Eis que afinal lhe aconteceu alguma coisa - vamos já aproveitar! Antes era muito saudável ,independente e tudo o resto mas agora... vejamos... Levanta-se? Anda? Pensa e bem pela cabeça que ainda é sua? Não interessa, algo no seu corpo, por fusível pequeno que tenha sido, perdeu o tino - temos que o prender, pôr-lhe um açaimo. E as coisas que lhe vamos oferecer são: um cateter venoso para que entrem por aí coisas várias sem ter que se preocupar com o que são; dois tubinhos no nariz para assegurar-lhe um oxigénio que, seguramente e por erro, achava que não o tinha em falta; e por último, a melhor das prendas, vai ser algaliado, porque - temos nós esta curiosidade - a sua diurese deve ser medida com muita atenção, coisa que em nós só se consegue através de um saco ao lado da cama. Ah, ainda não lhe disse? Eu sei que se consegue levantar e tudo o resto, mas o melhor, o mais correcto, o mais eficaz, é o senhor descansar numa cama, os próximos dois dias, se não se importar, e repare que tudo isto é no seu interesse, melhor para nós era não estar a fazer nada, olaré. Se insistir em levantar-se teremos que o amarrar, se decidir retirar algumas das coisas que a ciência obriga a acrescentar ao seu corpo e já mencionadas, seremos forçados a fazer-lhe umas "luvas de boxe" - ah, ah, ah! que piada, como se aqui houvesse uma luta, uma guerra, entre nós, caro amigo - para que não possa pegar em nada, puxar por nada, arrancar nada, enfim, não queremos que se magoe, percebe?
Pode enfim acontecer que ao dar uma volta na cama e como está impossibilitado de se agarrar a nada - caia ao chão e fracture uma clavícula ou o colo do úmero, ou faça uma hemorragia interna, daquelas que não se vê mas nos apaga a luz progressivamente, pode também acontecer que uma das nossas dedicadas funcionárias lhe enfie a comida pelo sítio errado, estamos a falar de esófago vs traqueia, coisas tão próximas e tão parecidas vidé o nome o GPS, aí tussa, tussa muito, vá lá, ajude-nos, senão pode acontecer a temida pneumonia de aspiração e também morre...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
A lista das diferenças
Se calhar não vais acreditar mas pode ter sido os olhos, não sei, ou a boca, não sei, sabes, estamos a falar de um trio de atributos que em momentos quase desaparece na finura de um pensar, coisa de míopes talvez, ou de gente que busca coisas diferentes e lança um fino periscópio de dois olhos em fenda como nos comics, a boca cerrada pensando a palavra que não saiu para ser dita. Passaram muitos anos, apareceste tu e ficou tudo um pouco confuso, posso porém garantir-te que lembro-me bem de um dia espantado ter-me posto a fazer uma lista de diferenças e eram mais que os dedos das duas mãos e dos dois pés. E, claro, houve o encantamento, acho que foi para um lado e para o outro, como os sinos, o sobreviver a cada separação com mais e mais pó de magia, sabes, as separações foram mesmo muito importantes. E de pouco mais me lembro, só daquela lista que fiz, a das diferenças - e não falo de um desenho para preencher os tempos mortos, falo da descrição de alguém, ainda hoje, ontem - e amanhã será assim certamente, uma pequena viravolta dá-se e eu faço - check! - eis a diferença! E fico bem melhor. E aqui sabe-se que os sinos são uma escola, a escola dos sinos!
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Omeprazol(e)
Está velho. Está. Uma diferenciação de um verbo que explica. Não podes afirmar apenas o ser, há também esta questão do manejo mais difícil do espaço, dos gestos que tremem, da máscara que não esconde. E o tempo que passou. Lembras de raspão quando não lhe falavas. Não falavas. Foi a tua adolescência assim, dentro e zangado. E um corpo adiado. Com o teu pequeno mundo que era ainda e apenas duas outras pessoas. Tomavas partido por uma e depois, evolução natural, por ninguém. Aí deixaste de falar. Levou-te anos. Curiosa aquela porta do teu quarto, tinha um gatilho mas não chave. E no entanto parecia-te ser assim que a barreira melhor se estabelecia, a barragem contra os elementos, a criação do casulo dentro do qual refazias o dia tido e combinavas estratégias. Porta a que depois voltaste para pendurar as tuas palavras de ordem: FALAR!
Mas voltemos. Passaram muitos mais anos, aquela porta abriu-se e agora até ali dorme quem mais te quererá, reacção inversa de um útero à procura de quem saiu, já o quarto não é teu e sentes esse desconforto que é ao mesmo tempo uma perda e uma invasão. Mas ao lado dorme de quem falamos. O covil de quem nunca soube bem ser o animal que queria. Naqueles dias duros não sabia bem ser duro, menos porém sabia ser outra coisa. Digo eu que já passou tudo, já tudo foi cosido e enterrado como um saco de ossos. E que um telefonema por uma pequena queixa levanta logo o maior dos temores. Sei porém que ele vai aguentar mais algum tempo e também porque sabe o quanto ainda precisas dele. Demorou estes anos todos. Mas agora entendem-se como ninguém e, afinal, é como tu sempre disseste que devia ser: sem palavras.
Mas voltemos. Passaram muitos mais anos, aquela porta abriu-se e agora até ali dorme quem mais te quererá, reacção inversa de um útero à procura de quem saiu, já o quarto não é teu e sentes esse desconforto que é ao mesmo tempo uma perda e uma invasão. Mas ao lado dorme de quem falamos. O covil de quem nunca soube bem ser o animal que queria. Naqueles dias duros não sabia bem ser duro, menos porém sabia ser outra coisa. Digo eu que já passou tudo, já tudo foi cosido e enterrado como um saco de ossos. E que um telefonema por uma pequena queixa levanta logo o maior dos temores. Sei porém que ele vai aguentar mais algum tempo e também porque sabe o quanto ainda precisas dele. Demorou estes anos todos. Mas agora entendem-se como ninguém e, afinal, é como tu sempre disseste que devia ser: sem palavras.
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