"E sobreveio uma dor lombar."
Era eu muito criança, tanto que ainda mal sabia falar, quanto mais dizer, e lembro ter começado a chorar na escola, chamada esta então do "Quartel", e era a 1ª classe. Aluno modelar numa turma onde a violência por parte do professor, o comportamento discricionário consoante a classe de origem e a humilhação, eram prática diária, preocupou-se este com um dos poucos alunos onde estava ele eximido dessas práticas que tanto, tanto o desgostavam. Sim, confirmo, era um filho-da-puta. Não sabia eu bem porque chorava. Lembro que quando era criança chorava por tudo e por nada, algo que me sucedia com frequência. Tarde embora, algures na adolescência a fonte secou, até hoje. Não me vanglorio pela coisa: trata-se efectivamente de um defeito que tenho.
Bom, o professor perguntou-me o que se passava e eu inventei que a minha preocupação passava por umas supostas crises de dor ciática que o meu pai por aqueles dias andava a ter. Já nem nisto tenho eu a certeza - não seriam já cólicas renais similares a outras que posteriormente eu sei que ele teve? Não sei. Adiante, o certo foi a mentira. Os meus pais chamados, e comovidos com a sensibilidade, eu diminuido pela atenção e pela culpa. Mas eu não podia confessar uma outra qualquer razão que eu sentia ultrapassar as poucas palavras que então eu tinha disponíveis para aquele banho de angústia que me afogava. Porquê? Sabia lá eu! Seis, sete anos? Não tinha mais idade.
Quase quarenta anos depois, a região lombar de gente a quem eu quero volta a estar agora objectivamente sob a minha atenção. E, pela primeira vez desde que me conheço, tenho o que por tradição os médicos chamam lumbago, que é uma espécie de sub-ciática, de dor ciática amputada. Á esquerda, esclareço.
Isto passa.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
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