domingo, 27 de junho de 2010

Uma história plebeia acontecida no Marquês.

Há momentos na vida que deviam permanecer suspensos e intocáveis, não se admitindo um depois, todas essas coisas que a seguir se desencadeiam e assustam, estragam, degradam o esse momento, tempo mais alto onde estivemos e donde não gostaríamos nunca de ter saído. O antes sendo apenas um prefácio elegíaco e antecipatório.
Assim foi e aconteceu quando e e C. descemos do 79 em Março de 1983 para passear um pouco no Marquês e acabámos por sentarmo-nos num dos bancos de jardim que por ali há. Costas voltadas para um café cujo dono é hoje meu doente e a quem eu também já há alguns anos tirei as ideias de matar a esposa por sonhada infidelidade. Visita semestral, nunca ele teve oportunidade de me oferecer um café que seja, os mais loucos que eu atrapalham-me, se não mansos, e ele pensou em esfaquear quem nunca tão pouco conhecerei. O banco era virado a poente, não me lembro se existia muito sol, não me lembro de demasiada luz.
As mãos. Continua a ser um compromisso especial, a mão que se dá a outra e assim repousa, encontra, indaga. Não vou mentir ao antes escrito e expor como este dia não foi posteriormente cumprido. Como a promessa de misteriosas forças – que todos sabemos existirem – ultrapassarem a barragem universal que nos impede, um e outro e outro dia, de apenas termos esta pequena altura e menos ainda, tão frequente vivemos ajoelhados, não se cumpriu. Ora sucede que de leituras então não muito antigas em revistas femininas de casa, eu por curiosidade tinha adquirido bom saber sobre as linhas da palma da mão. Conseguia dar-lhes nomes e não apenas, algum relevo tinha também direito a designação outra, bem como acidentes, cortes, cruzamentos, depressões. A partir daqui podia-se construir toda uma vida, as suas linhas eram chamadas, nada como pegar numa mão e aplicar a teoria numa prática que era algo de diferente, o tocar a coisa amada, electricidade. Diz-se desta como estática, eu discordo. Já não me lembro das aulas da física o porquê do nome, mas eu sei que as cargas que se transmitem por pequenos e leves toques, por ex. de dedos, podem correr mundo, ou chegar ainda mais longe, ao mais extremo oposto do corpo tocado ou à sua margem mais íntima.
A leve carga foi sendo transmitida, e o primeiro de outros contos foi contado e corrigido, sendo que o enredo já o perdi, bem como o saber dessas tais linhas, era Março e o meu aniversário estava por acontecer. Despedida C. em paragem de autocarro que descia a Constituição - o 20? -, desci eu Camões a cumprimentar todo e cada um dos traseuntes e oferecendo-lhes de uma bola de berlim que ia comendo, então a minha confeitaria preferida. Recebi dias depois bem desenhado lenço como prenda de aniversário. Mas, cá está, fujo ao que prometi, já foi o lenço depois, não conta, não interessa, embora não o tenha perdido e ache que ainda sobrevive algures por pouco uso, mais importa o ter eu perdido a certeza da data – quinze? – e menos ainda saber distinguir entre a linha da vida e a linha do coração ou do amor, isto sim não um momento mas um resumo de estes anos todos que àquela tarde no Marquês se sucederam.

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