quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

4ª cefaleia.

Tenho tomado mais café ultimamente e com um único objectivo: não dormir. Sei que dormes mal. Do pouco que conversámos julguei adquirir os teus hábitos televisivos. A minha relação com o rectângulo que ilumina e adormece tem sido intermitente, com períodos ora de grande dependência ora de profunda aversão. Graças a ti tenho agora a minha vida televisiva bem organizada. De manhã compro o jornal e analizo os programas televisivos a haver à noite. Balizo as horas entre as vinte e uma - sei que raramente estás em casa antes disso - e as duas. Apontei como limite as duas da manhã de modo a que o espertar não se reflectisse demasiado no meu rendimento laboral. Pego numa caneta e assinalo os programas que julgo irás ver, ou que verias se pudesses, ou se calhar gostarias de não perder e a correr ligarás o aparelho e já estará a meio mas, bom! Assinalo com uma seta um a um e o jornal rabiscado fica a meu lado no carro. Depois compro outro que será usado durante a tarde para as conversas de circunstâncias do escritório. Que o primeiro-ministro não devia e que o ministro não teme. A bola. O tempo. A morte de alguém. Findo o dia de trabalho, o segundo jornal é reciclado. O primeiro está à minha espera no lugar ao lado do conductor. Consulto-o nas filas do trânsito, com cuidado embora. Em casa descongelo o que comerei. Atraso de propósito o jantar assumindo que o comer perante a televisão deverá ser um mimetismo do teu viver naquele preciso momento. Assumo, não faço a mais pequena ideia. Às vezes acontece que também te vejo entrar, mas é raro. Só não atraso o comer da cadela. Ela não te ama como eu amo, por isso não deve ser obrigada a estas solidariedades. Patê, Eukanuba, água, água. A Cefaleia vem depois para o sofá ver o que eu vejo na televisão, distraidamente atenta. Para nada cobiça o que como. São onze anos, já disse. A serenidade feita bicho. Eu não. Como?

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