invasão. Mas ao lado dorme de quem falamos. O covil de quem nunca soube bem ser o animal que queria. Naqueles dias duros não sabia bem ser duro, menos porém sabia ser outra coisa. Digo eu que já passou tudo, já tudo foi cosido e enterrado como um saco de ossos. E que um telefonema por uma pequena queixa levanta logo o maior dos temores. Sei porém que ele vai aguentar mais algum tempo e também porque sabe o quanto ainda precisas dele. Demorou estes anos todos. Mas agora entendem-se como ninguém e, afinal, é como tu sempre disseste que devia ser: sem palavras.
Mas voltemos. Passaram muitos mais anos, aquela porta abriu-se e agora até ali dorme quem mais te quererá, reacção inversa de um útero à procura de quem saiu, já o quarto não é teu e sentes esse desconforto que é ao mesmo tempo uma perda e uma invasão. Mas ao lado dorme de quem falamos. O covil de quem nunca soube bem ser o animal que queria. Naqueles dias duros não sabia bem ser duro, menos porém sabia ser outra coisa. Digo eu que já passou tudo, já tudo foi cosido e enterrado como um saco de ossos. E que um telefonema por uma pequena queixa levanta logo o maior dos temores. Sei porém que ele vai aguentar mais algum tempo e também porque sabe o quanto ainda precisas dele. Demorou estes anos todos. Mas agora entendem-se como ninguém e, afinal, é como tu sempre disseste que devia ser: sem palavras.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
João Moutinho
Um amigo meu aos vinte e dois anos passou terrores por não conseguir perceber se punheta era pecado.
Agosto todos os anos.
Amanhã Agosto e tudo preparado. Era assim todos os anos. Fazer as malas, comprar bilhetes de avião para um destino muito turístico do outro lado do oceano, desaparecer. Já conversara com a sua mãe, nada de despedidas no aeroporto, detestava, a despedida era sempre à porta de casa, a casa de sempre que as duas partilhavam. O táxi depois partia, o carro Audi A4 ficava no emprego e era aí que o táxi afinal terminava a sua viagem, acabava sempre por dizer ao homem "mudei de ideias" e ele que sim, taxista não está feito para pensar ou se pensa não está provado que leve menos tiros. Chegada ao seu A4, logo o ritual da mudança das malas e o esmagar do telemóvel, fazía-o com autêntico prazer, primeiro atirava-o contra uma parede duas, três vezes, depois o bendito uso do tacão permitia uma destruição completa. Despedia-se então do tacão durante um mês, agradecendo-lhe os serviços prestados. Telefonaria todas as noites, oficialmente de Aruba ou parecido, na realidade de Fisterra de Galiza onde alugava casa todos os verões há doze anos, ninguém sabia. O anonimato perfeito. Na volta oferecia-se um telemóvel novo, executava à perfeição o número da parva que tinha perdido o dito, ora desculpem todos, e logo eu que trabalho numa seguradora.
Um mês por ano era completamente feliz.
Um mês por ano era completamente feliz.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
SMS
"Bom fds!" Era esta a mensagem recebida, apenas estranhei o cedo da mesma eram as dez da manhã. O diálogo apenas começado uns sms antes estava aqui a chegar a um abrupto fim, os travões a chiar, o fim de uma linha que antes se julgara ainda ter alguns apeadeiros a cumprir.
Bom, às vezes as viagens são assim, quanto mais as imaginárias, julga-se que vai ser o transiberiano e sai o comboio para Perlinhas, o melhor será responder! E respondido foi.
Nunca mais ouviu falar da moça, e só alguns dias depois percebeu o acontecido, revisto o sms da resposta: "Boas fds!"
Bom, às vezes as viagens são assim, quanto mais as imaginárias, julga-se que vai ser o transiberiano e sai o comboio para Perlinhas, o melhor será responder! E respondido foi.
Nunca mais ouviu falar da moça, e só alguns dias depois percebeu o acontecido, revisto o sms da resposta: "Boas fds!"
quarta-feira, 16 de julho de 2008
"Estou no Pombal..."
Ligas-me de quatro em quatro meses a perguntar, a contar como vão as coisas, na tua voz discreta, insegura e para mim simpática, combinas sempre "para amanhã", "para a semana", "nestes quinze dias" um café, um almoço, uma visita, escusado será dizer que nunca nada acontece, isto é quase como o sexo que sempre esperamos resolva os problemas mas trinta minutos depois se não adormecemos eles voltam, ligaste-me e foi bom e um telefonema teu é sempre uma mudança no meu dia, como os tais trinta minutos pelo menos, ora digo-te - podias mesmo aparecer, podias mesmo vir e tomar um café comigo amanhã ou melhor, na quarta-feira que combinámos, se aparecesses seria um sinal, tu sabes, pois é assim que pessoas como nós guiam a sua vida, por sinais, pelas estrelas que há no céu, jogando no improvável e acumulando azares e ilusões e explosões de artifício, a tua vinda podia bem ser um indício, uma pista para eu uma dessas noites arriscar quem sabe um segundo round, portanto, aparece!
30
Lembro-me bem, foi há para aí trinta anos ou mais, foi no liceu e havia uma representação de um teatro, que novidade se o teatro sempre foi a minha segunda casa, era a meio da tarde antes de umas aulas e estavam à minha espera e eu esqueci-me, foi há mais de trinta anos mas parece-me que hoje ainda andas por este mundo a cobrar-me o eu não ter aparecido naquele dia, à hora marcada, para fazer teatro contigo.
Obrigado uma vez mais
Fazias o teu trabalho e eu o meu, foi aliás sempre assim. E reportavas a nossa conversa a um só ano, o ano que foi o nosso. E falavas da demais gente que por lá andou, figurantes de luxo que por quase nada preencheram aquele nosso ano, um enorme e jubiloso palco de festas. Lembro-me ter-te escrito uma carta e que foi de amor e de despedida. Fazias o teu trabalho e eu o meu mas continuavas a rir com as minhas palavras, o vício da brincadeira sempre sempre a quebrar nas fossas nasais, entre nós o objecto do trabalho donde nada passou pelo olfacto nestes que foram vinte, trinta minutos, tu cumpriste, eu cumpri, podem pensar que não mas eu cumpri, e no fim fiquei agradecido pelo riso, era de dia e fazia sol mas fez-se ali mais luz ainda, saí eu primeiro e tu sabes bem porquê.
terça-feira, 17 de junho de 2008
As Cassettes Roadstar
Era um segredo dos mais delicados: eu não tinha uma aparelhagem stereo para ouvir música. Gravava e gravava cassettes mono com um aparelho esquisito onde os discos dificilmente se equilibravam, o negro rebordo a ultrapassar largamente o rectângulo do aparelho. Parecia sixties mas não era sixties: era coisa de pobre.
Não havia remédio e portanto eu gravava e gravava as minhas cassettes de música mono, que depois ouvia e reouvia, adquirindo os sons que seriam depois, muito depois, as referências, a memória. Lembro-me por exemplo quando na Renascença, na Meia de Rock o Jorge Pego passou por primeira vez o “novo single dos UHF”, Rua do Carmo. E lá fui no dia seguinte para o liceu avisar os meus amigos, “e que tal?”, perguntaram eles, “é parecido com o anterior”. Era. Mas também gravei os Piqbag, os Rip, Rig & Panic, os A Certain Ratio. Lembro-me de ouvir e reouvir o “Athmosphere” dos Joy Division. Demorou dez anos até o primeiro som stereo ser só meu, já no tempo ods CD's. Na mesma o mais ouvido era porém uma cassette mas agora de Prince, o “1999”, gravada para mim com dedicatória por um amigo de passagem, já morreu ele e a cassette tornou-se inaudível.
Nunca nada substituirá o prazer táctil de manipular uma cassette: a gravação - que podia ser completa ou tema-a-tema, o rebobinar com lápis depois de um acidente, o apontar manual das canções, dos autores, o comprar meia dúzia dumas Roadstar de 90’ ali na Rádio Popular da Rua do Loureiro porque P., que era quem mais sabia, dizia terem o melhor som, e que baratas elas eram.
Gravar uma cassette para alguém foi um dos gestos de amizade que definiram aqueles tempos.
Não havia remédio e portanto eu gravava e gravava as minhas cassettes de música mono, que depois ouvia e reouvia, adquirindo os sons que seriam depois, muito depois, as referências, a memória. Lembro-me por exemplo quando na Renascença, na Meia de Rock o Jorge Pego passou por primeira vez o “novo single dos UHF”, Rua do Carmo. E lá fui no dia seguinte para o liceu avisar os meus amigos, “e que tal?”, perguntaram eles, “é parecido com o anterior”. Era. Mas também gravei os Piqbag, os Rip, Rig & Panic, os A Certain Ratio. Lembro-me de ouvir e reouvir o “Athmosphere” dos Joy Division. Demorou dez anos até o primeiro som stereo ser só meu, já no tempo ods CD's. Na mesma o mais ouvido era porém uma cassette mas agora de Prince, o “1999”, gravada para mim com dedicatória por um amigo de passagem, já morreu ele e a cassette tornou-se inaudível.
Nunca nada substituirá o prazer táctil de manipular uma cassette: a gravação - que podia ser completa ou tema-a-tema, o rebobinar com lápis depois de um acidente, o apontar manual das canções, dos autores, o comprar meia dúzia dumas Roadstar de 90’ ali na Rádio Popular da Rua do Loureiro porque P., que era quem mais sabia, dizia terem o melhor som, e que baratas elas eram.
Gravar uma cassette para alguém foi um dos gestos de amizade que definiram aqueles tempos.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
o Pequeno Panda

Do silêncio posso dizer que gosto. Passeio nele como quero. Passeio não: paro. Sento-me. Vivo sentado ou deitado e não mais. O esforço físico não é mais do que o que está dito: um esforço. Esforço-me o possível para não o praticar.
Agradeço estes tempos silenciosos a uma feliz conjugação de factores. Horários, depressões teatralizadas, you name it. Ainda bem. Lembro-me claramente dos antecedentes. Tinha um calendário pendurado numa porta onde os dias eram julgados bons ou maus, sendo os bons aqueles em que “conseguia falar”. E do quê? O assunto era o menos importante, sempre um banco de neblina vinha descer sobre nós os dois – era eu então um douto namorado de B. – em qualquer vau de rio onde subitamente a folhagem limpava, sobrava a água o tempo e uma forma diferente de fazer tiquetaque - o que dizer, o que fazer, as mãos caídas ao longo do corpo (outra questão as mãos, imprecisas armas...). Dura aprendizagem pois começara do nada, do zero mais rasteiro, da ignorância mais retorta - depois no calendário o veredicto. Na mesma porta ao lado um cartaz: “Porta-te Bem! Coragem!”. Vai-te foder!
Sentimentos amplificados de desgosto levam-me hoje em dia a evitar toda a gente. Preferia ser invisível, completa e aturdidamente, e que esta floresta urbana que frequento me escondesse completamente, sendo a minha maior defesa contra tudo e contra todos. Como para aquele pequeno animal avermelhado comedor de bambu das florestas asiáticas de média altitude e que, dizem, está em perigo de extinção.
Agradeço estes tempos silenciosos a uma feliz conjugação de factores. Horários, depressões teatralizadas, you name it. Ainda bem. Lembro-me claramente dos antecedentes. Tinha um calendário pendurado numa porta onde os dias eram julgados bons ou maus, sendo os bons aqueles em que “conseguia falar”. E do quê? O assunto era o menos importante, sempre um banco de neblina vinha descer sobre nós os dois – era eu então um douto namorado de B. – em qualquer vau de rio onde subitamente a folhagem limpava, sobrava a água o tempo e uma forma diferente de fazer tiquetaque - o que dizer, o que fazer, as mãos caídas ao longo do corpo (outra questão as mãos, imprecisas armas...). Dura aprendizagem pois começara do nada, do zero mais rasteiro, da ignorância mais retorta - depois no calendário o veredicto. Na mesma porta ao lado um cartaz: “Porta-te Bem! Coragem!”. Vai-te foder!
Sentimentos amplificados de desgosto levam-me hoje em dia a evitar toda a gente. Preferia ser invisível, completa e aturdidamente, e que esta floresta urbana que frequento me escondesse completamente, sendo a minha maior defesa contra tudo e contra todos. Como para aquele pequeno animal avermelhado comedor de bambu das florestas asiáticas de média altitude e que, dizem, está em perigo de extinção.
Fogo
Chegámos tarde a casa. É costume chegarmos tarde a casa. Sofremos a demora adicional de apanharmos o camião de recolha do lixo mas não nos importámos demasiado, algum lixo seria nosso. A iluminar a rua, a dominar os ruídos de um sábado de noite, o fogo-de-artifício. Subimos rapidamente e fomos para o terraço disfrutar das cascatas de cor desenhadas contra o escuro da noite. A beleza raramente acontece sem o sacrifício de alguma coisa ou de alguém. A beleza tem um preço dizem, e é certo.Todos os anos há um que outro morto por acidente pirotécnico na manufactura. Confesso que lembrar-me disso acrescentou algum prazer ao espectáculo.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Serviços
Rodeei em 270º a rotunda, tomei o sentido de nascente, por ali ía almoçar. Na rotunda estavam duas prostitutas esperando clientela. Uma sentada, a outra de pé. A de pé dedicava-se a penetrar com os dedos no emaranhado capilar de mechas da outra, supunha-se que para a exérese ou extinção de algo. Fui almoçar primeiro.
A mamada era para mim uma instituição e que eu programava mais ou menos quinzenalmente. Uma pessoa sózinha na vida tem destas necessidades e rotiná-las subtrai o stress da decisão: quando buscar o prazer. Estava na altura. Como contrato de prestação de serviços feminino parecia-me ser menos repugnante do que outros e por outro lado dos mais cómodos. Pedia um carro, uma estrada, e uma prostituta disponível na beira da estrada. Dois ou três amigos mais próximos já me tinham desavisado destes contactos perigosos e sujeitos a assalto, sequestro, carjacking, o diabo a quatro. Não sabendo fazer a estatística do número de serviços já havidos nunca tivera um precalço que não o menos saber de alguma das senhoras em questão, alguma rudeza no toque, ou descuido com o esmalte - dentário, pois não estava previsto que mordessem.
Encostei e fiz sinal à sentada, a distribuição das posturas ainda a mesma de antes do meu almoço. Estava não cheio e de cafezinho tomado, tinha tido o cuidado de não comer demasiado. Expliquei ao que vinha e a jovem entendeu logo e acertou-se o preço. O meu carro parou cem metros à frente e um pouco para dentro da mata. Do exterior ver-se-ia só a minha pessoa, em exercícios de circunspecção e relaxamento, as calças descidas. Mas hoje as coisas não estavam a correr mal, sendo que a prostituta pegara no pénis com decisão e sem escrúpulos de maior já lhe estava a dar guarida e aquartelamento, a glande incircuncisa a ser ritmicamente aberta e recebida. É por aqui que se fecham e abrem os olhos buscando realidades outras, desenhando sobre o tablier outros sítios e outras jornadas. As coisas estavam a correr bem, os testículos bem recolhidos por uma mão simpática que os massajava. Olhei para baixo, as mechas oxigenadas dançavam para mim ou por minha culpa minha tão grande culpa. Deixei de me segurar ao assento como sempre faço instintivamente e comecei a passar a mão por aquele cabelo estrangeiro, a separar as mechas, colhendo alguma coisa aqui e ali, esmagando entre unhas, recomeçando. Serviço pede serviço, pensei eu. “Calma”, disse-lhe, “senão ainda nos magoamos”. E prossegui. Foi um orgasmo fantástico. No fim ela riu-se.
A mamada era para mim uma instituição e que eu programava mais ou menos quinzenalmente. Uma pessoa sózinha na vida tem destas necessidades e rotiná-las subtrai o stress da decisão: quando buscar o prazer. Estava na altura. Como contrato de prestação de serviços feminino parecia-me ser menos repugnante do que outros e por outro lado dos mais cómodos. Pedia um carro, uma estrada, e uma prostituta disponível na beira da estrada. Dois ou três amigos mais próximos já me tinham desavisado destes contactos perigosos e sujeitos a assalto, sequestro, carjacking, o diabo a quatro. Não sabendo fazer a estatística do número de serviços já havidos nunca tivera um precalço que não o menos saber de alguma das senhoras em questão, alguma rudeza no toque, ou descuido com o esmalte - dentário, pois não estava previsto que mordessem.
Encostei e fiz sinal à sentada, a distribuição das posturas ainda a mesma de antes do meu almoço. Estava não cheio e de cafezinho tomado, tinha tido o cuidado de não comer demasiado. Expliquei ao que vinha e a jovem entendeu logo e acertou-se o preço. O meu carro parou cem metros à frente e um pouco para dentro da mata. Do exterior ver-se-ia só a minha pessoa, em exercícios de circunspecção e relaxamento, as calças descidas. Mas hoje as coisas não estavam a correr mal, sendo que a prostituta pegara no pénis com decisão e sem escrúpulos de maior já lhe estava a dar guarida e aquartelamento, a glande incircuncisa a ser ritmicamente aberta e recebida. É por aqui que se fecham e abrem os olhos buscando realidades outras, desenhando sobre o tablier outros sítios e outras jornadas. As coisas estavam a correr bem, os testículos bem recolhidos por uma mão simpática que os massajava. Olhei para baixo, as mechas oxigenadas dançavam para mim ou por minha culpa minha tão grande culpa. Deixei de me segurar ao assento como sempre faço instintivamente e comecei a passar a mão por aquele cabelo estrangeiro, a separar as mechas, colhendo alguma coisa aqui e ali, esmagando entre unhas, recomeçando. Serviço pede serviço, pensei eu. “Calma”, disse-lhe, “senão ainda nos magoamos”. E prossegui. Foi um orgasmo fantástico. No fim ela riu-se.
O miúdo que morava em S.Miguel
Um dia quase marquei um golo. Não havia então as classes de substituição, portanto mais consideração pelos alunos, acho, no secundário metade das coisas aprende-se nas aulas a outra metade nos “furos” entre, sistema comprovado e seguro, é a minha geração que hoje está no poder e vejam como ela/ele funciona.
E não marquei porquê? Era um jogo entre duas equipas de 2ªs escolhas, dois conjuntos daqueles jogadores que habitualmente só servem para artes menores, a defesa, a baliza. Alguns dos “craques”, desfazados por alguma assimetria de intervalos ou o que fosse, apareceram a meio e estavam a assistir. Num contra-ataque fulgurante da minha equipa um desses “craques”, o E., entra no meio do campo, tira-me a bola e chuta – ao lado! Desesperado – ia ser o meu primeiro golo de sempre! - dei-lhe um murro! Estive vai não vai para levar uma tareia. Anos depois, decidida a sua carreira militar, numa estação de comboios o E. confessava-me o seu hipospadias e as dificuldades que a ele devidas teve para entrar em determinado corpo especial de tropas. Pertencem-lhe das melhores histórias do meu liceu: por ex., acreditava piamente ter nascido com doze quilos, era o que a mãe lhe tinha dito; era também bastante franco sobre as suas “maisvalias” solitárias, tabu então como hoje, explicando depois todos os trabalhos que tinha para ocultar lençóis e roupa interior, com alguns detalhes gráficos de discutível gosto... Um amigo meu referia-se a tais trabalhos de uma forma bem mais poética: “dar fio à estrela”.
Nunca lhe perdoarei o golo que não marquei.
E não marquei porquê? Era um jogo entre duas equipas de 2ªs escolhas, dois conjuntos daqueles jogadores que habitualmente só servem para artes menores, a defesa, a baliza. Alguns dos “craques”, desfazados por alguma assimetria de intervalos ou o que fosse, apareceram a meio e estavam a assistir. Num contra-ataque fulgurante da minha equipa um desses “craques”, o E., entra no meio do campo, tira-me a bola e chuta – ao lado! Desesperado – ia ser o meu primeiro golo de sempre! - dei-lhe um murro! Estive vai não vai para levar uma tareia. Anos depois, decidida a sua carreira militar, numa estação de comboios o E. confessava-me o seu hipospadias e as dificuldades que a ele devidas teve para entrar em determinado corpo especial de tropas. Pertencem-lhe das melhores histórias do meu liceu: por ex., acreditava piamente ter nascido com doze quilos, era o que a mãe lhe tinha dito; era também bastante franco sobre as suas “maisvalias” solitárias, tabu então como hoje, explicando depois todos os trabalhos que tinha para ocultar lençóis e roupa interior, com alguns detalhes gráficos de discutível gosto... Um amigo meu referia-se a tais trabalhos de uma forma bem mais poética: “dar fio à estrela”.
Nunca lhe perdoarei o golo que não marquei.
sábado, 10 de maio de 2008
Sobre o Carvalhido algumas palavras
Via-se o mar. Era afinal um prédio clandestino, sobranceiro a uma quinta própria destes terrenos de transição entre a malha urbana do Porto e as terras de saída para os campos da Maia – terras de Ramalde e Paranhos. Curioso, não me lembro de coisas de depois, do lugar de garagem por ex.
Lembro-me sim da porta do apartamento, a porta das longas despedidas, onde perdi vários comboios, desvio o discurso para referir que foi ali muito perto uns 50 metros que por uma única vez chamaram-me à atenção por ofensa ao decoro - já não tenho bem presente a ofensa. Naquela porta sim, perdeu-se variadíssimas vezes o decoro e a postura, eu pessoalmente portanto vários trnsportes, futebolisticamente hoje falariam do autocarro estacionado em frente da baliza porém haveria muita injustiça nesta avaliação, ele há gestos que com certeza terão acontecido, eu juraria, aliás tirei apontamentos, escrevi até uns versos (por falar nisso, onde estão os meus versos?), vou só desviar o discurso para uma manhã na casa e na cama da casa da prima solteira de F., nunca o desejo terá sido mais sincero, real, doloroso. E incapaz. Não decorei as falas que então usava, eis porque hoje me vejo reduzido a uma ausência pungente de todo e qualquer discurso lírico eficaz. Foi-se.
Era um prédio clandestino, ali depois acompanhei a construção da Via de Circulação Interna, primeira fase. Fora começava a acontecer o que dentro se desenhava – movimento, mudança, velocidade, uma noite houve em que o vizinho do lado tentou destruir uma fechadura entretanto mudada pela companheira de apartamento – alugado (só podia!), sem rebuço pelo barulho que fazia, nem chamava, apenas fazia o seu trabalho, à martelada, uma boa meia hora, num gesto pornográfico de substituição, nessa noite não consegui dormir.
Lembro-me sim da porta do apartamento, a porta das longas despedidas, onde perdi vários comboios, desvio o discurso para referir que foi ali muito perto uns 50 metros que por uma única vez chamaram-me à atenção por ofensa ao decoro - já não tenho bem presente a ofensa. Naquela porta sim, perdeu-se variadíssimas vezes o decoro e a postura, eu pessoalmente portanto vários trnsportes, futebolisticamente hoje falariam do autocarro estacionado em frente da baliza porém haveria muita injustiça nesta avaliação, ele há gestos que com certeza terão acontecido, eu juraria, aliás tirei apontamentos, escrevi até uns versos (por falar nisso, onde estão os meus versos?), vou só desviar o discurso para uma manhã na casa e na cama da casa da prima solteira de F., nunca o desejo terá sido mais sincero, real, doloroso. E incapaz. Não decorei as falas que então usava, eis porque hoje me vejo reduzido a uma ausência pungente de todo e qualquer discurso lírico eficaz. Foi-se.
Era um prédio clandestino, ali depois acompanhei a construção da Via de Circulação Interna, primeira fase. Fora começava a acontecer o que dentro se desenhava – movimento, mudança, velocidade, uma noite houve em que o vizinho do lado tentou destruir uma fechadura entretanto mudada pela companheira de apartamento – alugado (só podia!), sem rebuço pelo barulho que fazia, nem chamava, apenas fazia o seu trabalho, à martelada, uma boa meia hora, num gesto pornográfico de substituição, nessa noite não consegui dormir.
domingo, 27 de abril de 2008
D. Pedro V
O nome dado às ruas às vezes não tem sentido. A rua D. Pedro V faz a longa, dura e inclinada transição na cidade do Porto entre o rio e o plateau onde o grosso da cidade está. É uma rua que agora estreitaram mercê julgo das obras para a Cimeira IberoAmericana e tenho pena que o tenham feito. Massarelos em cima e em baixo. Hoje dizem que é uma zona romântica. Em 1993 ali aprendi a conduzir, numa sucessão de inversões de marcha e estacionamentos em plano inclinado que duraram toda uma aula. O instrutor, comprado ab initio ao ser avô de uma pequenina doente de G., lá terá decidido que andava a ser demasiado mole com o pupilo. Outra prova, mas repetida aula por aula, era a entrada na rotunda da Boavista, então ainda não semaforizada. No dia do exame prático foi dada a palavrinha ao sr. “Engenheiro” e a descida de Antunes Guimarães foi o preâmbulo de um passeio. No fim fomos conduzidos pela rua de Serralves, nome então ainda não tão importante no imaginário do Porto num Corsa D a cem à hora e com um dedo no volante, “porque estou atrasado” e “não façam isto que eu faço, hã?” Uma semana depois queimou-se nos mesmos dedos, já não me lembro como, justiça divina. Deve ter sabido a posteriori que me tinha separado de G. Tirada a carta, o resto conversa. Quinze anos depois e em homenagem a um tipo geneticamente puro ali do cruzamento da rua da Fábrica com a rua de Aviz também eu conduzo as mais das vezes com o mínimo contacto das mãos com o volante, um, dois, três dedos. A mão toda como ocasional concessão. Eu sei que é perigoso, não o somos todos?
Ah, a rua. Lembro ter sido o nosso rei Pedro um rapaz que morreu novo, ainda em projecto, e virgem. A proximidade do seminário de Vilar não ameniza a incoerência toponímica.
Ah, a rua. Lembro ter sido o nosso rei Pedro um rapaz que morreu novo, ainda em projecto, e virgem. A proximidade do seminário de Vilar não ameniza a incoerência toponímica.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
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