O que vale um homem? Como medir? Qual o metro? Esta questão não me sai da cabeça. Levo toda uma vida aqui, agora sei. E a esta questão vou ter de responder, mais tarde ou mais cedo. Trabalho num espaço dedicado a uma patologia frequente. Acho que o meu trabalho é razoável. Podia ser melhor. É razoável. Estou casado pela segunda vez. Leva este casamento doze anos. A relação catorze anos. Tenho uma filha de onze anos. Sei neste momento muito pouco sobre este casamento. Sei que me sinto exterior a ele. Não sei bem porquê.
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A Unidade tinha-me deixado muito sozinho. Sem a adulação ou a genuína amizade das pessoas mais novas que por mim passavam, o meu trabalho no hospital passou a ser terrivelmente solitário. Comecei a lamentar os tempos idos de enfermaria, os cafés do meio-da-manhã, coisas que porém realmente já tinham acabado um pouco antes de eu sair da enfermaria… Julgo que por meados de 2008 eu estava pronto para entrar, se já por lá não andava, neste processo de reequação, algures entre a depressão e a real realidade…
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Lembro-me de olhar para a minha filha pelo retrovisor e ter uma vontade imensa de chorar. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não choro há muito, muito tempo.
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Eu já não tinha moinhos de vento pela frente nem por trás. Considerava a maior parte das coisas pelas quais tinha lutado perdidas, ou inalcançáveis. Já tinha decidido não ser escritor suficientemente bom para merecer publicação. Tinha percebido que as minhas funções profissionais iam ser as que tinha uma dezena de anos mais, depois enfermaria, depois reforma. O doutoramento já nem era sonho distante. A fama de hipertensivista já lentamente se ia desvanecendo. O circulo de amigos ia-se perdendo mas algo se poderia fazer, achava eu. Um dia, certamente, um dia.
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O problema era eu. Só podia.
E chegámos aos dias de hoje. E eu sou o quê? Faço o quê? Importo o quê? Faria falta como, se subitamente desaparecesse? Um verdadeiro enigma. Só vendo…
Por tudo isto, por todas estas faltas e penaltis falhados é que eu sinto em mim como que uma necessidade de um luto. E prolongado. Por tudo o que falhei e não consegui, por tudo o que me propus fazer e não consegui. Sei e lembro-me bem de quando comecei esta viagem, pondo eu o início no primeiro ano da faculdade ou imediatamente antes, no último ano do secundário. Que iria viver sozinho. Eu sabia. Sei hoje pouco mais do que sabia então. Estou a precisar de mais silêncio. Entrecortado talvez de muito barulho. Mas só às vezes. Silêncio. Preciso de me ouvir. O meu silêncio. Lembro bem quando melhor o ouvi, aí por meados de 1996...
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Preciso também de perceber o que vão ser estes próximos vinte anos. Antes de ficar velho e começar a esperar a morte. Como vão ser? A ideia era não começar a esperar a morte já agora.
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Sinto-me um palhaço. Ou pelo menos uma espécie de palhaço. Aliás, é a expressão prévia que me define: eu não sou bem nada, ando sempre lá perto, mas não sou bem aquilo! Sou uma espécie de palhaço pois a minha função é pôr toda a gente bem disposta! Falta eu, claro, mas como não estar bem disposto eu? Ora eu não tenho andado nada bem disposto. Se calhar o melhor é por-me mal disposto sozinho…
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O amor “é a última, a nunca comprovada e mais importante das hipóteses”. É. Nesta fase eu não estou para amar ninguém, acho. É aliás justo.
Valho a pena viver? E como? E quanto? Eis as perguntas.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
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