quarta-feira, 21 de maio de 2008

Serviços

Rodeei em 270º a rotunda, tomei o sentido de nascente, por ali ía almoçar. Na rotunda estavam duas prostitutas esperando clientela. Uma sentada, a outra de pé. A de pé dedicava-se a penetrar com os dedos no emaranhado capilar de mechas da outra, supunha-se que para a exérese ou extinção de algo. Fui almoçar primeiro.
A mamada era para mim uma instituição e que eu programava mais ou menos quinzenalmente. Uma pessoa sózinha na vida tem destas necessidades e rotiná-las subtrai o stress da decisão: quando buscar o prazer. Estava na altura. Como contrato de prestação de serviços feminino parecia-me ser menos repugnante do que outros e por outro lado dos mais cómodos. Pedia um carro, uma estrada, e uma prostituta disponível na beira da estrada. Dois ou três amigos mais próximos já me tinham desavisado destes contactos perigosos e sujeitos a assalto, sequestro, carjacking, o diabo a quatro. Não sabendo fazer a estatística do número de serviços já havidos nunca tivera um precalço que não o menos saber de alguma das senhoras em questão, alguma rudeza no toque, ou descuido com o esmalte - dentário, pois não estava previsto que mordessem.
Encostei e fiz sinal à sentada, a distribuição das posturas ainda a mesma de antes do meu almoço. Estava não cheio e de cafezinho tomado, tinha tido o cuidado de não comer demasiado. Expliquei ao que vinha e a jovem entendeu logo e acertou-se o preço. O meu carro parou cem metros à frente e um pouco para dentro da mata. Do exterior ver-se-ia só a minha pessoa, em exercícios de circunspecção e relaxamento, as calças descidas. Mas hoje as coisas não estavam a correr mal, sendo que a prostituta pegara no pénis com decisão e sem escrúpulos de maior já lhe estava a dar guarida e aquartelamento, a glande incircuncisa a ser ritmicamente aberta e recebida. É por aqui que se fecham e abrem os olhos buscando realidades outras, desenhando sobre o tablier outros sítios e outras jornadas. As coisas estavam a correr bem, os testículos bem recolhidos por uma mão simpática que os massajava. Olhei para baixo, as mechas oxigenadas dançavam para mim ou por minha culpa minha tão grande culpa. Deixei de me segurar ao assento como sempre faço instintivamente e comecei a passar a mão por aquele cabelo estrangeiro, a separar as mechas, colhendo alguma coisa aqui e ali, esmagando entre unhas, recomeçando. Serviço pede serviço, pensei eu. “Calma”, disse-lhe, “senão ainda nos magoamos”. E prossegui. Foi um orgasmo fantástico. No fim ela riu-se.

O miúdo que morava em S.Miguel

Um dia quase marquei um golo. Não havia então as classes de substituição, portanto mais consideração pelos alunos, acho, no secundário metade das coisas aprende-se nas aulas a outra metade nos “furos” entre, sistema comprovado e seguro, é a minha geração que hoje está no poder e vejam como ela/ele funciona.
E não marquei porquê? Era um jogo entre duas equipas de 2ªs escolhas, dois conjuntos daqueles jogadores que habitualmente só servem para artes menores, a defesa, a baliza. Alguns dos “craques”, desfazados por alguma assimetria de intervalos ou o que fosse, apareceram a meio e estavam a assistir. Num contra-ataque fulgurante da minha equipa um desses “craques”, o E., entra no meio do campo, tira-me a bola e chuta – ao lado! Desesperado – ia ser o meu primeiro golo de sempre! - dei-lhe um murro! Estive vai não vai para levar uma tareia. Anos depois, decidida a sua carreira militar, numa estação de comboios o E. confessava-me o seu hipospadias e as dificuldades que a ele devidas teve para entrar em determinado corpo especial de tropas. Pertencem-lhe das melhores histórias do meu liceu: por ex., acreditava piamente ter nascido com doze quilos, era o que a mãe lhe tinha dito; era também bastante franco sobre as suas “maisvalias” solitárias, tabu então como hoje, explicando depois todos os trabalhos que tinha para ocultar lençóis e roupa interior, com alguns detalhes gráficos de discutível gosto... Um amigo meu referia-se a tais trabalhos de uma forma bem mais poética: “dar fio à estrela”.
Nunca lhe perdoarei o golo que não marquei.

sábado, 10 de maio de 2008

Sobre o Carvalhido algumas palavras

Via-se o mar. Era afinal um prédio clandestino, sobranceiro a uma quinta própria destes terrenos de transição entre a malha urbana do Porto e as terras de saída para os campos da Maia – terras de Ramalde e Paranhos. Curioso, não me lembro de coisas de depois, do lugar de garagem por ex.
Lembro-me sim da porta do apartamento, a porta das longas despedidas, onde perdi vários comboios, desvio o discurso para referir que foi ali muito perto uns 50 metros que por uma única vez chamaram-me à atenção por ofensa ao decoro - já não tenho bem presente a ofensa. Naquela porta sim, perdeu-se variadíssimas vezes o decoro e a postura, eu pessoalmente portanto vários trnsportes, futebolisticamente hoje falariam do autocarro estacionado em frente da baliza porém haveria muita injustiça nesta avaliação, ele há gestos que com certeza terão acontecido, eu juraria, aliás tirei apontamentos, escrevi até uns versos (por falar nisso, onde estão os meus versos?), vou só desviar o discurso para uma manhã na casa e na cama da casa da prima solteira de F., nunca o desejo terá sido mais sincero, real, doloroso. E incapaz. Não decorei as falas que então usava, eis porque hoje me vejo reduzido a uma ausência pungente de todo e qualquer discurso lírico eficaz. Foi-se.
Era um prédio clandestino, ali depois acompanhei a construção da Via de Circulação Interna, primeira fase. Fora começava a acontecer o que dentro se desenhava – movimento, mudança, velocidade, uma noite houve em que o vizinho do lado tentou destruir uma fechadura entretanto mudada pela companheira de apartamento – alugado (só podia!), sem rebuço pelo barulho que fazia, nem chamava, apenas fazia o seu trabalho, à martelada, uma boa meia hora, num gesto pornográfico de substituição, nessa noite não consegui dormir.