quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Yes? No?

Perhaps 2009 wasn't such a good idea, after all!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um, dois, três vestidos.

Um, dois, três vestidos. E uma dezena mais. Que assumimos foram adquiridos em talhas diversas e com conhecimento sentido das sabidas medidas de umas quantas raparigas. Ah, e há uns rapazes. Oh, como invejo estes rapazes. Pelo mero facto de serem enunciados ganham imediatamente qualidades clássicas, velocidade, precisão, documentos originais de acesso ao Olimpo. Os rapazes, essa espécie hoje pouco frequente, orientada pela luz e inactivada pelo escuro. De festejo fácil e generoso, com objectivos claros e de setenta e cinco watts para cima. Acessíveis por um interruptor, possuídos pelos melhores sentimentos, ainda o mais - extensíveis ao ano que vem. Porque ele vem aí, o ano que vem, e para ele os rapazes têm óbvia vantagem: partem primeiro.

Vitória por pontos.

Cruzo-me contigo e com essa tua julgo que assumida difícil gravidez. Sabemos: há risco nesta costa de berberes, há indefinição. O ano ainda não está ganho, se vencedor se apenas ano de empatas. Entras pela porta decidida apesar de tudo a fazer pender a balança. Pesadamente entras. Saúdo-te, e os pontos começam a contar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sabes, não sabes?

Sabes, sou apenas um pobre rapaz de um vila de província...

A collector's item!

A collector's item I'll be!

Cartas

Não sou animal de espera, não sei onde esconder-me, não sei esconder-me. Ou desaprendi. Sou desaprendiz de inúmeras coisas, como telhas de um telhado sob a acção de ventania, uma a uma cai e parte para nunca mais. E dizem conserta-se. Não será a mesma telha. Não sei esconder. Por exemplo as cartas deste jogo que temos jogado tu e eu estes últimos dias.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Jogo

Eu nem penso sequer que algum dia namores comigo. Meço e continuo a medir. E não passa. Meço e arremesso os braços para um lado e para o outro e não encontro o tempo para nos encontrarmos como soía! Não há! E já antes não havia, as paredes desta habitação bem chegadas umas às outras. Habitar, viver, habituar-se a. E não ser árbitro na questão que sempre se põe: onde começa e termina o jogo?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

É só às vezes.

Não todas. Não acontece em todas as situações. Mas em muitas. Viro-me para o meu lado esquerdo e falo contigo. Onde tu não estás. Não é sempre. Às vezes nem teria nenhum sentido. Noutras sim. Teria todo o sentido.

domingo, 6 de dezembro de 2009

NorteShopping, um encontro.

Não há como o NorteShopping para estes encontros e lá nos encontrámos. A novidade era a tua masculina companhia, que eu tentei o mais possível não encarar, avaliar, medir, sentar no relvado após uma má manobra de râguebi.
Reparei mais em ti portanto e notei que estás mais forte. Que o tempo passa. Que a violência do teu olhar se mantém. Que continuas a não saber andar. E no entanto… esse peso aqui e ali distribuído, só o poderei atribuir a uma pequena descida no grau de alerta e raiva em que sempre te vi viver, e o teu corpo contigo. Prendeste-me e eu desprendi-me. Sou se calhar hoje ainda vítima do teu esconjuro. Deixa estar. Tenho uma, duas fotografias tuas, sem par. Conheci-te menina, a dar pulos, conheci-te muito bem. Jogávamos às “vinganças” e delapidavamos pastilhas na via norte, o teu Corsa Sport a ditar a lei num oeste de aqui. And yes, we had great sex. And yes, we had loads of fun, my topless girl, dois pequenos mas cruciais seios. Conheci-te sem ódio.
Houve sim um momento em que me perdi. Perdemo-nos habitualmente quando as coisas para haver não estão escritas. Assim seria. Cerraste os dentes mas eu já não estava.
Milfontes, Montegordo. Deixa estar, não te esqueço.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

No que diz respeito a Milão

Lembro-me de eu e um amigo termos decidido não fazer o que os outros da excursão tinham decidido fazer - "tiro" certeiro a Veneza ou a Verona - e antes pelo contrário termos ficado para cheirar Milão em fim-de-semana. Caminhámos, caminhámos, descobrimos a igreja onde reza a "Ultima Ceia" de Leonardo fechada para restaurações, corremos a Pinacoteca Brera, subimos ao telhado das mil estátuas do Duomo, a catedral de Milão. E vimos as raparigas de Milão no fim-de-semana ser no geral vulgares, mal vestidas, feias. Numa jogada de antecipação em relação a humoristas da nossa actualidade dissemos: "Parecem de Ermesinde!...", e assumimos que o subúrbio enchia Milão enquanto a "nata" eventualmente subia aos lagos, ou algo parecido. Éramos novos, divertimo-nos imenso. Seguiamos então pela vida gloriosamente sem GPS, que aliás ainda não tinha sido inventado. Milão não é feia, pois é Itália. Que saudades, meu Deus!
Na sexta-feira anterior tinhamos jantado com uns tipos que depois descobrimos serem brasileiros, após quinze minutos de um inglês esforçado - deles um paulista superior, de camarote! Lembras-te?
O mundo ia ser nosso. E o mundo ainda será teu, meu amigo que comigo em Milão estiveste. A euforia era então transitoriamente mais minha, tu sabes bem do que falo.
Como se costuma dizer, ficou a amizade, que não é puta, que é como um atestado.

Do Comboio à Noite

E pensava: não há dúvida, o caminho está todo armadilhado, vê lá tu, há quinze dias eras para ficar até mais tarde, o miúdo teve febre, amanhã o aniversário adiado e tens a mulher doente, não duvides, o caminho está tomado e arranjado, não vais conseguir nem querendo sair dos trilhos, meu amigo, descarrilar não será para ti. Estão todos ao telemóvel combinando, trocando referências, repensando estratégias, percursos, sedativos...
E lembrava-se duma noite em que de comboio voltava para casa e efectivamente tinha descarrilado, um descarrilar ligeiro, nada de feridos, apenas um pequeno susto na penumbra da noite terminal, um sacudir, um chiar, um estremeção e umas diagonais até à imobilização final, três quilómetros a pé até a estação e depois mais um até casa, este já era o definido.
Sim, ok, está lembrado, mas um pequeno descarrilar não será ainda possível, se já aconteceu porque não acontecer outra vez?
E teimoso abanava a cabeça, e insistia em blindar as ideias ao abandono do mais estranho dos planos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Still

Still counting the days...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Rua do Ouro

Estás mais magra e desconheço a razão, a grande razão que te trouxe de volta. Premonitoriamente reencontrei-te agrupada e à sombra de aquela como que irmã mais velha que tu e eu sabemos existir na que já foi a nossa vida. Que existiu e depois morreu portanto, teu o corte e - peço não me desdigas - meu o virar as costas, fazer deslizar o corpo, reabrir o rio, despedir os acompanhantes, executar a derradeira música. Estás mais magra e continuas a rir como antecipando o antigo pedido que raramente era dado, sorrir. Sendo mais fácil o riso, o alto tom descosido. Era sempre triste o teu sorriso. Um V muito aberto e a descer, o olhar quase fechado, filipino. Já te tinha eu lembrado várias vezes este ano, podes descansar porque foi só mais uma, mais viva porque contigo presente. Não me pediste um beijo. Há quinze anos que não me pedes um beijo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Duplo J.

J. está sentado num banco de jardim e chora, as lágrimas são esta linguagem universal que não se perde, desta ele lembra-se bem. Não sabe porquê as palavras outras desapareceram, ficaram baralhadas, confusas, como explicar, ensinar, proteger explicando, um homem de 67 anos, eu sei que… como se diz, como se diz, porra, caralho, depois no hospital será muito tido em conta, pois, fumador pesado, efectivamente, encontrado a chorar ao lado da esposa, quatro anos mais velha e dependente. Dizem que é Alzheimer, dizem que não, desde há um ano, dois, piorando dia-a-dia, esquecendo, deixando de fazer, com medo, com trémulo, perguntando tudo, tudo, porque ela sabe bem que o seu cérebro está a morrer mais depressa que o resto do corpo, e agora, meu deus o que vou eu fazer com esta mulher. Tinham saído a passear depois do jantar, ele andava com dores de cabeça e a vista que falhava às vezes, só às vezes, vamos dar uma volta, era assim todas as noites e a vizinha reparou, sentados no banco em frente ele agarrado à cabeça e ela a abraçá-lo, tempo muito tempo, deixa-me ligar, não é normal. E agora ele assim! Chega uma ambulância.
O médico aproxima-se da esposa, foi-lhe dito, dela não vais saber nada, não diz coisa com coisa. Via-se que se sentia perdida, tinham-na trazido de um banco de jardim para outro banco, agora de espera no hospital, o seu marido lá dentro, ele não andava bem, e agora como vou eu fazer, eu que agora já não sei nada de nada, “pela sua saúde, senhor doutor”, “não - pela sua saúde e a do seu marido”, “obrigado, e pela sua também”, corrige, e sorri, olhos-de-água, ficou mais descansada, agora sabe que vem o filho buscá-la. O nome J. Agarrada a uma resma de cartões onde o seu bilhete de identidade, o médico viu, era bonita, uma cara até um pouco reguila, hoje não, é como se lhe tivesse nevado em cima um mês, acompanha em silêncio o marido até ao internamento, há lágrimas e lágrimas, estas são da melhor qualidade. O filho pergunta e agora, sou o único filho, vou ter que parar de trabalhar, tenho eu três filhos, o filho segurança mas nada prepara não havia rede para um dia assim, pai, o tabaquinho, não era? Pai, pai?
Dias depois sentada ela e o marido, este algo melhor, ela sem palavras que dizer, dois cérebros com bichos a roer lá dentro lado a lado, dois bichos mas diferentes, ele vai recuperar, ela à espera dele, uma vida.
O médico todos os dias a cumprimenta, com ele diz uma que outra parvoíce, um que outro termo técnico para balanço. O médico sabe que não se pode ter tudo, muito menos compreender uma coisa assim. O médico chega à sua hora e despede-se, dela também se por eles passa, abre, fecha a porta de saída e é logo engolido por um túnel escuro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Hoje

Se calhar era melhor deixar de contar os dias.

Disse.

E ela disse: "Porque tu não sabes o que perdes!" "Sim, eu sei, eu sei..." - disse. Não sabia eu o que ganhava.

domingo, 11 de outubro de 2009

Esquece.

Deixa-me explicar:
À esquerda a sopa, o iogurte
À direita.
Viajamos, empatamos.

Hoje será mais um daqueles
Pequenos dias, como discreta
É a luz que incide, pequena a
Mão que empurra.
Vê: é o Metro do Porto, lentamente
Entra pela terra dentro e
Desaparece.

Deixa-me explicar: disseste-me
Para arrumar as coisas -
Sopa, iogurte, o não ter destino.

Acção? Acção: pedir um céu mais acima,
Morder este ar que se aproxima,
Perder o meu sangue todo e enfim re-
Pousar.

Sabes, eu fico por aqui.

Noves fora quatro.

Era uma rapariga pequenina e azougada, e a primeira testemunha da minha nova vida. Estava eu em cima de não uma mas duas ondas, uma separação ultra-rápida, uma paixão avassaladora.
Convidei-a para almoçar, trouxe o namorado. Preocupado, inseguro, mais novo ele, sentia-me eu então nesses dias imensamente velho, incalculavelmente forte. Não interferi nem joguei contra ou a favor, a comida veio e foi embora, mas no meio de todas as certezas jogadas lembro ter a miúda dirigido as suas balas contra mim, e eram de borracha amiga: “ e achas que ela se vai separar? Eu vejo-a tão contente tal como está! Não sei não…” – sabia ela bem que tinha toda a razão deste mundo e do outro onde quem eu amava vivia, mundo impenetrável onde três anos da minha vida foram decididos, tornei-me entretanto perito em longboard, o que é uma forma de dizer - afoguei-me uma e outra vez, vi um filmes.

Noves fora cinco.

É a mentira então aquela forma que nós temos de conviver com a verdade. E a mentira primeira é a consideração tida de que em todos os momentos, cafés tomados, paragens de autocarro, a circulação dos gestos, das mãos, do pensamento incontido, será gerida por um mesmo gerador, virado a norte ou a sul mas se norte norte, mas se sul sul.
Neste ponto da viagem costumo contar a história duma amiga minha que durante uns meses manteve um platónico esquema com alguém também conhecido meu. Algum desvario e bastante cansaço depois foi a olhar para o mar ou equiparado que ela lhe terá dito que não podia separar-se – pois, era casada – o desgosto para os pais, a incerteza própria e uma incorrigível sensação de menos-valia, desculpa, desculpa, desculpa. Dois meses passados estava a moça saída de casa, telefonou e comunicou ao meu amigo a decisão tomada em Las Palmas com direito a avião mais cedo. Porém e consultados os partidos parlamentares ela acabou por ir viver com outro homem, e não vamos qualificar parametricamente porque este homem sim teve prémio, porque o meu amigo não , caso este pelo mundo conhecido e comentado, afinal não há desvario que não traga desvario maior em cima. Mais um ano e eis a minha amiga recasada com o primeiro evento, o marido índice, e grávida. Tem dois filhos, pararam ali as placas tectónicas de mexer, para nunca mais, eu sei, já lá dizia Vinicius de Moraes.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

3ª homenagem a Inês Pedrosa

Morava eu portanto em vila de médio sapato, a distância não grande da muy nobre, leal e invicta. Tinha fama de centro importante de tráfico de droga no Norte, a par de Vila Nova de Gaia. Tínhamos um certo orgulho nisso, até porque, bem avisados, só lá ia quem queria – não tive nenhum amigo próximo com problemas graves de toxicodependência, conhecidos sim, vários, malta da Primária e de “baixa extracção”, amigos antigos que sempre saudei pelas ruas, não faziam mal a uma mosca. De outros soube depois. No 9º ano, por ex., adquirimos alguns rapazes para a turma, repetentes, que metiam umas pastilhas e fumariam umas ganzas, uma vez tivemos que pôr um debaixo do chuveiro para acordar, nada de especial. Eram repetentes e assim para trás ficaram, os que não repetiram foram simpaticamente absorvidos pelo pessoal como boa gente.
O café da malta, que eu como semi-malta, lembro, raramente frequentava, era o café de quem era quem na terra, entrava lá o meu pai por ex., não era sítio para complicações. Dali se saía para a praia, para os copos, para a noite, quando eles ou ela haviam. No fim de tudo apareceu uma discoteca, anos depois as discotecas dariam problemas na terrinha, os disparates do costume dentro e fora das instalações, nos meus tempos pelo que ouvia dizer nem por isso.
No 12º ainda ninguém tinha carro, entrou um tipo para o grupo que tinha uma Hi-Ace e assim fazia transportes “públicos” de muita gente para muito lado. Outros tinham umas “aceleras”. A maior parte tinha bicicleta e chegava, era o necessário para ir à praia no verão.
A viagem de finalistas era uma instituição e aí acontecia sobretudo muita bebida e mais nada, o grupo como efeito inibidor de uma trajectória de sedução que sempre implicaria um amansar da masculina fera. Na viagem de finalistas um amigo meu atirou-se à piscina às três da manhã e fez a clássica luxação da coluna cervical, esteve internado no Hospital, fomos visitá-lo pois uma amiga minha tinha uma irmã enfermeira. Anos depois com esse meu amigo faria um programa de rádio com música fixe onde nem sempre as horas eram certas nem os blocos de notícias ou publicitários saiam quando era preciso. Esqueceu-me o nome do programa.

sábado, 3 de outubro de 2009

2ª homenagem a Inês Pedrosa

Claro que uma que outra gravidez era sinal seguro de que por ali havia sexo. Calhava eu não aperceber-me dele.
Lembro-me dum irmão mais velho dum colega meu de turma seguir trilho com frequência com a irmã mais velha de uma minha colega de turma para as dunas da praia, não seriam então ainda oficialmente “divãs”. Dizia ela que iam “espremer os pontos negros”, não centro bem quem a quem, confusa matéria, era ela muito pequenina e ele um rapaz enorme como então ainda não havia muitos, conflito de materiais penso muitos anos depois, quer a minha filha espremer-me os pontos negros, fujo dela como o diabo da cruz. Volto à irmã mais velha da minha amiga para saudá-la pois foi a primeira pessoa a tratar-me pelo diminutivo que hoje ocasionalmente me define e anima. Sempre achei que podia eu ter tido ali uma palavra a dizer, terminou ela educadora de infância ou algo parecido, escolha das mais acertadas, a mim ensinou-me umas coisas.

1ª homenagem a Inês Pedrosa

Lembro-me de um dia em Setembro, fim de Setembro, voltar ao Liceu para saber das turmas, dos horários, essas merdas. E ter mudado a voz. Já não me lembro bem se isto aconteceu no início do 11º ou do 12º ano, pois eu mudei a voz muito tarde. Não era porém eu um rapaz invisível nesses difíceis tempos em que basicamente eu só era um catraio enquanto todos os meus amigos já eram rapazes de pêlo na cara e no baixo-ventre e progressivamente iam decidindo se consumir apenas SG filtro ou outras coisas ao fim-de-semana. Minto, que os havia certinhos e não consumiam nem uma coisa nem outra. Todos “dariam-fio-à-estrela”, eufemismo interessante da punheta, palavra que não há mais portuguesa, sobretudo debruada a bacalhau. Todos menos eu e não vou explicar porque. E porém eu não era um miúdo invisível e tenho especial carinho por esses meus amigos desses incríveis tempos em que amputado ia vivendo e ansiando por crescer, coisa que tardava em acontecer-se. Claro que não namorava, claro que raramente me aconteciam discotecas, saídas colectivas, etc. As idas à praia eram uma sub-humilhação, pois eu não sabia andar de bicicleta e ia então na carreira, terminando por encontrar os meus companheiros de praia no sítio do costume e bem me divertir com eles. Claro que como não sabia nadar o momento masculino do “ir-à-água” não funcionava para mim. E porém, repito-me, havia aquela coisa de ser o melhor aluno, de ter alguma piada e boa disposição, de não ser rafeiro e nem fazer mal a uma mosca. Ganhei ali grandes amigos, daqueles que ficaram para a vida. A invisibilidade existia sim para as moças, para elas eu não contava. Minto, contava nos exames, onde era massacrado para lhes resolver dúvidas e perguntas, in vivo e com graves riscos de castigo.

Lembro-me de ter então chegado ao Liceu e ter exercitado a preceito a minha voz. De ter comentado a turma – sempre a mesma com a mudança de esta ou aquela cabeça - cometer algum que outro desacato e, lembro-me perfeitamente de ter perseguido pela primeira vez uma miúda. A brincar, claro, e só foram duas voltinhas. A mesma miúda apareceu grávida um ano depois de um irmão de uma colega de turma, casaram, separaram-se anos depois a mal, muito mal, ela emigrou. Eu nunca tive nada a ver com isso, com ela digo, dediquei-lhe maus poemas, três, quatro, entretanto tinha-me apaixonado por outra moça que namorava firme com um rapaz mais velho que mal aparecia nas nossas aulas, durante uns largos meses achei que a coisa iria ceder, não cedeu, eles casaram, espero que a firmeza de então hoje os mantenha.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pode ser em Leça, depois não sei...

“Está bom?” Faltavam quinze minutos para as nove, o restaurante detinha pouca gente, e a um canto o dono e um grupo de amigos eram esta pouca gente. E nós, claro. “Olha, o amigalhaço do patrão já acendeu um cigarro. E isto não é a zona de não-fumadores?” “A mim não me incomoda. E por aqui não há crianças...” Era isso, o restaurante fazia-se estranho, perguntando-nos o que estávamos ali a fazer. Pergunta pertinente... “Não há crianças, vírgula...” “Não venhas tu agora revirgular a coisa!” “Jovem, corrigindo o escalão etário, ahnnn... virgular, revirgular?...” “Ah, pois, tu julgas que lá porque trabalho onde trabalho as palavras...” “Novas! Como as batatinhas...” – interrompi.
Não, circulávamos, era circular o nosso caminho, digo. Isto não ia dar a lado nenhum. “Mas está boa a comida?” Pois de comer se tratava, e afinal era meu objectivo inverter o verbo e permitir a colheita de algo que pressentia do outro lado urgente: demolição e prazer. Para os dois gestos ou chamem-lhe actos vinha a preparar-se há meses. Sentia que nunca tinha visto tanto, e porém que devastação! Percebia um plano, algo confuso, de desurbanização daquele corpo, gente, mulher fantásticamente perdida no tempo, mas não no espaço porque ali estava. Implodir primeiro, explodir depois.
“Depois onde vamos?” “Ter contigo onde tu quiseres...”

Custóias

Afinal, sabes, já é raro eu passar por Custóias cedo, quando a manhã nos acelera. Colocado a pregar em outra freguesia, será, em circuito urbano, domesticado.
Já nem posso acelerar como queria, e agora hoje que tinha eu esta razão nova.

Anjelica Huston, 1989.

Estavam sentados entre uma multidão mas não ouviam ninguém nem ninguém os parecia ouvir. As palavras eram disparadas por um lado, o outro vergando-se a evidências ocultas vindas à tona ali mesmo, uma carga de navio embrulhada em culpas geridas em meses que a guarda de fronteira pusera a descoberto: “Mariana, eu saio!” – nunca saíra de casa. “Afinal tu hoje à noite vais dormir com quem?” “Comigo próprio.” “Te foder, se ela te tocar, tu afastas a mãozinha, cabrão? Hã?” “Ó Nana, não digas assim, não fales assim...”. ”Falo como me apetece, caralho, falo como me apetece. Estou farta de encontrinhos à esquina, de juras e de enganos, de apalpares-me e tenho que ir embora, entendes? Tu entendes-me, João Carlos?” “Sim, claro que sim...” “A tua mãe preta! Para ti chega-te a escapadinha mensal, o turno enganadinho, a certeza de que tens coutada dupla. Enganaste-me mas não enganas mais! Tu não te vais separar nunca, nunca! Nem eu quero, nem eu deixo, percebes, oftalmologista de merda? A não ser que...” “Tu tem calma!” “Vamos fazer assim – vamos fazer assim, João Carlos – eu vou para o nosso apartamento e fico à tua espera. Tu vais lá ter e ficas, isto é – eu explico – dormes lá hoje comigo. Depois de manhã telefonas à tua mulher a dizer que mandas alguém ir buscar – o que tu quiseres.” “Mariana, não pode ser assim!” “Estás a ver estas chaves, estás? Eu vou para lá agora, meu sacana: e dentro de duas horas, bom três horas, se tu não tiveres chegado eu começo a atirar tudo para a rua. Começo nos quadros e acabo na cama. Lembra-te que é um quinto andar... Vão chamar a Polícia, deixa-os chamar, todos os vizinhos te conhecem, tu pensas que não mas sim, conhecem-te. Vem a Polícia e eu explico! Explico tudo!” Ela levantou-se, o ódio encarnado. As chaves o trunfo.
Era a hora dos lanches, o movimento na praça da alimentação tinha-se deslocado dos self-services para a órbita das cafetarias e pastelarias não esquecendo o McDonalds com os seus sundaes e mcflurrys. “Vou-me! Ai de ti! Oculista do caralho!” E foi-se. Ele não apareceu. Ela não atirou nada pela janela fora. A solução aconteceu dias depois e foi bem simples.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

IP

“Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.”

A Instrução dos Amantes

... é amarem-se!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

1,2,3,4,5.

Um, dois, três, quatro, cinco dias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Animal

Só dias depois me apercebo como falaste comigo. O filme que se empresta, o amigo interposto, a frase terminal “enquanto trabalharmos aqui os dois”, alguma mudança de itinerário. Eu, amigo do silêncio, não ouço os lentos maquinismos, as manobras de relojoaria, o lento elaborar do distrate. A minha amizade é afinal uma surdez profunda. Quererei ouvir? Caminhas sem deixar pegadas, mexendo as lentas peças do xadrez de quem sabe nunca terá outra opção que não tombar o rei ao nem ser rainha. Ou parar de jogar sem mais.
Todas estas manhãs a tua solidão atrapalha-me. Também por me saber não animal de companhia.

1,2,3.

Outra vez um, dois, três dias pelo menos...

Limpinho!

Não quero magoar-te – não quero. Aliás, nem eu sei muito bem o que quero. Por fios que noto, sinto, reparo, sei que estou preso. A Custóias, onde passo todos os dias. Preso. E tu serias uma janela, uma porta, uma ponte. Um caminho. Uma saída. Como um fim-de-semana fora. Uma fiança paga não sei por quem mas paga. Um cigarro. Só não quero magoar-te. O que impede tudo, percebes, tudo. Porque no fim, no fim do fim, finalmente quando as coisas foram feitas como deve ser, a dor será tua. Porque há sempre dor.
Queria acabar com tudo. Não posso. Optei por acabar contigo - curiosa expressão, tem a versão boa e a versão má, comecemos pelo bem e deixemos a maldade para o fim. Sim, prometo, acabarei contigo, limpinho!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Already an old one

Está o convite feito, nunca preencher nenhum papel para. Dou-te um mesada e nisso está o teu trabalho. Coleccionas palavras como "oligofrénico", e expressões como "his master’s voice", e gostas do House, aquele médico coxo, inclusivé na medicina que pratica. Não sei porquê vejo-te com muitas almofadas à volta , não sei porque estou aliás a imaginar isto, bastava perguntar-te – de nós os dois quem tem mais gozo com isto tudo, ou nada. Mas nenhuma lenda se poderá aplicar a desembrulhar este embrulho, palavra mágica ou episódio explicativo em horário de vcr. Aliás, já és uma princesa, nem precisas do meu beijo, para quê preocupar-me então.
Fiquemos por aqui: quem me prepara um café dá-me vida. Dás-me portanto vida. Uma vida pequenina, mas é vida. Assim como um recém-nascido. Chama-se a isto uma transfusão. Podes ficar com o novo uso para esta palavra, que re-inventei agora mesmo para ti.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

1, 2, 3.

Um, dois, três dias.

sábado, 14 de março de 2009

Z

Ando a papéis e muita água,

É difícil manter a linha

Organizativa desta dizem

Empresa onde trabalho,

Gostava que as minhas colegas

Fossem um pouco menos feias

Assim não destacava, vou

Corar, já está, uso com frequência

O motor de busca que é olhar

insistentemente para ti, não vejo

Que te decidas, prolonga-se esta

Passagem e por vários sou tocada mas

Dificilmente obtenho o prazer.

X

És muito feia. És como um bode.

És uma besta a carregar duas

Enormes nádegas de cá para lá.

Os teus olhos destilam veneno,

Há séculos que é assim que se

Dizem as coisas. E tens um chulo,

Não tens? Bem me parecia.



Lembras-me vagamente alguém.

segunda-feira, 9 de março de 2009

V

Não percebo porque ainda me

Dás tanta importância, porque

Ainda falas comigo,

Inclino-me para ti, ó tu que

Vives a fugir, inclinas-te tu para

Mim, conversamos um pouco

Sobre as sinecuras da idade,

Acendemos um pouco este riso

Possível.



E não consigo imaginar

O teu corpo.

U

Corpo a mais. A mais, acusou o

Detector e eu não passava,

O avião à espera e

Parte de mim não passava,

Acordei.

Tentei uma vez mais a voz e

Acusou errado também já é demais,

Como queres que me sinta bem,

Eu sei – impossível,

Eu estudei toda esta merda,

Claro que não consigo dar a volta e

Olhar-me, diminuir-me, parar

Com estes sonhos, com esta realidade,

Nem nunca conseguirei perder esta

Foda do peso.

sábado, 7 de março de 2009

T

Feitas as tuas contas, bem

Feitas, ao balançar o

Dia não aparecerei na tua

Lista de acontecidos, Diu

Reses, não serei por

Tanto pontuado, como

Insecto pregado a uma cortiça.

Toda esta tarde recuada, a teu

Favor o ainda não teres

Idade, o seres como uma

Folha em branco, ou melhor

Por definir as cores tuas futuras.

E tudo se aprenderá, até um

Sorriso. E após este sinal

Podias deixar-me uma mensagem.

Ou explicar-me o padrão

Da tua roupa interior,

E depois, o interior que

É ainda mais para

Dentro.

quinta-feira, 5 de março de 2009

S

Insultam-te - de anormal, de estúpida, de

Ignorante. Consinto, embora ache que

Exageram. Saio e entro e enceto.

Quebramos. Nem bem nem

Mal eu vejo esta situação. Que não o maior

Planeta, nem a mais brilhante estrela. Que

É gás e que a distância é confundida pela idade

Pela luz percorrida.

A passar a ferro serias um acto de

Comédia. O teu corpo sendo uma linha

Perfeita,

Os teus seios duas pequenas

Excepções.

R

Quando passaste de barro para

Tabaco não sabíamos que a

Lei de Sócrates te iria colocar

Diariamente

À porta do meu emprego,

Babyface excepto quando puxas,

A voz subsónica,

A roupa interior em tamanhos

Que confundem...

quarta-feira, 4 de março de 2009

P

Levas muitos anos em cima.

Engenharia e outras coisas.

Tu e eu somos um velho, nem mais.

Fazes crescer. Tens estranhos irmão,

Marido, mãe, deixa-me ver se me

Lembro de mais... - e tudo te provoca

Um riso também estranho, limite.

Um peito não feito para descansar,

Como descansarás.



Comia-te toda. Gosto muito de ti.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dental Floss


É inverno e está frio, faz sol mas é tempo da canção da Simone de Oliveira, rapariga estudante da Universidade do Porto que nunca ouviste falar da Simone de Oliveira e que vens tomar um café para estas bandas de ganga baixa e fio dental negro. Que nem café tomaste, imersa numa chamada móvel uns trinta minutos, imóvel, fixamente triangular, quiseste subir a ganga quando finalmente te levantaste mas para quê, senhores, porque o trabalho? Sempre fica a questão de o que fazer com as feias, com as que vestem mal, com as cujos óculos são erros genéticos de escolha, aquelas cujos corpos são copy and paste, mas e se subitamente no meio desta tribo indistinta assim aparece um fio dental?

Eu explico: façamos com o nosso primeiro-ministro e avançemos para o Inglês: pensemos em "dental floss", e a questão fica resolvida. Jovem: vão umas Sloggy?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Filho-da-puta

Ontem o filho-da-puta jantou comigo. Digo filho-da-puta com uma certeza já enraizada e antiga do que estou a dizer. E porém conheço-me, sei da minha raça. Como português que sou tenho destas incongruencias: "então o filho-da-puta nem me cumprimenta?" - o certo seria dar pinotes de alegria por não existir nenhum intercâmbio de reconhecimento com um filho-da-puta, mas não é assim, achamos que um filho-da-puta nos deve reconhecimento por viver, medrar, passar-nos à frente - o destino mais habitual de um filho-da-puta nos dias que correm. Mas um filho-da-puta também se arrepende e assim ter-se chegado ontem à noite à minha mesa, pousado tabuleiro, encetado um jantar. E fez da minha mesa sua, e vieram mais pessoas para com ele jantar, que não comigo. Filho-da-puta! Hoje de manhã lá voltámos à ordem natural das coisas e o filho-da-puta não me cumprimentou. Conhecendo eu a ginecologia deste filho-da-puta, onde bebeu, que coiratos trincou, onde fez crescer as espessas sobrancelhas e lhe aconteceu o grisu da pelagem, sei que o estado é de não retorno. Uma vez filho-da-puta toma-se-lhe o gosto. A questão que me preocupa, e porque faz Darwin 200 anos que não sei bem o quê, é o classificar-me a mim no meio disto tudo, a mim e a este meu comportamento filho-da-puta de cumprimentar tudo e todos e esperar que a diária paz aconteça porque julgo não ter razão Manoel de Oliveira quando diz "que o homem foi feito para guerrear". Esperar a minha vez, esperar que passe a senhor, estas merdas do esperar, esperar que passe! Podia deixar de ser Cortês, podia deixar de ser Armando!
Podia também tirar a carta de pesados, começar prática de tiro ao alvo.

Filho-da-puta!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

1974

Ser adjunto é estar ao lado de, ser muitas vezes adjunto é estar sempre ali enquanto os outros vão variando, eu explico a diferença. Vejamos por exemplo o teu caso. Foste adjunto várias vezes, foste. Subassinaste várias opções e tendências, resmungaste a tua integridade, subentendeste a tua capacidade e a tua reserva. Que não para sempre serias reservista se percebeu e depois apareceste líder. Dizem com admiração de como resistes, admiram a tua permanência em primeiro lugar. Eu explico: manobraste, és manobrado.

Abril de

Que seria de nós sem o teu interface, é aliás a tua especialidade e aquilo a que mais serias dedicada embora, desculpa o reparo, casada com o subchefe da estação alguma coisa quererá dizer, não? Aliás saberás tu da história mais do que eu, de como o teu sogro era conhecido por entre os maquinistas como o “fura-greves”, o “equilibrista” ou ainda, homenagem a conhecido Presidente da República, o “rolha”, eu chamar-lhe-ia outra coisa, só que o teu marido afincado ao poder encontra-se mas por afiadas garras, deve a geração a seguir aprender alguma coisa com a que precedeu e, analisando bem, que caralho é que tu percebes de interfaces, “mulher de” e mais nada?

25 de

Para o trabalho és conduzido, todo este tempo segundo de uma direcção a quem tudo admites e depois dela herdarás o trono, irmão de quem tudo mexe e com cujo frio olhar as paredes tremendo desabaram e voltaram a ser erguidas, o curso comprado na capital tu e todo o teu grupo, ó pá, vais-me desculpar mas não és nada um gajo porreiro …