O nome dado às ruas às vezes não tem sentido. A rua D. Pedro V faz a longa, dura e inclinada transição na cidade do Porto entre o rio e o plateau onde o grosso da cidade está. É uma rua que agora estreitaram mercê julgo das obras para a Cimeira IberoAmericana e tenho pena que o tenham feito. Massarelos em cima e em baixo. Hoje dizem que é uma zona romântica. Em 1993 ali aprendi a conduzir, numa sucessão de inversões de marcha e estacionamentos em plano inclinado que duraram toda uma aula. O instrutor, comprado ab initio ao ser avô de uma pequenina doente de G., lá terá decidido que andava a ser demasiado mole com o pupilo. Outra prova, mas repetida aula por aula, era a entrada na rotunda da Boavista, então ainda não semaforizada. No dia do exame prático foi dada a palavrinha ao sr. “Engenheiro” e a descida de Antunes Guimarães foi o preâmbulo de um passeio. No fim fomos conduzidos pela rua de Serralves, nome então ainda não tão importante no imaginário do Porto num Corsa D a cem à hora e com um dedo no volante, “porque estou atrasado” e “não façam isto que eu faço, hã?” Uma semana depois queimou-se nos mesmos dedos, já não me lembro como, justiça divina. Deve ter sabido a posteriori que me tinha separado de G. Tirada a carta, o resto conversa. Quinze anos depois e em homenagem a um tipo geneticamente puro ali do cruzamento da rua da Fábrica com a rua de Aviz também eu conduzo as mais das vezes com o mínimo contacto das mãos com o volante, um, dois, três dedos. A mão toda como ocasional concessão. Eu sei que é perigoso, não o somos todos?
Ah, a rua. Lembro ter sido o nosso rei Pedro um rapaz que morreu novo, ainda em projecto, e virgem. A proximidade do seminário de Vilar não ameniza a incoerência toponímica.
domingo, 27 de abril de 2008
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