Era um filme do Spike Lee, há mais de vinte anos que o vi. A confusão foi ainda maior por não entender a mensagem subjacente aquele filme específico e portanto então não me ter identificado com a atitude do protagonista , o Spike Lee lui mêmme. What's the right thing, for me, for you? What's right? Tudo isto gira à volta da questão da verdade ,a verdade, devemos sempre trabalhar com a verdade, etc. e tal... Lembro-me de uma discussão que tive com uma rapariga nova que trabalhou comigo, há anos, actualmente casada com o rapaz que publicou comigo o blogue sobre leituras. A Cecília Rinto, dela falo, é mais um/uma dos discípulos que me encheram os dias nos tempos da Medicina e que hoje honro e choro a sua ausência. E ela não concordou comigo. Tocava violino na tuna, fazia uns sons agudos enquanto escrevia os diários, era engraçada.
A história é esta: a irmã duma grande amiga minha teve comigo há muitos anos um diagnóstico de Hipertensão secundária, isto é, provocada por um problema numa artéria renal. Diagnóstico feito, fez a dilatação da artéria no SantoAntónio, e siga. A rapariga alguns anos depois começou a ter problemas de dores e alterações da sensibilidade nos membros inferiores, e vou evitar os termos técnicos. To cut a long story short, após vários exames e com a ajuda decisiva dum amigo meu Neurologista chegou-se à óbvia conclusão que a rapariga tinha esclerose múltipla (EM). Não sendo eu íntimo da jovem, professora de filosofia do ensino secundário, discuti com a irmã, ainda por cima médica e grande amiga minha, repito, a oportunidade do acesso da doente ao diagnóstico definitivo, pelo risco de "labeling" e desespero associado, acudindo a irmã com o argumento de que o perfil psicológico da irmã contraindicava definitivamente o conhecimento do diagnóstico. As palavras "esclerose múltipla" foram varridas do mapa. Clinicamente ela evoluiu bem, esta história tem mais de dez anos, a doença tem progredido pouco ou nada, a minha doente e agora também grande amiga tem uma vida activa e produtiva. Eu julgo que ela sabe/não sabe do diagnóstico mas voluntariamente engana-se, vigiando qualquer lapsus linguae meu. Esta história tem mais dois episódios.
O primeiro aconteceu quando finalmente a minha amiga doente decidiu casar, e pôs a hipótese de gravidez. A conversa do costume sobre o relógio biológico, etc.: ela é dois anos mais velha do que eu. Aqui tive algummas trocas de palavras mais duras com a irmã índice, a que é médica, etc., mas afinal manteve-se a mentira, embora com uma porta que eu entreabri que a minha doente amiga decidiu não aproveitar/arriscar.
O segundo episódio foi quando há dois anos a minha amiga doente agravou um pouco os sintomas e eu consegui arranjar-lhe um Neurologista da àrea da EM que a observasse, de forma a eventualmente reiniciar tratamento. Acontece que as análises, etc., não foram conclusivas, a clínica estacionou, ela com uma nova combinação de antidepressivos mais uns quantos placebos melhorou, etc., etc. AEste Neurologista ficou com dúvidas no diagnóstico! Terminando, oficialmente na cabeça dela ela não tem esclerose multipla. Tem sim uma doença blablabla mas que não é, não senhor, nem pensar. A história de Dâmocles e da espada.
Claro que não me sinto nem orgulhoso nem triste com isto. Estou e estarei apreensivo. Sou hoje muito amigo desta rapariga. Falamos com frequência, tomamos um café aqui e ali. A sua irmã, confidente de horas muito antigas, telefona-me em apertos e só, sempre a correr.
Era um caso de medicina. Iaaarrrgh!
As relações pessoais, afectivas, etc., são a completely different ball game, certo? Todos sabemos quem queremos, quanto, como, porquê, e os verbos necessitar, precisar, ceder, brunir, nunca por nunca são chamados, certo? As mais das vezes porém acredito que a palavra mentira não se aplique ao quadro legislativo. Voemos até Paris: este fim-de-semana a esquerda ganhou as regionais em França. Ganhou? Sim, com 47% de abstenção. É, a partir de determinada idade passamos a abstermo-nos, muito, com frequência, sempre.
Bom ,ams nada disto tinha a ver com a questão índice: do the right thing! Chama-se a um texto assim um manobra de diversão. Passeando pela família de palavras anexa encontro divergir, encontro divertir, encontro divertículo (intestinal)...
domingo, 21 de março de 2010
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