Foi a mais silenciosa das noites, o que foi estranho. Ela dormia não dormia, sendo a diferença bem pequena. Um pequeno fechar e abrir de boca marcando um ruido mínimo, um pequeno abrir dum pequeno cofre. Assim dormia. Adormecer com Cesariny ao lado tem sempre algum perigo. Pode meter magalas, terminologia imprópria para menores. Escatologia vária. Mas lá fora residia a fúria de um mar que representava todas as fúrias havidas e por haver, a gaivotaria mal tentando resistir em derivas aéreas a destempo, e desoras, pois era de noite. Em linha recta, como recto tinha sido o caminho tomado até ali, nem dois quilómetros, a cidade do Porto. Repito que quando falo contigo parece-me falar com toda uma cidade. Mas se calhar não. A tudo posso ainda dizer se calhar não. Pois continuo sem nada saber. Adormecer com Cesariny tem por outro lado a vantagem da segurança própria de quem não está para aí virado. E duas camas permitem dois lados para onde virar. Mas só uma porta condiciona sempre a possível rota de fuga. Por outro lado - eis os lados - vai-se sempre corrigindo, como se em gesso a versão da estátua futura, a versão futura de um viver que não há-de vir. Algo como "(...) ela com alguma frequência continuava a invadir-lhe os espaços, os tempos, os gestos. Invadia com um jeito só seu, ora brusco ora hesitante, o corpo aos solavancos como abrindo caminho, que não precisava, estava aberto. Ele deixava, oh se deixava. Admitia-se ocupado. Não parecia haver limites, mas sim, havia limites. Tinham sido aprendidos muito antes, numa qualquer pre-história partilhada. Porque todas as histórias têm uma pre-história. Falavam como que diferentes línguas, atravessando meias palavras. Mas naqueles momentos de aparente desequilíbrio, que se sentasse e demorasse um tempo a medir a coisa, estavam só e apenas um para o outro, ali, um com o outro. E com pequenas cargas de ombro ele conseguia o equilíbrio. Até porque tinha sido ele a abrir a porta, podia não abrir. O disparate medido e comumente praticado era ali um droga fácil, que também ele tinha aprendido a administrar. Podia ser dito que ele de vez em quando lhe vinha condicionar a dose, reduzir o miligrama. Ele também em consumo, consumindo-se. E aqui era ela a deixar que essa interferência se desse. Era isso: interferiam um no outro. Nestes dias, que noutros não. E assim mantinham-se interessantemente vivos. O que é muito dizer, nos dias que correm. (...)"
As gaivotas, de manhã, eram já mais. Porque era um dia outro já. A fúria mantinha-se, a fúria está ali sempre, condiciona. Não rendidas mas condicionadas, por um qualquer dos lados que o vento acaba por permitir, elas penetram na muralha invisível e seguem para a vida, ou se não apenas pousam e esperam, amanhã será o dia de chegar ao mar e comer.
"Comer, beber, homem, mulher." Título de um filme. O dia a dia ainda possível.
sexta-feira, 26 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
Do The Right Thing!
Era um filme do Spike Lee, há mais de vinte anos que o vi. A confusão foi ainda maior por não entender a mensagem subjacente aquele filme específico e portanto então não me ter identificado com a atitude do protagonista , o Spike Lee lui mêmme. What's the right thing, for me, for you? What's right? Tudo isto gira à volta da questão da verdade ,a verdade, devemos sempre trabalhar com a verdade, etc. e tal... Lembro-me de uma discussão que tive com uma rapariga nova que trabalhou comigo, há anos, actualmente casada com o rapaz que publicou comigo o blogue sobre leituras. A Cecília Rinto, dela falo, é mais um/uma dos discípulos que me encheram os dias nos tempos da Medicina e que hoje honro e choro a sua ausência. E ela não concordou comigo. Tocava violino na tuna, fazia uns sons agudos enquanto escrevia os diários, era engraçada.
A história é esta: a irmã duma grande amiga minha teve comigo há muitos anos um diagnóstico de Hipertensão secundária, isto é, provocada por um problema numa artéria renal. Diagnóstico feito, fez a dilatação da artéria no SantoAntónio, e siga. A rapariga alguns anos depois começou a ter problemas de dores e alterações da sensibilidade nos membros inferiores, e vou evitar os termos técnicos. To cut a long story short, após vários exames e com a ajuda decisiva dum amigo meu Neurologista chegou-se à óbvia conclusão que a rapariga tinha esclerose múltipla (EM). Não sendo eu íntimo da jovem, professora de filosofia do ensino secundário, discuti com a irmã, ainda por cima médica e grande amiga minha, repito, a oportunidade do acesso da doente ao diagnóstico definitivo, pelo risco de "labeling" e desespero associado, acudindo a irmã com o argumento de que o perfil psicológico da irmã contraindicava definitivamente o conhecimento do diagnóstico. As palavras "esclerose múltipla" foram varridas do mapa. Clinicamente ela evoluiu bem, esta história tem mais de dez anos, a doença tem progredido pouco ou nada, a minha doente e agora também grande amiga tem uma vida activa e produtiva. Eu julgo que ela sabe/não sabe do diagnóstico mas voluntariamente engana-se, vigiando qualquer lapsus linguae meu. Esta história tem mais dois episódios.
O primeiro aconteceu quando finalmente a minha amiga doente decidiu casar, e pôs a hipótese de gravidez. A conversa do costume sobre o relógio biológico, etc.: ela é dois anos mais velha do que eu. Aqui tive algummas trocas de palavras mais duras com a irmã índice, a que é médica, etc., mas afinal manteve-se a mentira, embora com uma porta que eu entreabri que a minha doente amiga decidiu não aproveitar/arriscar.
O segundo episódio foi quando há dois anos a minha amiga doente agravou um pouco os sintomas e eu consegui arranjar-lhe um Neurologista da àrea da EM que a observasse, de forma a eventualmente reiniciar tratamento. Acontece que as análises, etc., não foram conclusivas, a clínica estacionou, ela com uma nova combinação de antidepressivos mais uns quantos placebos melhorou, etc., etc. AEste Neurologista ficou com dúvidas no diagnóstico! Terminando, oficialmente na cabeça dela ela não tem esclerose multipla. Tem sim uma doença blablabla mas que não é, não senhor, nem pensar. A história de Dâmocles e da espada.
Claro que não me sinto nem orgulhoso nem triste com isto. Estou e estarei apreensivo. Sou hoje muito amigo desta rapariga. Falamos com frequência, tomamos um café aqui e ali. A sua irmã, confidente de horas muito antigas, telefona-me em apertos e só, sempre a correr.
Era um caso de medicina. Iaaarrrgh!
As relações pessoais, afectivas, etc., são a completely different ball game, certo? Todos sabemos quem queremos, quanto, como, porquê, e os verbos necessitar, precisar, ceder, brunir, nunca por nunca são chamados, certo? As mais das vezes porém acredito que a palavra mentira não se aplique ao quadro legislativo. Voemos até Paris: este fim-de-semana a esquerda ganhou as regionais em França. Ganhou? Sim, com 47% de abstenção. É, a partir de determinada idade passamos a abstermo-nos, muito, com frequência, sempre.
Bom ,ams nada disto tinha a ver com a questão índice: do the right thing! Chama-se a um texto assim um manobra de diversão. Passeando pela família de palavras anexa encontro divergir, encontro divertir, encontro divertículo (intestinal)...
A história é esta: a irmã duma grande amiga minha teve comigo há muitos anos um diagnóstico de Hipertensão secundária, isto é, provocada por um problema numa artéria renal. Diagnóstico feito, fez a dilatação da artéria no SantoAntónio, e siga. A rapariga alguns anos depois começou a ter problemas de dores e alterações da sensibilidade nos membros inferiores, e vou evitar os termos técnicos. To cut a long story short, após vários exames e com a ajuda decisiva dum amigo meu Neurologista chegou-se à óbvia conclusão que a rapariga tinha esclerose múltipla (EM). Não sendo eu íntimo da jovem, professora de filosofia do ensino secundário, discuti com a irmã, ainda por cima médica e grande amiga minha, repito, a oportunidade do acesso da doente ao diagnóstico definitivo, pelo risco de "labeling" e desespero associado, acudindo a irmã com o argumento de que o perfil psicológico da irmã contraindicava definitivamente o conhecimento do diagnóstico. As palavras "esclerose múltipla" foram varridas do mapa. Clinicamente ela evoluiu bem, esta história tem mais de dez anos, a doença tem progredido pouco ou nada, a minha doente e agora também grande amiga tem uma vida activa e produtiva. Eu julgo que ela sabe/não sabe do diagnóstico mas voluntariamente engana-se, vigiando qualquer lapsus linguae meu. Esta história tem mais dois episódios.
O primeiro aconteceu quando finalmente a minha amiga doente decidiu casar, e pôs a hipótese de gravidez. A conversa do costume sobre o relógio biológico, etc.: ela é dois anos mais velha do que eu. Aqui tive algummas trocas de palavras mais duras com a irmã índice, a que é médica, etc., mas afinal manteve-se a mentira, embora com uma porta que eu entreabri que a minha doente amiga decidiu não aproveitar/arriscar.
O segundo episódio foi quando há dois anos a minha amiga doente agravou um pouco os sintomas e eu consegui arranjar-lhe um Neurologista da àrea da EM que a observasse, de forma a eventualmente reiniciar tratamento. Acontece que as análises, etc., não foram conclusivas, a clínica estacionou, ela com uma nova combinação de antidepressivos mais uns quantos placebos melhorou, etc., etc. AEste Neurologista ficou com dúvidas no diagnóstico! Terminando, oficialmente na cabeça dela ela não tem esclerose multipla. Tem sim uma doença blablabla mas que não é, não senhor, nem pensar. A história de Dâmocles e da espada.
Claro que não me sinto nem orgulhoso nem triste com isto. Estou e estarei apreensivo. Sou hoje muito amigo desta rapariga. Falamos com frequência, tomamos um café aqui e ali. A sua irmã, confidente de horas muito antigas, telefona-me em apertos e só, sempre a correr.
Era um caso de medicina. Iaaarrrgh!
As relações pessoais, afectivas, etc., são a completely different ball game, certo? Todos sabemos quem queremos, quanto, como, porquê, e os verbos necessitar, precisar, ceder, brunir, nunca por nunca são chamados, certo? As mais das vezes porém acredito que a palavra mentira não se aplique ao quadro legislativo. Voemos até Paris: este fim-de-semana a esquerda ganhou as regionais em França. Ganhou? Sim, com 47% de abstenção. É, a partir de determinada idade passamos a abstermo-nos, muito, com frequência, sempre.
Bom ,ams nada disto tinha a ver com a questão índice: do the right thing! Chama-se a um texto assim um manobra de diversão. Passeando pela família de palavras anexa encontro divergir, encontro divertir, encontro divertículo (intestinal)...
sábado, 20 de março de 2010
Silêncio hoje.
Porque há momentos em que não é para falar mas fazer, ou, pelo contrário, esperar. Em silêncio manobrando.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Definição
Não há. Só fazendo se sabe o amor como é, como sai, como fica feito. Para que conste. Porque toda a memória é futura agora.
11ª Cefaleia.
"Tiraste-me as palavras! Merda! Quero as palavras de volta! Com tanta coisa que me dizes já só consigo falar em espelho!"
Falo o menos possível, e com poucas pessoas. O meu trabalho profissional assim o permite. Persigo uma nova meta de economia da dicção. E fujo das palavras mais fortes como da peste. A Cefaleia nem precisa de me ouvir, do bem que nos entendemos. A solidão é a ausência de discussão. É portanto um estado perfeito. Sinto-me um pouco como a República de San Marino, ou o estado de Andorra. Ensaio às vezes expressões de boa circunstância ao espelho, algum dia serão precisas. "Tens claramente razão!" "Isso mesmo ia eu dizer!" "Não prossiga, encontrou a palavra certa!"
Falo o menos possível, e com poucas pessoas. O meu trabalho profissional assim o permite. Persigo uma nova meta de economia da dicção. E fujo das palavras mais fortes como da peste. A Cefaleia nem precisa de me ouvir, do bem que nos entendemos. A solidão é a ausência de discussão. É portanto um estado perfeito. Sinto-me um pouco como a República de San Marino, ou o estado de Andorra. Ensaio às vezes expressões de boa circunstância ao espelho, algum dia serão precisas. "Tens claramente razão!" "Isso mesmo ia eu dizer!" "Não prossiga, encontrou a palavra certa!"
Da música que se ouve
A música que eu ouço diz-me o que fazer. Lembro-me de há muitos anos dizer que só duas coisas nunca me tinham desiludido: os meus doentes e minha música. Mantém-se. Procuro que música ouço. Donde o que quero ouvir. Donde sou eu que "faço" a música. Mas sim, a música nunca me desiludiu. Estou sim cada vez mais velho para dançar. E é um bocado apatetado dançar sózinho.
terça-feira, 16 de março de 2010
Poema da Couve Coração
domingo, 14 de março de 2010
sábado, 13 de março de 2010
Comida
Alimento-te. Mesmo? Não te darei nada que já não tenhas comido. E comido, e comido. Ou exactamente o contrário.
Avatar
Vou conseguir não ver o filme do James Cameron. Vivendo com quem vivo, é fácil. E, porém, estou a viver um filme igual, se bem que muito mais real, acho, tendo em conta que somos tu e eu habitantes de planetas diferentes. Escuso de explicar, pôr em cima da mesa o mapa de estrelas e apontar a distância entre, que é em anos-luz, e lembro que um ano-luz é o espaço que demora a luz - por exemplo a tua - a percorrer em um ano. Bastantes anos-luz, digo. Bom, ponhamos que pertencemos à mesma galáxia, e já não está mal. Ponhamos que a respiração é difícil mas o oxigénio não escasso sim algo excessivo, num e noutro planeta. Que desse excesso as possibilidades de combustão são algumas, até importantes. Contacto. Aviso: é em Souselas que acontece a co-incineração, e na Arrábida. Não devíamos ir por aí.
Esta coisa
em forma de blogue já não é a mesma coisa. Embora, claro, ignore por completo se algum dia lerás isto. Mas a possibilidade existe, donde Maconde!
sexta-feira, 12 de março de 2010
As crianças, meu deus, as crianças...
Cruzei-me agora mesmo com uma amiga minha (latu sensu), mais sua criança. Que crianças nunca teria, ouvi-a uma década. Depois adoptou uma gata encontrada na rua. Tem agora uma filha. O marido provoca-me sono só de olhar para ele. Lembro-me de ter jantado com eles, apartamento recém adquirido em Leça, vista panorâmica para o mar. No salão, despido, de baile, pontificava contra a parede um aparelho de musculação. Francis Bacon anestesiado. Eu adormeço com muito facilidade na maior parte das situações. Durmo pouco, estou a envelhecer. Desconheço para onde vou. Esta minha amiga enerva-me.
Redux
Há os filmes que depois de muitos anos de culto lhes acontecem muitas versões: “director’s cut”, “cenas extra”, “fim alternativo”, “versão redux”.
Sinto-me por aqui, com a excepção do culto, claro. E estarei a evoluir para uma espécie de versão “redux”. Qualquer delas, das versões, acaba sempre por não saber, por não ser, como “daquela primeira vez” que se viu o filme no cinema..
Sinto-me por aqui, com a excepção do culto, claro. E estarei a evoluir para uma espécie de versão “redux”. Qualquer delas, das versões, acaba sempre por não saber, por não ser, como “daquela primeira vez” que se viu o filme no cinema..
quinta-feira, 11 de março de 2010
10ª Cefaleia.
E janto a partir duma dedicada colecção de congelados e equiparados que vou investigando em vários super, mini e hipermercados da grande e partida metrópole em que residimos, eu e tu. Crescem lentamente as variedades que uso. Vou refinando as escolhas, tentando obter a classificação de omnívoro qualificado. Sei que cozinhas pouco. Revejo-me a conviver dentro dessa situação, decoro gestos de cozinha para ineventualidades. A Cefaleia viaja lentamente através das variantes alimentares que a Eukanuba lhe vai permitindo. Eu elevo a arte do micro-ondas ao sétimo céu, à nuvem número nove, e sento-me e espero. Também pratico a execução de dois, três pratos de cozinha que domino. Umas omeletes, um outro de forno. As batatas assadas saem-me cada vez melhor assadas. Falho todo e qualquer arroz.
Não tem chovido. Tem feito sol. Ainda não comprei a torradeira, mas vou comprar.
Não tem chovido. Tem feito sol. Ainda não comprei a torradeira, mas vou comprar.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Plural
Onde estávamos estamos. Houve algumas palavras novas, das mais velhas que no mundo há. Ficámos? Ficamos. A pressão dos sms's a postergar o acetileno.
quarta-feira, 3 de março de 2010
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