Sexta feira é o dia em que preparamos, tu e eu, o fim-de-semana. E este, mais que os dias, é três noites, três longas noites. Sendo que a terceira tem características autónomas. Mas aí já chegaremos.
Tu e eu vamos ao Blockbuster mais próximo e alugamos alguns filmes para o fim-de-semana que se aproxima. Conhecendo eu agora os teus horários, não coincidimos. Conhecendo eu os teus hábitos de visionamento, escolho sempre filmes que, assumo, não verás ou já terás visto bastante. Acredito que hoje por hoje somos, eu e tu, os melhores clientes da loja de Blockbuster de que falo. Não entendo como vão falir.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Acordo, não acordo.
Acordo, não acordo. Os dentes para depois da primeira bebida, Matinal. Que foi aquecida. Ainda o vento não protagoniza o dia, a soprada chuva. Nova camisa, a cara lavada. Que não a barba. Não, não quero outra torrada. Levo e trago uma futura figura do meio musical português. Volto e vamos. Cavalos que se recusam trabalhar, mas é sábado, sabiam? Mais um pato trucidado ao almoço. Água. Corrijo, estava bom. E depois? Um pião na saída para Leça, em uma hora chega a polícia, não sabem de mim, distraídos. Nunca sou eu o homem que vai preso. Os eucaliptos aguentam. Bandeiras de espuma no mar encapelado, a religião a sublimar a tempestade que nem por isso. As compras do mês de toda a gente, o telefonema preventivo, antes. Palmeiras anãs aguentam. Imóvel a ponte móvel. A pouca surpresa de todo o lixo à porta de casa, decidiu o vento que não era para reciclar hoje, os contentores derrubados. Lembras-te ainda de ontem? Subir, que é sempre o princípio do fim. Um pinheiro de brincar caiu, confortá-lo. Voam pratos e chove fininho. Bombeiros e um banho. Lentamente a humidade fecha a porta. Por duas vezes pensei comprar um kit de magia, comércio português para uma ilusão feliz. Não comprei. Cinco filmes cinco? Como as refeições que recomendam, as nunca feitas coisas correctas para uma longa vida, puta que pariu a longa vida. Quatro anos tinha e a publicidade que mais me fascinava era aquela dos cigarros muito mas muito compridos no Século Ilustrado. E falta a merenda, talvez um filme infantil, nenhuma discussão por mais breve, vários níveis de silêncio para sobremesa. Ou vá de criticar as pessoas do costume, enrolar uma que outra história e criar a cortina de fumo que a hora está a pedir. Contacto, chegou a hora do filme. Não fujo, não posso fugir. Não há palavra que não se desdobre em duas, agora reparo. Falo das encomendas para as quais não chego, e ganho a súbita certeza que já alguém me encomendou a alguém. Que hoje se descer a corrigir o estacionamento do carro ou depositar o lixo em local propício para que o vento o desate, receberei um tiro. O primeiro sorriso do dia. Mas não. O congelador está preenchido com a repetição de um aviário oferecido, como podes tu continuar a congelar o coração? Cala-te, caralho! Vejamos, haverá um momento Bach, e um que outro exercício de distensão atmosférica. A roupa lá fora, colisões assumidas dentro. As compras, arrumá-las. Poucos euros para catorze itens. Músculos a trabalhar, tensão que não termina. E sobre o estirador a folha em branco. A circunstância de Ortega y Gasset assombra a casa e conduz os diálogos a bom porto, apesar do número de barras fechadas no país ser elevado. Há sempre uma solução, que é o tempo que progride, a mão que fechada pende e cede. Já é noite e está quase.
E tu, que fazes tu aqui? Não te despedes, não dizes até amanhã? É suficiente lenitivo afirmar que sou eu a pedir-te que fiques e comas comigo a mesma refeição? Um beijo, deixa-te estar, serve-te. Reparo que a sopa está líquida e junto-lhe pão.
E tu, que fazes tu aqui? Não te despedes, não dizes até amanhã? É suficiente lenitivo afirmar que sou eu a pedir-te que fiques e comas comigo a mesma refeição? Um beijo, deixa-te estar, serve-te. Reparo que a sopa está líquida e junto-lhe pão.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
8ª Cefaleia.
Duas vezes por semana vou fazer compras contigo.
Antigamente pouca vezes tinhamos juntos ido "desfazer dinheiro em compras". A expressão era minha. Só recentemente percebi como o acto de comprar pode ser revelador sobre a personalidade de alguém. Comecei portanto o ano passado a seguir-te a prudente distância, verificando comportamentos, anotando feições. Percebi portanto que pouco paravas nas montras, entrando logo a seguir. Uma vez no interior da loja tocavas, medias, comparavas, sempre algo insatisfeita com alguma coisa. Percebi finalmente que compravas muito menos do que o prometido. Bastante menos do que eu antigamente pensava. Fui acumulando referências, nomes, detalhes. Adquiri como meus raciocínios que antes me eram completamente espúrios. E agora repito trajectos e também caras e caretas; aprecio, peso, pergunto medidamente este ou aquele produto. E compro. Três meses depois coloco-os à venda no eBay, e consigo o ocasional lucro que o aleatório de todos estes negócios pode permitir.
Antigamente pouca vezes tinhamos juntos ido "desfazer dinheiro em compras". A expressão era minha. Só recentemente percebi como o acto de comprar pode ser revelador sobre a personalidade de alguém. Comecei portanto o ano passado a seguir-te a prudente distância, verificando comportamentos, anotando feições. Percebi portanto que pouco paravas nas montras, entrando logo a seguir. Uma vez no interior da loja tocavas, medias, comparavas, sempre algo insatisfeita com alguma coisa. Percebi finalmente que compravas muito menos do que o prometido. Bastante menos do que eu antigamente pensava. Fui acumulando referências, nomes, detalhes. Adquiri como meus raciocínios que antes me eram completamente espúrios. E agora repito trajectos e também caras e caretas; aprecio, peso, pergunto medidamente este ou aquele produto. E compro. Três meses depois coloco-os à venda no eBay, e consigo o ocasional lucro que o aleatório de todos estes negócios pode permitir.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
7ª Cefaleia.
Assumo que sonho agora pouco contigo. As minhas noites são calmas e tranquilas. Cismo um bocado, mas de dia. Sendo que a palavra suscita-me considerações historicistas - O Grande Cisma, etc. - e daí derivações sobre aquele momento em que discordei de ti. Sem razão, dizias. E sem pena desapareceste. "Quem é ele?" Rias e disparatadamente, até as lágrimas te virem aos olhos, rias, mas não comigo, e um abcesso abria e revia pús entre o coração e o estômago, aproximadamente. Isto tinha que envolver o diafragma e distorcer abundantemente o esófago, enfim, tudo deixava de funcionar. E dizias o nome dele, já nem me lembro quem era, e encolhias os ombros: "ora pensa lá se isto tem lógica...", e continuavas a rir. Como eu gostava que o teu riso fosse à minha frente e por mim, as lágrimas de riso um sinal de sucesso, era cada vez mais difícil o sucesso entre nós. Tinha uma agenda onde anotava os dias bons, uma agenda cada vez mais despovoada. Naquele dia tracei um risco. Terias razão no que dizias e eu sabia, sabia, mas era superior às minhas forças.
Lembro que antigamente as leiteiras falsificavam o leite com urina, elas próprias urinavam para dentro dos recipientes, assim constava. Acho que a urina não adulterava o pH ou a densidade do leite, e os fiscais não reparavam. Durante algum tempo assim fizeste com a nossa relação, intenção mais benigna que a das leiteiras de então, acredito. Um belo dia porém de bexiga vazia decidiste cortar cerce o cancro: "não te aguento mais!".
Lembro que antigamente as leiteiras falsificavam o leite com urina, elas próprias urinavam para dentro dos recipientes, assim constava. Acho que a urina não adulterava o pH ou a densidade do leite, e os fiscais não reparavam. Durante algum tempo assim fizeste com a nossa relação, intenção mais benigna que a das leiteiras de então, acredito. Um belo dia porém de bexiga vazia decidiste cortar cerce o cancro: "não te aguento mais!".
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
4ª cefaleia.
Tenho tomado mais café ultimamente e com um único objectivo: não dormir. Sei que dormes mal. Do pouco que conversámos julguei adquirir os teus hábitos televisivos. A minha relação com o rectângulo que ilumina e adormece tem sido intermitente, com períodos ora de grande dependência ora de profunda aversão. Graças a ti tenho agora a minha vida televisiva bem organizada. De manhã compro o jornal e analizo os programas televisivos a haver à noite. Balizo as horas entre as vinte e uma - sei que raramente estás em casa antes disso - e as duas. Apontei como limite as duas da manhã de modo a que o espertar não se reflectisse demasiado no meu rendimento laboral. Pego numa caneta e assinalo os programas que julgo irás ver, ou que verias se pudesses, ou se calhar gostarias de não perder e a correr ligarás o aparelho e já estará a meio mas, bom! Assinalo com uma seta um a um e o jornal rabiscado fica a meu lado no carro. Depois compro outro que será usado durante a tarde para as conversas de circunstâncias do escritório. Que o primeiro-ministro não devia e que o ministro não teme. A bola. O tempo. A morte de alguém. Findo o dia de trabalho, o segundo jornal é reciclado. O primeiro está à minha espera no lugar ao lado do conductor. Consulto-o nas filas do trânsito, com cuidado embora. Em casa descongelo o que comerei. Atraso de propósito o jantar assumindo que o comer perante a televisão deverá ser um mimetismo do teu viver naquele preciso momento. Assumo, não faço a mais pequena ideia. Às vezes acontece que também te vejo entrar, mas é raro. Só não atraso o comer da cadela. Ela não te ama como eu amo, por isso não deve ser obrigada a estas solidariedades. Patê, Eukanuba, água, água. A Cefaleia vem depois para o sofá ver o que eu vejo na televisão, distraidamente atenta. Para nada cobiça o que como. São onze anos, já disse. A serenidade feita bicho. Eu não. Como?
3ª cefaleia.
Consegui chegar mais tarde ao emprego. Assim, da janela da cozinha vejo-te sair para o trabalho todas as manhãs, frontal, acelerando. Digo frontal pois a saída da garagem do teu prédio cospe os carros como se para mim fosse, e acresce ser o teu carro munido de uma suspensão que reproduz um último soluço de pavimento antes do nivelar com o passeio e da posterior rampa que se dilui na Rua X. Com esse último soluço vejo-te e não te vejo. Sempre usas óculos escuros quando sais de manhã. A Cefaleia entretanto acordou, reclama também ela o seu sustento, os anos que tem permitem logo após abandoná-la à escassez de espaço de um T2 sem varanda. É uma Cefaleia "antiga". Tem exactamente onze anos.
2ª cefaleia.
Decidi tornar-me conhecido no teu bairro. Que não é um bairro mas sim um entrecruzado de prédios que não existiam nem há dez anos. Não importa, tenho que fazer alguma coisa. Compro o jornal no rés-do-chão de onde vives. Desnecessariamente às vezes também tomo ali café. A senhora da tabacaria tem uma pequena máquina onde tira uns cafés que depois serve por um pataco aos clientes. Donde a utilidade disto numa tabacaria, ultrapassa-me. Santificada intenção será, e divina, mas que não me foi revelada em sonhos. O café nem é mau. A tua entrada é ventosa, uma massa atlântica parece abandonar a rua por uns metros e varrer o espaço coberto de sul para norte, todo um projecto, toda uma ideologia. Mas eu insisto. Pego na cadela, fecho as luzes, desço, vou tomar café agora.
1ª Cefaleia.
Comprei o apartamento mesmo em frente ao teu, não como combinado, pois nunca combinámos nada. Tanto assim que só após a escritura me lembrei que o teu apartamento afinal deita para as traseiras. Irresolúvel esta questão, o nosso não comunicar, a ausência de qualquer sinal. Passeio religiosamente a minha cadela pelas dez, onze horas da noite, buscando as traseiras de um prédio que não o meu, iluminado pela luz de uma janela que muito pouco provavelmente será a tua, como resolver esta situação, este imbróglio, tento falar com a minha cadela e ela não me responde, late apenas, amiga, muito amiga mesmo. Chama-se Cefaleia.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Oh! The English Poem...
Valentine's Day is over!
Was there ever one?
Whether fucking or kissing,
mind the gap between,
any other day happy or sad,
you measure your weight
and call the dentist.
Look, don't you move a muscle,
coffee will be at last,
nothing more, the heart
with a slight acceleration,
the scent of the two drugs
competing.
And that will be it,
our Valentine's Day over,
and it will be ok,
or grand, the choice is yours.
Was there ever one?
Whether fucking or kissing,
mind the gap between,
any other day happy or sad,
you measure your weight
and call the dentist.
Look, don't you move a muscle,
coffee will be at last,
nothing more, the heart
with a slight acceleration,
the scent of the two drugs
competing.
And that will be it,
our Valentine's Day over,
and it will be ok,
or grand, the choice is yours.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Zelig VI
"E sobreveio uma dor lombar."
Era eu muito criança, tanto que ainda mal sabia falar, quanto mais dizer, e lembro ter começado a chorar na escola, chamada esta então do "Quartel", e era a 1ª classe. Aluno modelar numa turma onde a violência por parte do professor, o comportamento discricionário consoante a classe de origem e a humilhação, eram prática diária, preocupou-se este com um dos poucos alunos onde estava ele eximido dessas práticas que tanto, tanto o desgostavam. Sim, confirmo, era um filho-da-puta. Não sabia eu bem porque chorava. Lembro que quando era criança chorava por tudo e por nada, algo que me sucedia com frequência. Tarde embora, algures na adolescência a fonte secou, até hoje. Não me vanglorio pela coisa: trata-se efectivamente de um defeito que tenho.
Bom, o professor perguntou-me o que se passava e eu inventei que a minha preocupação passava por umas supostas crises de dor ciática que o meu pai por aqueles dias andava a ter. Já nem nisto tenho eu a certeza - não seriam já cólicas renais similares a outras que posteriormente eu sei que ele teve? Não sei. Adiante, o certo foi a mentira. Os meus pais chamados, e comovidos com a sensibilidade, eu diminuido pela atenção e pela culpa. Mas eu não podia confessar uma outra qualquer razão que eu sentia ultrapassar as poucas palavras que então eu tinha disponíveis para aquele banho de angústia que me afogava. Porquê? Sabia lá eu! Seis, sete anos? Não tinha mais idade.
Quase quarenta anos depois, a região lombar de gente a quem eu quero volta a estar agora objectivamente sob a minha atenção. E, pela primeira vez desde que me conheço, tenho o que por tradição os médicos chamam lumbago, que é uma espécie de sub-ciática, de dor ciática amputada. Á esquerda, esclareço.
Isto passa.
Era eu muito criança, tanto que ainda mal sabia falar, quanto mais dizer, e lembro ter começado a chorar na escola, chamada esta então do "Quartel", e era a 1ª classe. Aluno modelar numa turma onde a violência por parte do professor, o comportamento discricionário consoante a classe de origem e a humilhação, eram prática diária, preocupou-se este com um dos poucos alunos onde estava ele eximido dessas práticas que tanto, tanto o desgostavam. Sim, confirmo, era um filho-da-puta. Não sabia eu bem porque chorava. Lembro que quando era criança chorava por tudo e por nada, algo que me sucedia com frequência. Tarde embora, algures na adolescência a fonte secou, até hoje. Não me vanglorio pela coisa: trata-se efectivamente de um defeito que tenho.
Bom, o professor perguntou-me o que se passava e eu inventei que a minha preocupação passava por umas supostas crises de dor ciática que o meu pai por aqueles dias andava a ter. Já nem nisto tenho eu a certeza - não seriam já cólicas renais similares a outras que posteriormente eu sei que ele teve? Não sei. Adiante, o certo foi a mentira. Os meus pais chamados, e comovidos com a sensibilidade, eu diminuido pela atenção e pela culpa. Mas eu não podia confessar uma outra qualquer razão que eu sentia ultrapassar as poucas palavras que então eu tinha disponíveis para aquele banho de angústia que me afogava. Porquê? Sabia lá eu! Seis, sete anos? Não tinha mais idade.
Quase quarenta anos depois, a região lombar de gente a quem eu quero volta a estar agora objectivamente sob a minha atenção. E, pela primeira vez desde que me conheço, tenho o que por tradição os médicos chamam lumbago, que é uma espécie de sub-ciática, de dor ciática amputada. Á esquerda, esclareço.
Isto passa.
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