Pediram-me este testemunho, aqui estou.
Comecei a reparar neles aí por Setembro, Outubro do ano passado. Tomavam pequeno-almoço juntos. Primeiro sentados dentro, depois no exterior daquele estabelecimento quem vai para o hospital. Ele sempre com um travo nervoso no gesto, ela não, ela sempre muito bem, muito natural, exercendo as suas prerrogativas de descomprometida, como se apenas calhasse estar ali. De coincidência passaram a ser algo mais, com o tempo. Algo de não muito definido mas, sim, havia algo mais. Foi engraçado porque onde eles se sentavam começaram a sentar-se mais pessoas, o que não acontecia antes. De vez em quando acontecia uma interrupção e podia ela vir sózinha, ele não. Este tipo de comportamento definia logo ali quem estava por quem e para quê, esqueçamos aqui e já que ele por aliança se via casado, ela não. Ele voltava, ela perguntava-lhe "que tal as férias?". Depois houve uma fase em que me pareceu que ele lhe queria dar coisas, muitas coisas, quase todos os dias. E ela chateava-se, perdia a naturalidade tão sua, o lento desenvolver de quem preferia não ter acordado mas. Não se zangava mas sabia dizer não. E dizia. Passou o ano e a coisa seguiu. Disseram-me - porque algo se comentava - que também almoçavam juntos. Notei que ele mudara um pouco. Que andava mais depressa. Que levantava mais os ombros, que às vezes olhava o mundo e tudo em redor como se em desafio. Outras vezes não, e era com se carregasse um peso enorme. Ela também mudara um pouco, como se algum do nervosismo dele lhe tivesse sido passado por transfusão. Mudaram também de sítio para tomar o pequeno-almoço. Ele comprava o jornal e quase lho atirava, flores seriam na sua cabeça. Percebi que ela queria demorar menos - problemas no trabalho? Não se via presa, contrariada, aborrecida com o companheiro. Um pouco tensa sim. O ritual diário mantinha-se, pequeno e grande almoço, para este passava ele a jacto todos os dias pouco depois da uma, cruzando a praça da alimentação do centro comercial, ia comer com ela à universidade em frente. Como nada mais acontecia ali e não se observava evolução adicional - nenhum acréscimo de familiaridade, nenhuma alteração nos adereços de compromisso oficial - só posso supôr que eventualmente ao fim destes meses todos, algo mais deve ter acontecido fora desta dicotomia pequeno-almoço/almoço. Algo mais mas que nada deve ter definido, ou adiantado, ou destruido. E porém esta estranha e mínima relação, este esquema, esta "estranha forma de vida", esta fina ligação, era agora, parecia-me, também muito valorizada por ela. Se ele por pouco se atrasava logo ela desatava a mandar-lhe mensagens no telemóvel, rodando os olhares e suspirando a meia-de-leite que se consumia sem companhia. E censurava-o quando ele chegava. Avisava-o do tempo de antena curto que lhe restava. A ele de aplicar-se. Posso dizer que eram porém ali às vezes felizes, embora noutras ocasiões me parecessem dois animais acossados, nem mais. Havia dias em que acabavam a rir desalmadamente um com o outro, e não creio que fosse só por querer, pareceram-me mais exigentes do que isso. Por minutos divertiam-se imenso. Invejava-os. Outros dias quase nada acontecia, partilhando os dois um aborrecimento monumental com o mundo. Curiosamente a palavra fidelidade vinha-me à cabeça quando os via. E passaram-se - quê? - mais de seis meses.
Um dia o pequeno-almoço foi mais curto. Ele chegou e entregou-lhe o jornal mas não buscou nada para tomar, sentando-se logo. Fiquei de olho. Disse o que terá dito e logo ela levantou-se, alterada. As coisas que se dizem em voz baixa são as que fazem rodar o mundo. Ou parar. E assim rodou cada um para seu lado. Foi ele que começou a rasgar, mas o puxão final deu-o ela, foi o que me pareceu. Digo final porque não mais os voltei a ver juntos, disseram-me que também não voltaram a almoçar, juntos digo.
Ele vem tomar qualquer coisa quase todos os dias, lê o jornal, mostra-se, vai-se embora. Vem marcar o lugar.
Gostaria que esta história não ficasse por aqui. Tantos meses com tamanha ausência de maldade espantou-me, espantava-me. Mas, claro, isto não está nas minhas mãos, está nas deles.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
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