As palavras já não me assistem como antigamente. Não me defendem nem me protegem. Assim estou, sem protecção nem defesa. Nem precisarei visto não estar sob qualquer tipo de ataque. E o facto de não estar reside noutro andar, ou na falta do mesmo. Custa-me exactamente andar, por aqui ou por ali, sempre vem a pergunta acusatória "o que fazes aqui, meu? Que estás por aqui a fazer?" Então opto por conduzir a minha cápsula espaço-tempo quilómetros sobre quilómetros, numa, sim é verdade, conversa circular comigo mesmo. Conheço-as demasiado bem, as palavras. Já não me surpreendem. Já nada me surpreende. Minto. Hoje vinha e uma canção emocionou-me de uma forma particular, como já não acontecia há anos. Chega o cinismo vital que me rege a erguer este monstro que é a comoção e ao mesmo tempo um sorriso interno pela mesma, eis uma pequena surpresa. Por rima, da "pequena morte" não vou falar, pois esta que enfrento é um pouco ao lado e maior, embora a(s) dita(s), em doses judiciárias pudessem aplacar o fogo, cortar o mato, dissuadir a catástrofe de assaltar o verão que se aproxima. Mas não, não vai haver "pequenas mortes" que te salvem, amigo. E o cão foi dado, e é uma cadela. Que faço aqui? Não sei, juro que não sei. Sei que não queria estar onde antes ia, e realmente os meus tempos ali eram como raides a um outro mundo, onde um diáfano brilho matinal com alteração de circadianos torcia qualquer sensação de vida real que se pudesse ter. Parecia sempre de manhã e que havia direito a torradas. Nem que chovessem picaretas. E chovem, oh se chovem. E as torradas eram sempre boas. E todos sabemos como ao cair a manteiga fica sempre para cima.
Se o que escrito levo faz algum sentido, que não faz, serve apenas para demonstrar como não posso andar a caminhar "por aí". Caminhar implica um sentido, ou pior ainda, uma direcção. Se hesitas vários olhares logo te questionam sobre a direcção que levas ou que procuras. Suspeitam. Interrogam-se. Estou velho para estas merdas. E porém fui especialmente equipado para o sol e suas cores, para o vento e suas correntes, para o fogo e seus intervalos.
E para o silêncio incandescente, o que hoje não é bem o caso.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
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