quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Filho-da-puta

Ontem o filho-da-puta jantou comigo. Digo filho-da-puta com uma certeza já enraizada e antiga do que estou a dizer. E porém conheço-me, sei da minha raça. Como português que sou tenho destas incongruencias: "então o filho-da-puta nem me cumprimenta?" - o certo seria dar pinotes de alegria por não existir nenhum intercâmbio de reconhecimento com um filho-da-puta, mas não é assim, achamos que um filho-da-puta nos deve reconhecimento por viver, medrar, passar-nos à frente - o destino mais habitual de um filho-da-puta nos dias que correm. Mas um filho-da-puta também se arrepende e assim ter-se chegado ontem à noite à minha mesa, pousado tabuleiro, encetado um jantar. E fez da minha mesa sua, e vieram mais pessoas para com ele jantar, que não comigo. Filho-da-puta! Hoje de manhã lá voltámos à ordem natural das coisas e o filho-da-puta não me cumprimentou. Conhecendo eu a ginecologia deste filho-da-puta, onde bebeu, que coiratos trincou, onde fez crescer as espessas sobrancelhas e lhe aconteceu o grisu da pelagem, sei que o estado é de não retorno. Uma vez filho-da-puta toma-se-lhe o gosto. A questão que me preocupa, e porque faz Darwin 200 anos que não sei bem o quê, é o classificar-me a mim no meio disto tudo, a mim e a este meu comportamento filho-da-puta de cumprimentar tudo e todos e esperar que a diária paz aconteça porque julgo não ter razão Manoel de Oliveira quando diz "que o homem foi feito para guerrear". Esperar a minha vez, esperar que passe a senhor, estas merdas do esperar, esperar que passe! Podia deixar de ser Cortês, podia deixar de ser Armando!
Podia também tirar a carta de pesados, começar prática de tiro ao alvo.

Filho-da-puta!

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