quinta-feira, 31 de julho de 2008

João Moutinho

Um amigo meu aos vinte e dois anos passou terrores por não conseguir perceber se punheta era pecado.

Agosto todos os anos.

Amanhã Agosto e tudo preparado. Era assim todos os anos. Fazer as malas, comprar bilhetes de avião para um destino muito turístico do outro lado do oceano, desaparecer. Já conversara com a sua mãe, nada de despedidas no aeroporto, detestava, a despedida era sempre à porta de casa, a casa de sempre que as duas partilhavam. O táxi depois partia, o carro Audi A4 ficava no emprego e era aí que o táxi afinal terminava a sua viagem, acabava sempre por dizer ao homem "mudei de ideias" e ele que sim, taxista não está feito para pensar ou se pensa não está provado que leve menos tiros. Chegada ao seu A4, logo o ritual da mudança das malas e o esmagar do telemóvel, fazía-o com autêntico prazer, primeiro atirava-o contra uma parede duas, três vezes, depois o bendito uso do tacão permitia uma destruição completa. Despedia-se então do tacão durante um mês, agradecendo-lhe os serviços prestados. Telefonaria todas as noites, oficialmente de Aruba ou parecido, na realidade de Fisterra de Galiza onde alugava casa todos os verões há doze anos, ninguém sabia. O anonimato perfeito. Na volta oferecia-se um telemóvel novo, executava à perfeição o número da parva que tinha perdido o dito, ora desculpem todos, e logo eu que trabalho numa seguradora.
Um mês por ano era completamente feliz.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

SMS

"Bom fds!" Era esta a mensagem recebida, apenas estranhei o cedo da mesma eram as dez da manhã. O diálogo apenas começado uns sms antes estava aqui a chegar a um abrupto fim, os travões a chiar, o fim de uma linha que antes se julgara ainda ter alguns apeadeiros a cumprir.

Bom, às vezes as viagens são assim, quanto mais as imaginárias, julga-se que vai ser o transiberiano e sai o comboio para Perlinhas, o melhor será responder! E respondido foi.

Nunca mais ouviu falar da moça, e só alguns dias depois percebeu o acontecido, revisto o sms da resposta: "Boas fds!"

quarta-feira, 16 de julho de 2008

"Estou no Pombal..."

Ligas-me de quatro em quatro meses a perguntar, a contar como vão as coisas, na tua voz discreta, insegura e para mim simpática, combinas sempre "para amanhã", "para a semana", "nestes quinze dias" um café, um almoço, uma visita, escusado será dizer que nunca nada acontece, isto é quase como o sexo que sempre esperamos resolva os problemas mas trinta minutos depois se não adormecemos eles voltam, ligaste-me e foi bom e um telefonema teu é sempre uma mudança no meu dia, como os tais trinta minutos pelo menos, ora digo-te - podias mesmo aparecer, podias mesmo vir e tomar um café comigo amanhã ou melhor, na quarta-feira que combinámos, se aparecesses seria um sinal, tu sabes, pois é assim que pessoas como nós guiam a sua vida, por sinais, pelas estrelas que há no céu, jogando no improvável e acumulando azares e ilusões e explosões de artifício, a tua vinda podia bem ser um indício, uma pista para eu uma dessas noites arriscar quem sabe um segundo round, portanto, aparece!

30

Lembro-me bem, foi há para aí trinta anos ou mais, foi no liceu e havia uma representação de um teatro, que novidade se o teatro sempre foi a minha segunda casa, era a meio da tarde antes de umas aulas e estavam à minha espera e eu esqueci-me, foi há mais de trinta anos mas parece-me que hoje ainda andas por este mundo a cobrar-me o eu não ter aparecido naquele dia, à hora marcada, para fazer teatro contigo.

Obrigado uma vez mais

Fazias o teu trabalho e eu o meu, foi aliás sempre assim. E reportavas a nossa conversa a um só ano, o ano que foi o nosso. E falavas da demais gente que por lá andou, figurantes de luxo que por quase nada preencheram aquele nosso ano, um enorme e jubiloso palco de festas. Lembro-me ter-te escrito uma carta e que foi de amor e de despedida. Fazias o teu trabalho e eu o meu mas continuavas a rir com as minhas palavras, o vício da brincadeira sempre sempre a quebrar nas fossas nasais, entre nós o objecto do trabalho donde nada passou pelo olfacto nestes que foram vinte, trinta minutos, tu cumpriste, eu cumpri, podem pensar que não mas eu cumpri, e no fim fiquei agradecido pelo riso, era de dia e fazia sol mas fez-se ali mais luz ainda, saí eu primeiro e tu sabes bem porquê.