Está velho. Está. Uma diferenciação de um verbo que explica. Não podes afirmar apenas o ser, há também esta questão do manejo mais difícil do espaço, dos gestos que tremem, da máscara que não esconde. E o tempo que passou. Lembras de raspão quando não lhe falavas. Não falavas. Foi a tua adolescência assim, dentro e zangado. E um corpo adiado. Com o teu pequeno mundo que era ainda e apenas duas outras pessoas. Tomavas partido por uma e depois, evolução natural, por ninguém. Aí deixaste de falar. Levou-te anos. Curiosa aquela porta do teu quarto, tinha um gatilho mas não chave. E no entanto parecia-te ser assim que a barreira melhor se estabelecia, a barragem contra os elementos, a criação do casulo dentro do qual refazias o dia tido e combinavas estratégias. Porta a que depois voltaste para pendurar as tuas palavras de ordem: FALAR!
Mas voltemos. Passaram muitos mais anos, aquela porta abriu-se e agora até ali dorme quem mais te quererá, reacção inversa de um útero à procura de quem saiu, já o quarto não é teu e sentes esse desconforto que é ao mesmo tempo uma perda e uma invasão. Mas ao lado dorme de quem falamos. O covil de quem nunca soube bem ser o animal que queria. Naqueles dias duros não sabia bem ser duro, menos porém sabia ser outra coisa. Digo eu que já passou tudo, já tudo foi cosido e enterrado como um saco de ossos. E que um telefonema por uma pequena queixa levanta logo o maior dos temores. Sei porém que ele vai aguentar mais algum tempo e também porque sabe o quanto ainda precisas dele. Demorou estes anos todos. Mas agora entendem-se como ninguém e, afinal, é como tu sempre disseste que devia ser: sem palavras.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
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