Quando o trânsito intestinal se torna assunto, as coisas não andam bem. Mas vamos arriscar, pois disso se trata.
Posso dizer que tive uma infância e uma adolescência obstipadas. Não me vou estender sobre o assunto, vou sim confessar o que foi sempre o meu espanto pela regularidade metronómica do meu pai, transitando regularmente todas as manhãs antes de ir para o emprego, sem mais. Assim foi sempre, assim é ainda, embora agora sem emprego.
Viajemos até aos aconchegos dos dias de hoje. Acrescento um facto importante: a minha dieta actual é, com frequência, bem mais mediterrânica do que já foi. Tresanda a saudável por todos os poros. Não tenho culpa: assim me é servida. E, por um lado, até gosto. Isto dos lados mereceria outra explicação. Claro que tanta verdura tinha que ceder vez a alterações substanciais na tramitação intestinal do meu expediente, já que nem por isso o Sporting tem sido campeão mais vezes, alternativa possível para uma rima em verde, cor de que falamos.
Agora uma coisa confesso: não é esta tramitação hoje mais acelerada de que falo tranquilamente silenciosa e contumaz como a de meu pai era, é, será. Acredito que, por influências do escafandro, explico, de convívios estreitos com várias variações da síndrome do cólon irritável, alguma que outra urgência colónica me tenha surgido, sido induzida por estas vizinhanças. O trânsito acontece-me hoje em dia on a daily basis but regularity unknown, e com paroxismos que podem ocasionar eventual estorvo.Lá está, plasma-se a observação no observador que não no observado.
E arrico-me eu a terminar a sessão todo cagado.
Mais um assunto sobre o qual nunca pedi opinião e ajuda ao meu pai - assim fosse e talvez ele me explicasse o mistério do metrónomo e outros mais.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Carta (fora do baralho).
"Posso ajudar-te a que gostes menos de mim!"
Lembro esta coisa antiga para melhor pensar em ti. Esta frase foi inventada para mim, só pode ter sido. Há muitos anos senti-a como veneno. E porém hoje, levo-a em consideração. Dou os obrigados passos atrás, ganho a difícil distância. Não acedo ao extrarádio pela simples escusa de que não me sais da cabeça. E porém encontro-me sentado a teclar estes nadas, e tenho aqui a meu lado o programa deste espectáculo onde consta o mesmo de sempre, de um passámos para a eventualidade de um segundo número, com direito a volteio e ocasional pirueta, pode até acontecer no fim um agradecimento, uma ligeira vénia. Pois, a vénia. E sempre ali os mesmos livros em saldo entre a Cinq a Sec e o centro de fotocópias. Menos não será o sinal devido. Talvez o sinal devido seja o sinal mais, talvez.
E porém uma imagem em espelho assalta-me os dedos, que escrevem.
Convinha efectivamente que eu estivesse, passasse, decidisse gostar menos de ti. Para que a distância entre o consequente ao entusiasmo não ultrapasse em milhas o que efectivamente acontecerá, porque não houve espaço para mais.
I am The Man on the Moon! No sentido de que há mesmo muitas coisas que neste momento não sei como vão ser. O não domínio já era uma palavra de ordem noutros campos, eu sei. Aqui, é mais uma extensão do que sentido vai sendo.
So, wouldn't you Fly With Me to The Moon? Eu sei que assim apanho uma desajeitada boleia do teu gosto pelo cancioneiro norte-americano, mas.. é assim que eu vejo a coisa, The Moon would be the perfect place for us! And the stars!
Bem, passemos então a engendrar um plano B.
Lembro esta coisa antiga para melhor pensar em ti. Esta frase foi inventada para mim, só pode ter sido. Há muitos anos senti-a como veneno. E porém hoje, levo-a em consideração. Dou os obrigados passos atrás, ganho a difícil distância. Não acedo ao extrarádio pela simples escusa de que não me sais da cabeça. E porém encontro-me sentado a teclar estes nadas, e tenho aqui a meu lado o programa deste espectáculo onde consta o mesmo de sempre, de um passámos para a eventualidade de um segundo número, com direito a volteio e ocasional pirueta, pode até acontecer no fim um agradecimento, uma ligeira vénia. Pois, a vénia. E sempre ali os mesmos livros em saldo entre a Cinq a Sec e o centro de fotocópias. Menos não será o sinal devido. Talvez o sinal devido seja o sinal mais, talvez.
E porém uma imagem em espelho assalta-me os dedos, que escrevem.
Convinha efectivamente que eu estivesse, passasse, decidisse gostar menos de ti. Para que a distância entre o consequente ao entusiasmo não ultrapasse em milhas o que efectivamente acontecerá, porque não houve espaço para mais.
I am The Man on the Moon! No sentido de que há mesmo muitas coisas que neste momento não sei como vão ser. O não domínio já era uma palavra de ordem noutros campos, eu sei. Aqui, é mais uma extensão do que sentido vai sendo.
So, wouldn't you Fly With Me to The Moon? Eu sei que assim apanho uma desajeitada boleia do teu gosto pelo cancioneiro norte-americano, mas.. é assim que eu vejo a coisa, The Moon would be the perfect place for us! And the stars!
Bem, passemos então a engendrar um plano B.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Zelig IV
Ando ultimamente a dormir pior. Nunca tive problemas em adormecer. Até estes últimos meses. Ocasionalmente, em tempos de maior stress, incerteza, peso, ou até descompressão, ou paradoxalmente o que afinal era o contrário, uma enorme dor de cabeça ocupava-me a noite, e aí não dormia. Não dormia até que o grama de paracetamol ou de aspirina, ou a sua combinação, mais o sentar e a sedação televisiva, tudo isto em conjugação progressiva e lenta, fizesse o seu efeito. Uma noite espaçada por um mês ou meses.
A minha mãe toma lorazepam para adormecer desde que a conheço como mãe. A dose nunca foi subida nem descida excepcionalmente, e tem variado com a vária vida que ela tem tido. Agora cuidada por gente mais da área, outras medicações alijarão as costas do lorazepam do esforço completo, mas pode-se dizer que há quarenta anos que a minha mãe não dorme sem a ajuda de fármacos. Um elogio ao fármaco, até aí podemos ir. Pertence ela aquele grupo de mulheres que ocasionalmente proclama o fenómeno estranho de “não dormir há uma semana, ou mais”!... Podemos assumir que estivémos a falar de um tirocínio para conversas posteriores. Todos os meus esforços para a redução desta dependência enquanto nova/novo foram em vão. E possívelmente desnecessários.
Convivo a nível laboral com quem dorme mal. Podemos seguir muitas pistas sobre o porque a minha antiga e distante amiga (e chefe) dorme mal. Fala-se de exageros medicamentosos. Conjura-se uma rinosinusite com pólipos de difícil estabilização mas, ah!, sobre isto falaremos (também) outro dia! Assumo que tudo junto e fatiado esta minha amiga levará sempre para o leito que é como quem diz a noite, uma e a mesma coisa, um desgosto que em grande parte será o de um mundo perfeito cinzelado a metal que ela queria que fosse mesmo assim e não é. Outras hipóteses se colocam, mas por aí não irei, por sumo respeito e vasta ignorância.
Mas há outro tipo de insónia, e esta partilharei com outra conviva, ao de leve, tangencialmente, ou mais do que isso. A de um tempo que se pede extra de despertar e acicate quando a hora já é adiantada e o ferver do dia soube a pouco, e as contas não batem certo, e as histórias começam a cruzar-se, o sonho, as palavras mágicas, caruma, restolho, algodão em rama, zigurate, que porém chocam com palavras outras remetidas do mau dia que foi sendo, e nunca mais vem aquele tapete voador prometido. Não vem, mas esperamos sempre.
A minha mãe toma lorazepam para adormecer desde que a conheço como mãe. A dose nunca foi subida nem descida excepcionalmente, e tem variado com a vária vida que ela tem tido. Agora cuidada por gente mais da área, outras medicações alijarão as costas do lorazepam do esforço completo, mas pode-se dizer que há quarenta anos que a minha mãe não dorme sem a ajuda de fármacos. Um elogio ao fármaco, até aí podemos ir. Pertence ela aquele grupo de mulheres que ocasionalmente proclama o fenómeno estranho de “não dormir há uma semana, ou mais”!... Podemos assumir que estivémos a falar de um tirocínio para conversas posteriores. Todos os meus esforços para a redução desta dependência enquanto nova/novo foram em vão. E possívelmente desnecessários.
Convivo a nível laboral com quem dorme mal. Podemos seguir muitas pistas sobre o porque a minha antiga e distante amiga (e chefe) dorme mal. Fala-se de exageros medicamentosos. Conjura-se uma rinosinusite com pólipos de difícil estabilização mas, ah!, sobre isto falaremos (também) outro dia! Assumo que tudo junto e fatiado esta minha amiga levará sempre para o leito que é como quem diz a noite, uma e a mesma coisa, um desgosto que em grande parte será o de um mundo perfeito cinzelado a metal que ela queria que fosse mesmo assim e não é. Outras hipóteses se colocam, mas por aí não irei, por sumo respeito e vasta ignorância.
Mas há outro tipo de insónia, e esta partilharei com outra conviva, ao de leve, tangencialmente, ou mais do que isso. A de um tempo que se pede extra de despertar e acicate quando a hora já é adiantada e o ferver do dia soube a pouco, e as contas não batem certo, e as histórias começam a cruzar-se, o sonho, as palavras mágicas, caruma, restolho, algodão em rama, zigurate, que porém chocam com palavras outras remetidas do mau dia que foi sendo, e nunca mais vem aquele tapete voador prometido. Não vem, mas esperamos sempre.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Zelig V
Tudo isto era para ter sido escrito há uns bons meses. Comecei então por rever o filme “Zelig”, de Woody Allen, onde este interpreta um rapaz possuidor da notável capacidade de mimetizar não o meio mas as pessoas de que se rodeia. A interpretação psicanalítica era óbvia e oferecida como bystand pelo filme, onde brilhava o então glorioso par Allen-Farrow, esta a psiquiatra. Feliz ou infelizmente o chamado efeito-Zelig tem-me atacado nos últimos tempos e recebeu recentemente um acelerar que me preocupa. Desde há dois-três dias tenho uma dor lombar central, quase contínua embora ondulante de intensidade e que acresce com períodos prolongados de erecção, digo, estar de pé. Se a interpretação passa por um mimetismo do filme acima logo há que apontar o feixe luminoso para a lombalgia mais próxima. Neste caso não foi difícil. Nesta sala de cinema os espectadores são poucos, melhor dito, são dois. Porém, eu comecei por afirmar que já há uns meses andava eu para escrever sobre esta história do Zelig, não é? Pois começo pelo último episódio, e enquanto passam os créditos e antes de que a malta – os dois de que falo – se levantem, reitero de que há episódios anteriores e, em marcha-atrás deles falarei adiante.
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