quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Anjelica Huston, 1989.

Estavam sentados entre uma multidão mas não ouviam ninguém nem ninguém os parecia ouvir. As palavras eram disparadas por um lado, o outro vergando-se a evidências ocultas vindas à tona ali mesmo, uma carga de navio embrulhada em culpas geridas em meses que a guarda de fronteira pusera a descoberto: “Mariana, eu saio!” – nunca saíra de casa. “Afinal tu hoje à noite vais dormir com quem?” “Comigo próprio.” “Te foder, se ela te tocar, tu afastas a mãozinha, cabrão? Hã?” “Ó Nana, não digas assim, não fales assim...”. ”Falo como me apetece, caralho, falo como me apetece. Estou farta de encontrinhos à esquina, de juras e de enganos, de apalpares-me e tenho que ir embora, entendes? Tu entendes-me, João Carlos?” “Sim, claro que sim...” “A tua mãe preta! Para ti chega-te a escapadinha mensal, o turno enganadinho, a certeza de que tens coutada dupla. Enganaste-me mas não enganas mais! Tu não te vais separar nunca, nunca! Nem eu quero, nem eu deixo, percebes, oftalmologista de merda? A não ser que...” “Tu tem calma!” “Vamos fazer assim – vamos fazer assim, João Carlos – eu vou para o nosso apartamento e fico à tua espera. Tu vais lá ter e ficas, isto é – eu explico – dormes lá hoje comigo. Depois de manhã telefonas à tua mulher a dizer que mandas alguém ir buscar – o que tu quiseres.” “Mariana, não pode ser assim!” “Estás a ver estas chaves, estás? Eu vou para lá agora, meu sacana: e dentro de duas horas, bom três horas, se tu não tiveres chegado eu começo a atirar tudo para a rua. Começo nos quadros e acabo na cama. Lembra-te que é um quinto andar... Vão chamar a Polícia, deixa-os chamar, todos os vizinhos te conhecem, tu pensas que não mas sim, conhecem-te. Vem a Polícia e eu explico! Explico tudo!” Ela levantou-se, o ódio encarnado. As chaves o trunfo.
Era a hora dos lanches, o movimento na praça da alimentação tinha-se deslocado dos self-services para a órbita das cafetarias e pastelarias não esquecendo o McDonalds com os seus sundaes e mcflurrys. “Vou-me! Ai de ti! Oculista do caralho!” E foi-se. Ele não apareceu. Ela não atirou nada pela janela fora. A solução aconteceu dias depois e foi bem simples.

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