terça-feira, 17 de junho de 2008

As Cassettes Roadstar

Era um segredo dos mais delicados: eu não tinha uma aparelhagem stereo para ouvir música. Gravava e gravava cassettes mono com um aparelho esquisito onde os discos dificilmente se equilibravam, o negro rebordo a ultrapassar largamente o rectângulo do aparelho. Parecia sixties mas não era sixties: era coisa de pobre.
Não havia remédio e portanto eu gravava e gravava as minhas cassettes de música mono, que depois ouvia e reouvia, adquirindo os sons que seriam depois, muito depois, as referências, a memória. Lembro-me por exemplo quando na Renascença, na Meia de Rock o Jorge Pego passou por primeira vez o “novo single dos UHF”, Rua do Carmo. E lá fui no dia seguinte para o liceu avisar os meus amigos, “e que tal?”, perguntaram eles, “é parecido com o anterior”. Era. Mas também gravei os Piqbag, os Rip, Rig & Panic, os A Certain Ratio. Lembro-me de ouvir e reouvir o “Athmosphere” dos Joy Division. Demorou dez anos até o primeiro som stereo ser só meu, já no tempo ods CD's. Na mesma o mais ouvido era porém uma cassette mas agora de Prince, o “1999”, gravada para mim com dedicatória por um amigo de passagem, já morreu ele e a cassette tornou-se inaudível.
Nunca nada substituirá o prazer táctil de manipular uma cassette: a gravação - que podia ser completa ou tema-a-tema, o rebobinar com lápis depois de um acidente, o apontar manual das canções, dos autores, o comprar meia dúzia dumas Roadstar de 90’ ali na Rádio Popular da Rua do Loureiro porque P., que era quem mais sabia, dizia terem o melhor som, e que baratas elas eram.
Gravar uma cassette para alguém foi um dos gestos de amizade que definiram aqueles tempos.

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