quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Do Comboio à Noite

E pensava: não há dúvida, o caminho está todo armadilhado, vê lá tu, há quinze dias eras para ficar até mais tarde, o miúdo teve febre, amanhã o aniversário adiado e tens a mulher doente, não duvides, o caminho está tomado e arranjado, não vais conseguir nem querendo sair dos trilhos, meu amigo, descarrilar não será para ti. Estão todos ao telemóvel combinando, trocando referências, repensando estratégias, percursos, sedativos...
E lembrava-se duma noite em que de comboio voltava para casa e efectivamente tinha descarrilado, um descarrilar ligeiro, nada de feridos, apenas um pequeno susto na penumbra da noite terminal, um sacudir, um chiar, um estremeção e umas diagonais até à imobilização final, três quilómetros a pé até a estação e depois mais um até casa, este já era o definido.
Sim, ok, está lembrado, mas um pequeno descarrilar não será ainda possível, se já aconteceu porque não acontecer outra vez?
E teimoso abanava a cabeça, e insistia em blindar as ideias ao abandono do mais estranho dos planos.

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