sexta-feira, 7 de maio de 2010

Antecipação e Delírio

Escrevo no parque subterrâneo de Carlos Alberto. Claro, se um vem para a Baixa, mesmo que por santa obrigação, atrás teria que vir o perdigueiro...
Oh, como eu gosto desta cidade em que te persigo! Destroçada por obras e casas falidas, em ruínas, decapitadas, o Porto é sempre um caso, uma paixão que só pode ser forte e violenta. Por isso me cruzo com turistas atemorizados, espreitando os humores da cidade inexplicados nos maus manuais para eles, para turistas. Está por escrever um bom livro sobre esta Cidade. Talvez eu tente e falhe. Ao escrever sobre o Porto inevitavelmente estarei a falar de esquina sobre ti. Persigo-te há, quê, seis meses, mais? Peço desculpa pelo verbo, mas não deixa de ser exacto. Dominas-me os dias, nem tu sabes como. A tua exiguidade de estímulos defende-me aliás de uma ocupação maior ainda, de um que seria quase totalitarismo. Caminhei por estas ruas, tropeçando no péssimo piso que une os Aliados a D.João IV, subindo e admirando as novas árvores de Sáda Bandeira, rodeando o Bolhão, fotografando a Sapataria Principal para depois te mandar a prova de que, e não me canso. Sinto-me como a voltar a casa. Cada canto destruído ou renovado, cada boteco derruído ou refeito é para mim uma agradável surpresa. Ah, que delícia este caminhar, este sentir.me vivo entre estas duras e estranhas gentes! "Salsichinha Fast Food"! Deste lado uma revista ao dependuro informa-me que o Toy teve um AVC! Em frente a Ordem do Carmo tenta desmentir a alegria do Moinho de Vento, mais os seus bancos completamente arrancados. Como se chamavam aqueles armazéns em Sá da Bandeira abiaxo do Tamegão que fecharam? A Ourivesaria do Bolhão mantém-se, etc. etc.
E porém, este todo caminho que eu faço é como uma visita guiada, faço-o acompanhado. E se eu tivesse vindo à Baixa do Porto realmente sózinho e "à procura" de ninguém?

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