sexta-feira, 26 de março de 2010

Da Casa Branca

Foi a mais silenciosa das noites, o que foi estranho. Ela dormia não dormia, sendo a diferença bem pequena. Um pequeno fechar e abrir de boca marcando um ruido mínimo, um pequeno abrir dum pequeno cofre. Assim dormia. Adormecer com Cesariny ao lado tem sempre algum perigo. Pode meter magalas, terminologia imprópria para menores. Escatologia vária. Mas lá fora residia a fúria de um mar que representava todas as fúrias havidas e por haver, a gaivotaria mal tentando resistir em derivas aéreas a destempo, e desoras, pois era de noite. Em linha recta, como recto tinha sido o caminho tomado até ali, nem dois quilómetros, a cidade do Porto. Repito que quando falo contigo parece-me falar com toda uma cidade. Mas se calhar não. A tudo posso ainda dizer se calhar não. Pois continuo sem nada saber. Adormecer com Cesariny tem por outro lado a vantagem da segurança própria de quem não está para aí virado. E duas camas permitem dois lados para onde virar. Mas só uma porta condiciona sempre a possível rota de fuga. Por outro lado - eis os lados - vai-se sempre corrigindo, como se em gesso a versão da estátua futura, a versão futura de um viver que não há-de vir. Algo como "(...) ela com alguma frequência continuava a invadir-lhe os espaços, os tempos, os gestos. Invadia com um jeito só seu, ora brusco ora hesitante, o corpo aos solavancos como abrindo caminho, que não precisava, estava aberto. Ele deixava, oh se deixava. Admitia-se ocupado. Não parecia haver limites, mas sim, havia limites. Tinham sido aprendidos muito antes, numa qualquer pre-história partilhada. Porque todas as histórias têm uma pre-história. Falavam como que diferentes línguas, atravessando meias palavras. Mas naqueles momentos de aparente desequilíbrio, que se sentasse e demorasse um tempo a medir a coisa, estavam só e apenas um para o outro, ali, um com o outro. E com pequenas cargas de ombro ele conseguia o equilíbrio. Até porque tinha sido ele a abrir a porta, podia não abrir. O disparate medido e comumente praticado era ali um droga fácil, que também ele tinha aprendido a administrar. Podia ser dito que ele de vez em quando lhe vinha condicionar a dose, reduzir o miligrama. Ele também em consumo, consumindo-se. E aqui era ela a deixar que essa interferência se desse. Era isso: interferiam um no outro. Nestes dias, que noutros não. E assim mantinham-se interessantemente vivos. O que é muito dizer, nos dias que correm. (...)"
As gaivotas, de manhã, eram já mais. Porque era um dia outro já. A fúria mantinha-se, a fúria está ali sempre, condiciona. Não rendidas mas condicionadas, por um qualquer dos lados que o vento acaba por permitir, elas penetram na muralha invisível e seguem para a vida, ou se não apenas pousam e esperam, amanhã será o dia de chegar ao mar e comer.
"Comer, beber, homem, mulher." Título de um filme. O dia a dia ainda possível.

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