Boa noite. Vou agora explicar-te porque nunca te falei muito sobre o filme “Les Herbes Folles”. Alain Resnais é uma fixação como outra qualquer. Na realidade não vi tantos filmes dele quanto isso, nem tenho uma opinião tão firmemente positiva sobre a sua produção, nenhum raciocínio encaixado para debitar quando preciso sobre a sua genialidade. Tenho uma lembrança a um tempo muito forte e muito perdida sobre um filme chamado “L’Amour A Mort”, e só o título assusta-me por isso tardarei em revê-lo. Lembro também de ter visto um êxito recente dele, “On Connait La Chanson”, um filme musical (!), uma comédia de costumes doce-amarga, que estou a rever aos bocados. Lembro ainda “I Want To Go Home”, e este sim, gosto, gostei e gostarei, porque é um filme envolvente, optimista, quente. Não “Les Herbes Folles”, não. Este filme de que falo trata de pessoas sozinhas, metidas na metade da vida ou para a frente disso. Um pouco alteradas da cabeça, ou ou pouco mais. A dos seus desencontros e suas consequências, implacáveis, impossíveis de deter, como as “ervas daninhas” de que trata o título e vai lembrando em fotogramas através do filme. Vês e vais pensando: “isto não vai acabar bem”… engoles a frase em seco, olhas por ti abaixo, rezas para que assim não seja, tentas apagar o espelhismo mas não funciona. Não, não vai acabar bem, em bem, o delírio dos protagonistas leva-os a ínvias decisões que Resnais retrata com um humor seco e brutal. Tanto que a sequência final podia ter sido intitulada “A braguilha assassina”… enfim. Sabine Azéma e André Dussolier são vivos retratos de uma loucura possível.
Não gostei de me ver ali (um pouquinho…) no filme, não gostei, Resnais um dia destes vai aparecer-me em sonhos e dizer: “não digas que não te avisei”…
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
Barcelona
A solidão pede uma aprendizagem,
Os músculos dos gestos para fora
Passam a ser os musculos
Dos gestos para dentro.
A solidão acaba por não ser
Assim tão importante.
Por aqui passas, prisioneira,
Qual é maior, a minha ou a
Tua prisão?
==
Nem toda a gente tem tudo como
Esta cidade de Barcelona.
Chegará Setembro. Poderei
Eu preparar o duro Inverno
Contigo? Até lá este mar
Intermédio.
Até lá a gente
Vê-se, a gente
Vê-se. Ou não.
==
Debaixo de água ela
Escondida estava e
Respirava pela palhinha
Da Coca-Cola.
Um só dedo bastava para
Apagá-la da face da
Terra, um só e eu tinha dez…
E havia a vantagem d
Ela estar debaixo de água.
==
Tu eras
Tu és
Tu serás sempre diferente.
Só nada de presentes nem
Estes dias de hoje.
Tudo o que não volta a acon
Tecer é esta demasiada sombra…
==
Pensar numa praia.
Nela colocar-te mais teus problemas
À superfície. Dirigir-me eu para a
Água e ilustrar os meus problemas de
Emersão. Juntar tudo isto e servir,
Servir sempre.
==
Imaginem uma manhã de Maio.
Imagina uma manhã de Setembro.
E em todo este tempo os
Teus olhos vi duas, três
Vezes. Desciam.
É sempre de manhã que as
Coisas acontecem.
Um café.
==
Não é justo. Nunca foi o
Meu corpo o teu saco
De pancada.
Nunca a tua revolta deu para
Arquivar os nossos dias
Em muito bons e
Muito violentos.
E esta visão
Binocular da puta vida
Em que encalhamos os
Dois, hã?
Uma canção, é preciso uma
Canção.
Sendo hoje o dia em que não
Podemos duvidar.
==
Os meus inimigos estão aqui tão perto.
Os meus amigos também.
Exérese, de ambos devo-me afastar.
Porém,
Revelo os negativos.
==
No metro de Barcelona
À minha frente os teus pés
São defendidos pelo Sol
E pela Lua que gravados levas
Nuns chinelos - brancos?
The Sun… The Moon…
Sais.
Da vida saberás umas
Coisas, apoiada em tão firmes
Pressupostos.
==
Os músculos dos gestos para fora
Passam a ser os musculos
Dos gestos para dentro.
A solidão acaba por não ser
Assim tão importante.
Por aqui passas, prisioneira,
Qual é maior, a minha ou a
Tua prisão?
==
Nem toda a gente tem tudo como
Esta cidade de Barcelona.
Chegará Setembro. Poderei
Eu preparar o duro Inverno
Contigo? Até lá este mar
Intermédio.
Até lá a gente
Vê-se, a gente
Vê-se. Ou não.
==
Debaixo de água ela
Escondida estava e
Respirava pela palhinha
Da Coca-Cola.
Um só dedo bastava para
Apagá-la da face da
Terra, um só e eu tinha dez…
E havia a vantagem d
Ela estar debaixo de água.
==
Tu eras
Tu és
Tu serás sempre diferente.
Só nada de presentes nem
Estes dias de hoje.
Tudo o que não volta a acon
Tecer é esta demasiada sombra…
==
Pensar numa praia.
Nela colocar-te mais teus problemas
À superfície. Dirigir-me eu para a
Água e ilustrar os meus problemas de
Emersão. Juntar tudo isto e servir,
Servir sempre.
==
Imaginem uma manhã de Maio.
Imagina uma manhã de Setembro.
E em todo este tempo os
Teus olhos vi duas, três
Vezes. Desciam.
É sempre de manhã que as
Coisas acontecem.
Um café.
==
Não é justo. Nunca foi o
Meu corpo o teu saco
De pancada.
Nunca a tua revolta deu para
Arquivar os nossos dias
Em muito bons e
Muito violentos.
E esta visão
Binocular da puta vida
Em que encalhamos os
Dois, hã?
Uma canção, é preciso uma
Canção.
Sendo hoje o dia em que não
Podemos duvidar.
==
Os meus inimigos estão aqui tão perto.
Os meus amigos também.
Exérese, de ambos devo-me afastar.
Porém,
Revelo os negativos.
==
No metro de Barcelona
À minha frente os teus pés
São defendidos pelo Sol
E pela Lua que gravados levas
Nuns chinelos - brancos?
The Sun… The Moon…
Sais.
Da vida saberás umas
Coisas, apoiada em tão firmes
Pressupostos.
==
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Uma testemunha insuspeita.
Pediram-me este testemunho, aqui estou.
Comecei a reparar neles aí por Setembro, Outubro do ano passado. Tomavam pequeno-almoço juntos. Primeiro sentados dentro, depois no exterior daquele estabelecimento quem vai para o hospital. Ele sempre com um travo nervoso no gesto, ela não, ela sempre muito bem, muito natural, exercendo as suas prerrogativas de descomprometida, como se apenas calhasse estar ali. De coincidência passaram a ser algo mais, com o tempo. Algo de não muito definido mas, sim, havia algo mais. Foi engraçado porque onde eles se sentavam começaram a sentar-se mais pessoas, o que não acontecia antes. De vez em quando acontecia uma interrupção e podia ela vir sózinha, ele não. Este tipo de comportamento definia logo ali quem estava por quem e para quê, esqueçamos aqui e já que ele por aliança se via casado, ela não. Ele voltava, ela perguntava-lhe "que tal as férias?". Depois houve uma fase em que me pareceu que ele lhe queria dar coisas, muitas coisas, quase todos os dias. E ela chateava-se, perdia a naturalidade tão sua, o lento desenvolver de quem preferia não ter acordado mas. Não se zangava mas sabia dizer não. E dizia. Passou o ano e a coisa seguiu. Disseram-me - porque algo se comentava - que também almoçavam juntos. Notei que ele mudara um pouco. Que andava mais depressa. Que levantava mais os ombros, que às vezes olhava o mundo e tudo em redor como se em desafio. Outras vezes não, e era com se carregasse um peso enorme. Ela também mudara um pouco, como se algum do nervosismo dele lhe tivesse sido passado por transfusão. Mudaram também de sítio para tomar o pequeno-almoço. Ele comprava o jornal e quase lho atirava, flores seriam na sua cabeça. Percebi que ela queria demorar menos - problemas no trabalho? Não se via presa, contrariada, aborrecida com o companheiro. Um pouco tensa sim. O ritual diário mantinha-se, pequeno e grande almoço, para este passava ele a jacto todos os dias pouco depois da uma, cruzando a praça da alimentação do centro comercial, ia comer com ela à universidade em frente. Como nada mais acontecia ali e não se observava evolução adicional - nenhum acréscimo de familiaridade, nenhuma alteração nos adereços de compromisso oficial - só posso supôr que eventualmente ao fim destes meses todos, algo mais deve ter acontecido fora desta dicotomia pequeno-almoço/almoço. Algo mais mas que nada deve ter definido, ou adiantado, ou destruido. E porém esta estranha e mínima relação, este esquema, esta "estranha forma de vida", esta fina ligação, era agora, parecia-me, também muito valorizada por ela. Se ele por pouco se atrasava logo ela desatava a mandar-lhe mensagens no telemóvel, rodando os olhares e suspirando a meia-de-leite que se consumia sem companhia. E censurava-o quando ele chegava. Avisava-o do tempo de antena curto que lhe restava. A ele de aplicar-se. Posso dizer que eram porém ali às vezes felizes, embora noutras ocasiões me parecessem dois animais acossados, nem mais. Havia dias em que acabavam a rir desalmadamente um com o outro, e não creio que fosse só por querer, pareceram-me mais exigentes do que isso. Por minutos divertiam-se imenso. Invejava-os. Outros dias quase nada acontecia, partilhando os dois um aborrecimento monumental com o mundo. Curiosamente a palavra fidelidade vinha-me à cabeça quando os via. E passaram-se - quê? - mais de seis meses.
Um dia o pequeno-almoço foi mais curto. Ele chegou e entregou-lhe o jornal mas não buscou nada para tomar, sentando-se logo. Fiquei de olho. Disse o que terá dito e logo ela levantou-se, alterada. As coisas que se dizem em voz baixa são as que fazem rodar o mundo. Ou parar. E assim rodou cada um para seu lado. Foi ele que começou a rasgar, mas o puxão final deu-o ela, foi o que me pareceu. Digo final porque não mais os voltei a ver juntos, disseram-me que também não voltaram a almoçar, juntos digo.
Ele vem tomar qualquer coisa quase todos os dias, lê o jornal, mostra-se, vai-se embora. Vem marcar o lugar.
Gostaria que esta história não ficasse por aqui. Tantos meses com tamanha ausência de maldade espantou-me, espantava-me. Mas, claro, isto não está nas minhas mãos, está nas deles.
Comecei a reparar neles aí por Setembro, Outubro do ano passado. Tomavam pequeno-almoço juntos. Primeiro sentados dentro, depois no exterior daquele estabelecimento quem vai para o hospital. Ele sempre com um travo nervoso no gesto, ela não, ela sempre muito bem, muito natural, exercendo as suas prerrogativas de descomprometida, como se apenas calhasse estar ali. De coincidência passaram a ser algo mais, com o tempo. Algo de não muito definido mas, sim, havia algo mais. Foi engraçado porque onde eles se sentavam começaram a sentar-se mais pessoas, o que não acontecia antes. De vez em quando acontecia uma interrupção e podia ela vir sózinha, ele não. Este tipo de comportamento definia logo ali quem estava por quem e para quê, esqueçamos aqui e já que ele por aliança se via casado, ela não. Ele voltava, ela perguntava-lhe "que tal as férias?". Depois houve uma fase em que me pareceu que ele lhe queria dar coisas, muitas coisas, quase todos os dias. E ela chateava-se, perdia a naturalidade tão sua, o lento desenvolver de quem preferia não ter acordado mas. Não se zangava mas sabia dizer não. E dizia. Passou o ano e a coisa seguiu. Disseram-me - porque algo se comentava - que também almoçavam juntos. Notei que ele mudara um pouco. Que andava mais depressa. Que levantava mais os ombros, que às vezes olhava o mundo e tudo em redor como se em desafio. Outras vezes não, e era com se carregasse um peso enorme. Ela também mudara um pouco, como se algum do nervosismo dele lhe tivesse sido passado por transfusão. Mudaram também de sítio para tomar o pequeno-almoço. Ele comprava o jornal e quase lho atirava, flores seriam na sua cabeça. Percebi que ela queria demorar menos - problemas no trabalho? Não se via presa, contrariada, aborrecida com o companheiro. Um pouco tensa sim. O ritual diário mantinha-se, pequeno e grande almoço, para este passava ele a jacto todos os dias pouco depois da uma, cruzando a praça da alimentação do centro comercial, ia comer com ela à universidade em frente. Como nada mais acontecia ali e não se observava evolução adicional - nenhum acréscimo de familiaridade, nenhuma alteração nos adereços de compromisso oficial - só posso supôr que eventualmente ao fim destes meses todos, algo mais deve ter acontecido fora desta dicotomia pequeno-almoço/almoço. Algo mais mas que nada deve ter definido, ou adiantado, ou destruido. E porém esta estranha e mínima relação, este esquema, esta "estranha forma de vida", esta fina ligação, era agora, parecia-me, também muito valorizada por ela. Se ele por pouco se atrasava logo ela desatava a mandar-lhe mensagens no telemóvel, rodando os olhares e suspirando a meia-de-leite que se consumia sem companhia. E censurava-o quando ele chegava. Avisava-o do tempo de antena curto que lhe restava. A ele de aplicar-se. Posso dizer que eram porém ali às vezes felizes, embora noutras ocasiões me parecessem dois animais acossados, nem mais. Havia dias em que acabavam a rir desalmadamente um com o outro, e não creio que fosse só por querer, pareceram-me mais exigentes do que isso. Por minutos divertiam-se imenso. Invejava-os. Outros dias quase nada acontecia, partilhando os dois um aborrecimento monumental com o mundo. Curiosamente a palavra fidelidade vinha-me à cabeça quando os via. E passaram-se - quê? - mais de seis meses.
Um dia o pequeno-almoço foi mais curto. Ele chegou e entregou-lhe o jornal mas não buscou nada para tomar, sentando-se logo. Fiquei de olho. Disse o que terá dito e logo ela levantou-se, alterada. As coisas que se dizem em voz baixa são as que fazem rodar o mundo. Ou parar. E assim rodou cada um para seu lado. Foi ele que começou a rasgar, mas o puxão final deu-o ela, foi o que me pareceu. Digo final porque não mais os voltei a ver juntos, disseram-me que também não voltaram a almoçar, juntos digo.
Ele vem tomar qualquer coisa quase todos os dias, lê o jornal, mostra-se, vai-se embora. Vem marcar o lugar.
Gostaria que esta história não ficasse por aqui. Tantos meses com tamanha ausência de maldade espantou-me, espantava-me. Mas, claro, isto não está nas minhas mãos, está nas deles.
sábado, 22 de maio de 2010
...
Viver é lamber de alguém as feridas e assim saciar-se e esquecer que feridas também tem.
As tuas feridas quero para meu repasto.
As tuas feridas quero para meu repasto.
O umbigo, o dedo em garra, o coração de lado...
É um turbilhão a quantidade de coisas que te quero dar. Não cessam, entram e saiem da minha cabeça, ficam à minha volta a bailar, é um turbilhão. E isto não pára.
Já preparei as minhas apresentações para amanhã, vou deitar-me. Sempre aquela sensação, deitar-me ao lado da pessoa errada. Amanhã vou estar exausto, o que é fixe. Cada dia que está para vir tem como que um post it, um ressalto, um sublinhado.
Eu sei que isto é mesmo confuso, eu sei que te não é fácil, eu sei que eu também não sou fácil, não me pareço a nada, e vivo a inventar enquanto caminho. Caminho? Caminho sim senhor.
Mas, por favor, não me morras.
Já preparei as minhas apresentações para amanhã, vou deitar-me. Sempre aquela sensação, deitar-me ao lado da pessoa errada. Amanhã vou estar exausto, o que é fixe. Cada dia que está para vir tem como que um post it, um ressalto, um sublinhado.
Eu sei que isto é mesmo confuso, eu sei que te não é fácil, eu sei que eu também não sou fácil, não me pareço a nada, e vivo a inventar enquanto caminho. Caminho? Caminho sim senhor.
Mas, por favor, não me morras.
Repito!
Já me disseste isso, agora preciso de dizer eu? Faltar-me-ão sempre adjectivos, elogios, cartazes...
Uma, esta: não és fácil. Tu sabes o que eu quero dizer. Pronto, um elogio.
Uma, esta: não és fácil. Tu sabes o que eu quero dizer. Pronto, um elogio.
Uma coisa
Uma coisa não entendo: teres que me explicar que não és uma... qualquer...? Já não passámos dessa rua?
Sobram-me adjectivos, faltar-me-ão sempre adjectivos!
Sobram-me adjectivos, faltar-me-ão sempre adjectivos!
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Uma simples carta.
É mesmo assim: tu não acreditas que eu me separe. Se eu me separar pensarás que apenas quero provar que sou capaz. Bom, e assim estamos de encravados. E possivelmente continuaremos. Nunca o que é bom para sempre dura? Talvez não. Mas se não o provarmos como saberemos? Que é bom, o quanto tempo dura…
Não. Não estou assim tão deprimido. Vou estar provavelmente, depois da bomba atómica ser largada. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Da Angeles é diferente. Tenho pena, muita. Mas agora estou a faltar-lhe ao respeito e à verdade. E há demasiado tempo. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Mas prosseguir aqui é mentir-lhe. E ela não merece um pai mentiroso.
Eu sei que a minha despedida – que, repito, não o foi – foi atabalhoada, etc. Foi precisa. A tua presença diária impedia-me de entristecer. Tu não imaginas o bem que me fazes. E eu sentia isso e tudo ficava mais confuso. Muitas vezes eu pensava: porquê mudar? Mas há meses que eu penso mudar! Esta semana serviu definitivamente para “assentar ideias”.
Eu quero fazer-te feliz, Cristina! Não sei se só um dia, se uma semana, um mês, um ano, dez… É isto, é o que eu quero. Voltei a mandar-te sms, etc. de alguma forma para reatar um pouco os nossos canais de comunicação. Quando eu sair de casa, assim a coragem aconteça, talvez demore algum tempo a podermos voltar a estar cara a cara, eu apalermado, tu de esquina… Vou ter que fazer algum luto de tudo isto, catorze anos, suponho que vai ser muito mais difícil do que sequer imagino. Posso até voltar atrás. Mas parece-me pouco provável…
Um dia, um dia, um dia, vou telefonar-te, procurar-te, sei lá, e vou pedir-te muito a sério, que é como quem diz, com um sorriso de orelha a orelha, se queres namorar comigo. Vivo a pensar nesse dia. Espero que a tua resposta seja a que eu DESEJO.
Se não for, valeu a pena tentar, porque a vida… É ISTO! Tentar e tentar e tentar…
Não. Não estou assim tão deprimido. Vou estar provavelmente, depois da bomba atómica ser largada. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Da Angeles é diferente. Tenho pena, muita. Mas agora estou a faltar-lhe ao respeito e à verdade. E há demasiado tempo. Tenho imenso medo da reacção da Cata. Mas prosseguir aqui é mentir-lhe. E ela não merece um pai mentiroso.
Eu sei que a minha despedida – que, repito, não o foi – foi atabalhoada, etc. Foi precisa. A tua presença diária impedia-me de entristecer. Tu não imaginas o bem que me fazes. E eu sentia isso e tudo ficava mais confuso. Muitas vezes eu pensava: porquê mudar? Mas há meses que eu penso mudar! Esta semana serviu definitivamente para “assentar ideias”.
Eu quero fazer-te feliz, Cristina! Não sei se só um dia, se uma semana, um mês, um ano, dez… É isto, é o que eu quero. Voltei a mandar-te sms, etc. de alguma forma para reatar um pouco os nossos canais de comunicação. Quando eu sair de casa, assim a coragem aconteça, talvez demore algum tempo a podermos voltar a estar cara a cara, eu apalermado, tu de esquina… Vou ter que fazer algum luto de tudo isto, catorze anos, suponho que vai ser muito mais difícil do que sequer imagino. Posso até voltar atrás. Mas parece-me pouco provável…
Um dia, um dia, um dia, vou telefonar-te, procurar-te, sei lá, e vou pedir-te muito a sério, que é como quem diz, com um sorriso de orelha a orelha, se queres namorar comigo. Vivo a pensar nesse dia. Espero que a tua resposta seja a que eu DESEJO.
Se não for, valeu a pena tentar, porque a vida… É ISTO! Tentar e tentar e tentar…
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Centelha Asiática.
Correr pela rua fora,
temer as pontes que
tremem, rir com des
tino, lamber o mesmo
ao fechar uma carta ou
uma ferida recente.
Espero que esta te encontre bem,
espero que esta espera te encontre
também.
Nada retira o desejo
adicional e repetido de
um pouco de centelha
asiática.
temer as pontes que
tremem, rir com des
tino, lamber o mesmo
ao fechar uma carta ou
uma ferida recente.
Espero que esta te encontre bem,
espero que esta espera te encontre
também.
Nada retira o desejo
adicional e repetido de
um pouco de centelha
asiática.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Alvarenga
Em Alvarenga, antigo concelho, que ainda é Arouca mas já é Montemuro, vai-se de propósito comer o bife!
18 de Maio
Encerrado. Um doente agravo para entretenimento, depois devolvo-o à vida. Ele não me agradece. A linha está ali, não a piso, não a cruzo.
Os sinais vitais.
Digo: um pulso que acelera, as artérias tensas, tensas. Um olhar enterrado. Tropeço é uma freguesia do concelho de Arouca, Raiva de Castelo de Paiva. Como se come bem em Arouca!
Os sinais vitais.
Digo: um pulso que acelera, as artérias tensas, tensas. Um olhar enterrado. Tropeço é uma freguesia do concelho de Arouca, Raiva de Castelo de Paiva. Como se come bem em Arouca!
terça-feira, 18 de maio de 2010
Porto de Abrigo
Há anos e anos que amo a tua cidade. As suas ruas, os seus enganos, o sujo e abstracto chão medieval.
Há anos e anos que amo a tua cidade. Já fiz várias vezes a corda completa do seu rio violento, animal de disfarce nunca completamente tomado. Procuro a tua cidade quando chove e atravesso as praças exuberante. Sofro o castigo da tua cidade ao sol e busco refúgio debaixo dos beirais e abraçando as montras assombradas. Levanto o empedrado novo “tipo Ibérico” e parto alguma coisa para manter o nível, é muito importante manter o nível numa cidade assim, subida, inclinada, desmantelada. O nível do óleo, entendes-me? À antiga calçada dou um beijo ou uma mija, depende.
Que pena a tua cidade, estão a esventrar-lhe a alma, os Aliados, as Cardozas, essas merdas tipo residence tipo tiro nos cornos.
Que pena, agora que decidi que cidade amo, eis que estão a fodê-la à grande, confesso que, ignorante da nomenclatura, não sei se é à francesa, diz-me tu…
Bom, acabem lá com a cidade, façam lá o servicinho, não se preocupem. A cidade de que falo nem sabe que existo. Mas neste desencontro tenho vivido estes anos todos, e tem dado para os gastos. E tu…
Há anos e anos que amo a tua cidade. Já fiz várias vezes a corda completa do seu rio violento, animal de disfarce nunca completamente tomado. Procuro a tua cidade quando chove e atravesso as praças exuberante. Sofro o castigo da tua cidade ao sol e busco refúgio debaixo dos beirais e abraçando as montras assombradas. Levanto o empedrado novo “tipo Ibérico” e parto alguma coisa para manter o nível, é muito importante manter o nível numa cidade assim, subida, inclinada, desmantelada. O nível do óleo, entendes-me? À antiga calçada dou um beijo ou uma mija, depende.
Que pena a tua cidade, estão a esventrar-lhe a alma, os Aliados, as Cardozas, essas merdas tipo residence tipo tiro nos cornos.
Que pena, agora que decidi que cidade amo, eis que estão a fodê-la à grande, confesso que, ignorante da nomenclatura, não sei se é à francesa, diz-me tu…
Bom, acabem lá com a cidade, façam lá o servicinho, não se preocupem. A cidade de que falo nem sabe que existo. Mas neste desencontro tenho vivido estes anos todos, e tem dado para os gastos. E tu…
segunda-feira, 17 de maio de 2010
16 de Maio
Sobrevivo, que é algo mais. Despedido ao elevador, descido. Noite onde preciso. Noite.
E eu mordomo. Servil servente. Não pedreiro. Aprendiz de obra. Não engenheiro. Serpente?
E eu mordomo. Servil servente. Não pedreiro. Aprendiz de obra. Não engenheiro. Serpente?
domingo, 16 de maio de 2010
15 de Maio
Deste mês a metade já devorada. Mapeados eventos, dias, discurso. E um urso e sua figura.Em sendo necessário ser.
sábado, 15 de maio de 2010
15ª Cefaleia
Sempre presente nestes monólogos esta cadela que é tudo o que me resta. Lembro-me dela jovem, mexida, saltarina, sofria então de uma paixão verdadeiramente assolapada por mim, à qual eu devotamente respondia. O entendimento perfeito. Que foi evoluindo para este silêncio que sobrevive aos nossos dias, um atrás do outro como aqueles elefantes da história, tromba e rabo, pesado atrás de pesado.
Assim as pessoas fossem, assim.
Assim as pessoas fossem, assim.
Problema identificado
O estar contentíssimo por te ter conhecido. O não conseguir entristecer como devia. O não parar de pensar em ti.
14 de Maio
Booking ponto come. Os cartazes do Fernando Mendes enchiam as paredes da defunta Casa Forte. Falas dos filhos de e parecemos ter nascido em países diferentes quando não, trinta quilómetros de distância, mais não. O remate de quarta de manhã era para ter acontecido já na sexta anterior, assim não foi pela tua aparição em público, eis uma ironia ainda maior, ainda maior. A vida como a doença às vezes antecipa-se, dá-nos a volta. O público, o mais cruel dos espectadores. Terça-feira como um "acto único, o terceiro de três, assim visto, the third of a perfect pair, e depois... o abismo, terra ignorada, como antigamente os navegantes indo para Ocidente.
Booking ponto come. Óptimos preços em Junho.
Booking ponto come. Óptimos preços em Junho.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
13 de Maio
Dia de Cova de Iria. Sim, existe uma FNAC no MarShopping, confirmado. Comprou-se. Estava com alguma traça mas não houve tempo. Melhor. Muito melhor.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Memória futura - sms
"Resulta curto escrever o prazer e a alegria tidas. Cito: 'muito fixe!' Não me estou a despedir. Peço desculpa por hoje, não pelo resto, que não o é. (o nunca dado) Beijo." 12052010 - 10h52m
"Eu também não consigo descrever até porque não escrevo tão bem. Beijo" 12052010 - 10h54m
"Eu também não consigo descrever até porque não escrevo tão bem. Beijo" 12052010 - 10h54m
Os poemas
Os poemas são só poemas. É pendurá-los na parede, é dar-lhes significados. Os poemas, que são só poemas. Um conjunto ordenado de palavras. O que querem dizer, pomos tu e eu creme por cima, ou outro tipo da cobertura, à discrição. E feita a descrição do local, acrescente-lhe cada um o poema que quiser. Ele há... muitos. Poemas, locais. E há os actores. E seus papéis. Que têm aquela traseira porta por onde saiem pensando: "E agora? Mudo? Acabo? Começo?".
Mundo este onde o representar não se acaba. E para quando a própria representação?
Mundo este onde o representar não se acaba. E para quando a própria representação?
terça-feira, 11 de maio de 2010
Carta
Escrevo num quarto de hotel de cinquenta euros. E a primeira pergunta é: o que faço eu aqui? A resposta é simples: estou aqui à tua procura.
Mas amanhã vou tomar pequeno almoço e almoço contigo como se nada fosse. Como se nada fosse? Não. Amanhã almoçaremos juntos pela última vez, não sei por quanto tempo.
Preciso de tempo, de espaço, e de alguma paz visual para decidir coisas. A minha vida na minha casa está a tornar-se-me fisicamente, e digamos que estou adequadamente a usar o sentido literal do termo, fisicamente repito muito difícil.
Vivo sinalizado por ti, de alguma forma. Isto ASSIM não pode continuar.
O que vou decidir? Não sei. Não sei. Não sei!
Claro que isto não é uma carta nem é nada. Claro que agora agora bebo cada milímetro de ar que respiras. Claro que já vivi demasiado para saber o falível de todas estas coisas. Este milhar de coisas que me falta fazer contigo. Milhar, digo, mais! Podemos cair nas palavras de caca? Adoro-te e mais alguma coisa. E preciso de não te ver durante uns tempos. Que tempos serão estes? Se calhar ficarei à espera de um sinal, um qualquer sinal que marque o sentido, um sentido para estas coisas que me estão a acontecer. Sinal que não vai acontecer, eu sei. Eu já vi este filme, pagando bilhetes a preços variados, em variadas companhias. Sim, eu sei, à segunda é mais barato. Segunda-feira, queria eu dizer. Cara amiga, também, a partir de agora vamos entrar em sessão contínua.
Teu
Mas amanhã vou tomar pequeno almoço e almoço contigo como se nada fosse. Como se nada fosse? Não. Amanhã almoçaremos juntos pela última vez, não sei por quanto tempo.
Preciso de tempo, de espaço, e de alguma paz visual para decidir coisas. A minha vida na minha casa está a tornar-se-me fisicamente, e digamos que estou adequadamente a usar o sentido literal do termo, fisicamente repito muito difícil.
Vivo sinalizado por ti, de alguma forma. Isto ASSIM não pode continuar.
O que vou decidir? Não sei. Não sei. Não sei!
Claro que isto não é uma carta nem é nada. Claro que agora agora bebo cada milímetro de ar que respiras. Claro que já vivi demasiado para saber o falível de todas estas coisas. Este milhar de coisas que me falta fazer contigo. Milhar, digo, mais! Podemos cair nas palavras de caca? Adoro-te e mais alguma coisa. E preciso de não te ver durante uns tempos. Que tempos serão estes? Se calhar ficarei à espera de um sinal, um qualquer sinal que marque o sentido, um sentido para estas coisas que me estão a acontecer. Sinal que não vai acontecer, eu sei. Eu já vi este filme, pagando bilhetes a preços variados, em variadas companhias. Sim, eu sei, à segunda é mais barato. Segunda-feira, queria eu dizer. Cara amiga, também, a partir de agora vamos entrar em sessão contínua.
Teu
sábado, 8 de maio de 2010
Das refeições
Pequeno almoço, almoço: repetidamente. Lanche, jantar, ceia: colocar um visto, pois já houve. Que refeição fica a faltar?
Trinta anos
Há trinta anos Rua Heliodoro Salgado, s/n, 3880 Ovar. Se calhar também acordado e a combater demónios não tão díspares como possa parecer. Difíceis tempos os meus. Tardia adolescência, tardia aprendizagem. De tudo escasso. Fome perene. O 10º ano foi um ano relativamente calmo, do que me lembro. Para os meus pais acho que não. Mas já confundo tudo. Discutiam. Eu também discutia. Eu detesto discutir. Eu há trinta anos estava ainda do lado de minha mãe. Hoje mal consigo ainda estar a seu lado mais que uns minutos.
Tempo de cortar
Tudo o que cresce para os lados porque não tem como crescer para cima sempre chega o momento em que chega alguém com uma podadeira e poda. Que foda!
2010
Ano de mais olhos que barriga? E para quem esta definição? Ou será chapelaria suficiente para dois embora em cada cabeça de cabeça diferentes contas se façam?
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Antecipação e Delírio
Escrevo no parque subterrâneo de Carlos Alberto. Claro, se um vem para a Baixa, mesmo que por santa obrigação, atrás teria que vir o perdigueiro...
Oh, como eu gosto desta cidade em que te persigo! Destroçada por obras e casas falidas, em ruínas, decapitadas, o Porto é sempre um caso, uma paixão que só pode ser forte e violenta. Por isso me cruzo com turistas atemorizados, espreitando os humores da cidade inexplicados nos maus manuais para eles, para turistas. Está por escrever um bom livro sobre esta Cidade. Talvez eu tente e falhe. Ao escrever sobre o Porto inevitavelmente estarei a falar de esquina sobre ti. Persigo-te há, quê, seis meses, mais? Peço desculpa pelo verbo, mas não deixa de ser exacto. Dominas-me os dias, nem tu sabes como. A tua exiguidade de estímulos defende-me aliás de uma ocupação maior ainda, de um que seria quase totalitarismo. Caminhei por estas ruas, tropeçando no péssimo piso que une os Aliados a D.João IV, subindo e admirando as novas árvores de Sáda Bandeira, rodeando o Bolhão, fotografando a Sapataria Principal para depois te mandar a prova de que, e não me canso. Sinto-me como a voltar a casa. Cada canto destruído ou renovado, cada boteco derruído ou refeito é para mim uma agradável surpresa. Ah, que delícia este caminhar, este sentir.me vivo entre estas duras e estranhas gentes! "Salsichinha Fast Food"! Deste lado uma revista ao dependuro informa-me que o Toy teve um AVC! Em frente a Ordem do Carmo tenta desmentir a alegria do Moinho de Vento, mais os seus bancos completamente arrancados. Como se chamavam aqueles armazéns em Sá da Bandeira abiaxo do Tamegão que fecharam? A Ourivesaria do Bolhão mantém-se, etc. etc.
E porém, este todo caminho que eu faço é como uma visita guiada, faço-o acompanhado. E se eu tivesse vindo à Baixa do Porto realmente sózinho e "à procura" de ninguém?
Oh, como eu gosto desta cidade em que te persigo! Destroçada por obras e casas falidas, em ruínas, decapitadas, o Porto é sempre um caso, uma paixão que só pode ser forte e violenta. Por isso me cruzo com turistas atemorizados, espreitando os humores da cidade inexplicados nos maus manuais para eles, para turistas. Está por escrever um bom livro sobre esta Cidade. Talvez eu tente e falhe. Ao escrever sobre o Porto inevitavelmente estarei a falar de esquina sobre ti. Persigo-te há, quê, seis meses, mais? Peço desculpa pelo verbo, mas não deixa de ser exacto. Dominas-me os dias, nem tu sabes como. A tua exiguidade de estímulos defende-me aliás de uma ocupação maior ainda, de um que seria quase totalitarismo. Caminhei por estas ruas, tropeçando no péssimo piso que une os Aliados a D.João IV, subindo e admirando as novas árvores de Sáda Bandeira, rodeando o Bolhão, fotografando a Sapataria Principal para depois te mandar a prova de que, e não me canso. Sinto-me como a voltar a casa. Cada canto destruído ou renovado, cada boteco derruído ou refeito é para mim uma agradável surpresa. Ah, que delícia este caminhar, este sentir.me vivo entre estas duras e estranhas gentes! "Salsichinha Fast Food"! Deste lado uma revista ao dependuro informa-me que o Toy teve um AVC! Em frente a Ordem do Carmo tenta desmentir a alegria do Moinho de Vento, mais os seus bancos completamente arrancados. Como se chamavam aqueles armazéns em Sá da Bandeira abiaxo do Tamegão que fecharam? A Ourivesaria do Bolhão mantém-se, etc. etc.
E porém, este todo caminho que eu faço é como uma visita guiada, faço-o acompanhado. E se eu tivesse vindo à Baixa do Porto realmente sózinho e "à procura" de ninguém?
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Donde que realmente
E portanto e na ausência de toda e qualquer impedimento constitui-se esta sociedade por quotas iguais.
Ora nem mais.
E que o primeiro milho, em havendo, seja dos pardais.
Ora nem mais.
E que o primeiro milho, em havendo, seja dos pardais.
LCD
Leve Caminho Devagar.
Caminho? Onde está? Onde a marcação? Leve? Como se não se ouvissem bem os meus passos, como se não fosse sempre ouvida a minha entrada em casa. Devagar, como se não tivesse já chegado o tempo de chegar.
Portanto não é tanto assim, um funeral por exemplo, leva mais gente, embora morto apenas um, em princípio...
Leve ou não leve, caminho. Velocidade incerta por não haver referência visual adequada
Caminho? Onde está? Onde a marcação? Leve? Como se não se ouvissem bem os meus passos, como se não fosse sempre ouvida a minha entrada em casa. Devagar, como se não tivesse já chegado o tempo de chegar.
Portanto não é tanto assim, um funeral por exemplo, leva mais gente, embora morto apenas um, em princípio...
Leve ou não leve, caminho. Velocidade incerta por não haver referência visual adequada
terça-feira, 4 de maio de 2010
Um provisório às vinte e duas.
O que vale um homem? Como medir? Qual o metro? Esta questão não me sai da cabeça. Levo toda uma vida aqui, agora sei. E a esta questão vou ter de responder, mais tarde ou mais cedo. Trabalho num espaço dedicado a uma patologia frequente. Acho que o meu trabalho é razoável. Podia ser melhor. É razoável. Estou casado pela segunda vez. Leva este casamento doze anos. A relação catorze anos. Tenho uma filha de onze anos. Sei neste momento muito pouco sobre este casamento. Sei que me sinto exterior a ele. Não sei bem porquê.
(...)
A Unidade tinha-me deixado muito sozinho. Sem a adulação ou a genuína amizade das pessoas mais novas que por mim passavam, o meu trabalho no hospital passou a ser terrivelmente solitário. Comecei a lamentar os tempos idos de enfermaria, os cafés do meio-da-manhã, coisas que porém realmente já tinham acabado um pouco antes de eu sair da enfermaria… Julgo que por meados de 2008 eu estava pronto para entrar, se já por lá não andava, neste processo de reequação, algures entre a depressão e a real realidade…
(...)
Lembro-me de olhar para a minha filha pelo retrovisor e ter uma vontade imensa de chorar. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não choro há muito, muito tempo.
(...)
Eu já não tinha moinhos de vento pela frente nem por trás. Considerava a maior parte das coisas pelas quais tinha lutado perdidas, ou inalcançáveis. Já tinha decidido não ser escritor suficientemente bom para merecer publicação. Tinha percebido que as minhas funções profissionais iam ser as que tinha uma dezena de anos mais, depois enfermaria, depois reforma. O doutoramento já nem era sonho distante. A fama de hipertensivista já lentamente se ia desvanecendo. O circulo de amigos ia-se perdendo mas algo se poderia fazer, achava eu. Um dia, certamente, um dia.
(...)
O problema era eu. Só podia.
E chegámos aos dias de hoje. E eu sou o quê? Faço o quê? Importo o quê? Faria falta como, se subitamente desaparecesse? Um verdadeiro enigma. Só vendo…
Por tudo isto, por todas estas faltas e penaltis falhados é que eu sinto em mim como que uma necessidade de um luto. E prolongado. Por tudo o que falhei e não consegui, por tudo o que me propus fazer e não consegui. Sei e lembro-me bem de quando comecei esta viagem, pondo eu o início no primeiro ano da faculdade ou imediatamente antes, no último ano do secundário. Que iria viver sozinho. Eu sabia. Sei hoje pouco mais do que sabia então. Estou a precisar de mais silêncio. Entrecortado talvez de muito barulho. Mas só às vezes. Silêncio. Preciso de me ouvir. O meu silêncio. Lembro bem quando melhor o ouvi, aí por meados de 1996...
(...)
Preciso também de perceber o que vão ser estes próximos vinte anos. Antes de ficar velho e começar a esperar a morte. Como vão ser? A ideia era não começar a esperar a morte já agora.
(...)
Sinto-me um palhaço. Ou pelo menos uma espécie de palhaço. Aliás, é a expressão prévia que me define: eu não sou bem nada, ando sempre lá perto, mas não sou bem aquilo! Sou uma espécie de palhaço pois a minha função é pôr toda a gente bem disposta! Falta eu, claro, mas como não estar bem disposto eu? Ora eu não tenho andado nada bem disposto. Se calhar o melhor é por-me mal disposto sozinho…
(...)
O amor “é a última, a nunca comprovada e mais importante das hipóteses”. É. Nesta fase eu não estou para amar ninguém, acho. É aliás justo.
Valho a pena viver? E como? E quanto? Eis as perguntas.
(...)
(...)
A Unidade tinha-me deixado muito sozinho. Sem a adulação ou a genuína amizade das pessoas mais novas que por mim passavam, o meu trabalho no hospital passou a ser terrivelmente solitário. Comecei a lamentar os tempos idos de enfermaria, os cafés do meio-da-manhã, coisas que porém realmente já tinham acabado um pouco antes de eu sair da enfermaria… Julgo que por meados de 2008 eu estava pronto para entrar, se já por lá não andava, neste processo de reequação, algures entre a depressão e a real realidade…
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Lembro-me de olhar para a minha filha pelo retrovisor e ter uma vontade imensa de chorar. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não choro há muito, muito tempo.
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Eu já não tinha moinhos de vento pela frente nem por trás. Considerava a maior parte das coisas pelas quais tinha lutado perdidas, ou inalcançáveis. Já tinha decidido não ser escritor suficientemente bom para merecer publicação. Tinha percebido que as minhas funções profissionais iam ser as que tinha uma dezena de anos mais, depois enfermaria, depois reforma. O doutoramento já nem era sonho distante. A fama de hipertensivista já lentamente se ia desvanecendo. O circulo de amigos ia-se perdendo mas algo se poderia fazer, achava eu. Um dia, certamente, um dia.
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O problema era eu. Só podia.
E chegámos aos dias de hoje. E eu sou o quê? Faço o quê? Importo o quê? Faria falta como, se subitamente desaparecesse? Um verdadeiro enigma. Só vendo…
Por tudo isto, por todas estas faltas e penaltis falhados é que eu sinto em mim como que uma necessidade de um luto. E prolongado. Por tudo o que falhei e não consegui, por tudo o que me propus fazer e não consegui. Sei e lembro-me bem de quando comecei esta viagem, pondo eu o início no primeiro ano da faculdade ou imediatamente antes, no último ano do secundário. Que iria viver sozinho. Eu sabia. Sei hoje pouco mais do que sabia então. Estou a precisar de mais silêncio. Entrecortado talvez de muito barulho. Mas só às vezes. Silêncio. Preciso de me ouvir. O meu silêncio. Lembro bem quando melhor o ouvi, aí por meados de 1996...
(...)
Preciso também de perceber o que vão ser estes próximos vinte anos. Antes de ficar velho e começar a esperar a morte. Como vão ser? A ideia era não começar a esperar a morte já agora.
(...)
Sinto-me um palhaço. Ou pelo menos uma espécie de palhaço. Aliás, é a expressão prévia que me define: eu não sou bem nada, ando sempre lá perto, mas não sou bem aquilo! Sou uma espécie de palhaço pois a minha função é pôr toda a gente bem disposta! Falta eu, claro, mas como não estar bem disposto eu? Ora eu não tenho andado nada bem disposto. Se calhar o melhor é por-me mal disposto sozinho…
(...)
O amor “é a última, a nunca comprovada e mais importante das hipóteses”. É. Nesta fase eu não estou para amar ninguém, acho. É aliás justo.
Valho a pena viver? E como? E quanto? Eis as perguntas.
(...)
segunda-feira, 3 de maio de 2010
14ª cefaleia
"Porque afinal nunca soubeste, ou melhor, nunca soubeste bem, que é pior ainda. Sempre ao lado, pobre rapaz, por pouco, mas sempre a rematar ao lado. E como era por pouco nunca te decidiste a mudar o tipo de remate, sua potência, a forma de pegar com o pé na bola..."
A humilhação de assim se ter visto submetido a um imaginário futebolístico era dupla. Ou não, mas era sim muito eficaz.
A humilhação de assim se ter visto submetido a um imaginário futebolístico era dupla. Ou não, mas era sim muito eficaz.
12ª cefaleia.
No fim-de-semana acontece também que há a família, e que a família pede presença. Aí é-me difícil imitar o que completamente desconheço. Lembro que mesmo em dias de fino convívio a família era como que o espaço exterior, a cintura de asteróides para exploração dentro de séculos, não para nós evidentemente. Não, nada sei sobre a tua família. Mas porém assumo, pelo pendular de alguns movimentos, pelo recitar das horas dominicais que vou anotando, que a familia acontece, não só mas mais ao fim de semana. Assim faço portanto também, remato as medidas de higiene da Cefaleia, meto-a no carro e dedico umas horas a monosilabicas e ou circunstanciais conversas com os meus pais, sendo o tempo fatiado e a baixa política partida em rodelas. Como como não como durante a semana, pois em casa de meus pais micro-ondas é palavra e objecto ausentes. Também o diálogo não se estende às minhas recentes e estranhas rotinas, desistiram eles há muito de me entender, condicionar, dar sequer alguma sugestão sobre um sentido ou uma direcção de vida. "Estás bem filho?" "Estou óptimo!", respondo. E salto da Economia para o Desporto. "E a tua roupa?" "Tenho-a vestida!"
E agora o umbigo.
É costume dizer-se que está um palmo acima. É minha opinião que está onde deve estar. Área eleita de diversão, se deitado horizonte, se na vertical entalhe. Porque sabemos sua origem parece que dali tudo nasce e parte. Mas também pode ser estação de recolha, ou pelo menos apeadeiro. Não, um umbigo assim não é para se ficar indiferente.
sábado, 1 de maio de 2010
Outra coisa
Outra coisa a cartilagem. Da orelha.
Assimétrica preensão portanto
de um e outro lóbulo de uma e outra
orelha. Que à direita a ceder, que à
esquerda maior resistência.
Cartilagem, termo gastronómico.
E falamos da sua ausência, ficando
apenas pele e tecido.
Que removido o tecido...
Assimétrica preensão portanto
de um e outro lóbulo de uma e outra
orelha. Que à direita a ceder, que à
esquerda maior resistência.
Cartilagem, termo gastronómico.
E falamos da sua ausência, ficando
apenas pele e tecido.
Que removido o tecido...
Descalça
Um dia gostaria que viesses ter comigo descalça.
Pode-se dizer que seria um começo, em mais sentidos do que um,
ou num apenas,
um começo. E ficaria talvez de uma vez esclarecido
afinal quem é que de nós tem mais garra.
Pode-se dizer que seria um começo, em mais sentidos do que um,
ou num apenas,
um começo. E ficaria talvez de uma vez esclarecido
afinal quem é que de nós tem mais garra.
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