sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dos sismógrafos

São uns aparelhos curiosos. Parece que servem para muito pouco. Monitorizam mas na realidade não prevêem, não previnem. Quando acontece chamam mas sempre pelo menos um pouco tarde demais.
Como serão os registos destes últimos inexplicados dias?

Pequeno e humilde

Não eu. Não o carro que é meu. Não sei se já repararam mas eu não vivo, corro. E o meu carro faz-me a vontade. Que é de mim extensão. Tem a minha coragem possível. É o meu exosqueleto. Já basta de tudo o mais. Não o posso querer pequeno, humilde.

É esta hora a hora

em que num telemóvel é as 23:20, noutro 23:21, no computador também. E aí?

Do cheiro dos livros

(apaguei a mensagem, vai ser de cor com direito a revisão, como a minha filha...)

Lembro-me agora disseste-me "não leio os livros mas gosto de cheirar os livros", para quê marcar os livros, os livros sinalizados por um cheiro, um rasto, um pó de estrelas, uma impressão sobreposta à original impressão, como marca-de-água, posso assim fechar este livro à confiança, seguro não da tua companhia (nunca estarei), mas sim que marcado estará o sítio onde ele se voltará a abrir e tu nele.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Hey, hey, hey...

Man, take a hold on yourself! Behave! Control your self! Take it easy! And take it as it comes...

Sala... de convívio

Dentro de pouco entra por aqui uma multidão...

Sala... de convívio

Dentro de pouco entra por aqui uma multidão...

Equilíbrio, desequilíbrio.

Este actual equilíbrio entre as partes vivas e as partes mortas nos meus dias não é bom. Será saudável? Como nos barcos existem as águas vivas e as águas mortas, ou parecido, já nem lembro bem. Nem lembro bem quais ficam acima ou abaixo da linha de água. Enfim, a metáfora, é só virar-lhe a capa e dá para um lado, para o outro... Como estou, disparo sobre tudo o que mexe. Fui então ver "Les Herbes Folles" de Resnais. Não me encontrei ali, aquele não era o meu abismo. Gostei porém do filme. Traduzir "folles" por "daninhas" implica um passo à frente. Eu posso sempre ter a minha loucura e não atrapalhar ninguém. Mas não acaba a loucura por atrapalhar alguém ou alguma coisa, mais tarde ou mais cedo?

P.S.: a coisa do "sentido" lembra uma linha, um carreiro, uma rua. Eu sempre gostei de descampados, de grandes espaços, e de parar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Baby you can't drive my car!

O meu carro. Não entendem.
Falámos das minhas coisas. Mais explicada extensão de mim que o meu carro? Onde quero estar ele me deposita. Eterno projecto de fuga. Última instância. Nunca o meu carro me julgou. Peço e obtenho. Acelero e acelera. Ninguém me responde melhor. Ninguém me esconde melhor. O meu carro é só meu. E esta certeza alimenta-me.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Bessa hotel

Vendo bem ser a tua
sombra seria uma boa
opção. Permitiria à noite
total liberdade, podendo
tu sempre acordada fre
quente ligar uma qualquer
luz e logo um toque a recolher,
eu a tua sombra recuperada
e obedecendo, eis-me aqui,
sou a tua sombra, acabei de
te nascer do chão onde
pousaste os pés,
ligação à terra.

Pavlov

Era um simpático homem que não percebia muito de relações humanas.

O separar das águas ou a subida do nível das mesmas.

Há meses que penso, rumino e matuto sobre viver sózinho. Meses. Acontecerá? Dada a demora e o peso cada vez mais esmagador que todo este ruminar está a ganhar, decida eu sair ou ficar, tempos complicados virão. Penso diariamente em sair. E fico. Todos os dias.

Ser médico e internista em enfermaria

É uma droga dura. Fornece abastecimento endorfínico quase permanente. A vida de enfermaria tem enquadramento que permite reforços positivos almost on a daily basis. Grande parte dos internamentos são de relativa fácil resolução, haja as luzes medianamente acesas para a sua decifragem. O rodeio por gente de crepuscular sabedoria e atitude permite também com frequência frequente dizer mal dessa mesma gente e ainda por cima com razão! Estamos a falar de um duplo ou triplo prazer e de aquisição fácil: os internamentos são diários, as asneiras correlativas quase também. Last but not the least há a côrte dos alunos e médicos mais novos a admirar a tua performance, as certezas, a presença de espírito, os ditos e os calamares, and so on. Tu decides, és o especialista, o "truta", mais que cabeça de casal. Que saudades eu tenho da vida de enfermaria. Claro que quem for consultar o ano de blogue "diário médico 2" diria - o rapaz estava desesperado. A verdade é que não sabia o que me esperava na Unidade de AVC. Ah, sim: o dobro do ordenado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

...

A minha paixão por e a minha resolução de futura vida deviam ser duas coisas diferentes.
(a cont.)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A refinaria de Leça.

Continuo na minha que a refinaria de Leça é um espectáculo giro à noite, as luzinhas, as duas pequenas chamas, o silêncio, etc. Agora a praia também está bem, um passadiço, o bater uniforme do mar, o pôr de sol certo, muito certo para este início hesitante de um qualquer bom tempo, enfim. De noite ou de dia, teimo em considerar esta zona muito interessante.
Teimo nisto e em muitas outras coisas...

Homens

We, men...

Eis um bom começo, não é? Mas avançemos. Nós, os homens, cometemos um erro frequente e que é o seguinte: não escolhemos como queremos estar mas sim com quem queremos estar. E da dissidência entre estes dois estares podem-se estragar muitos jantares. Erro que procuro, procurei, procurarei não praticar, visto estar identificado. Ora portanto...

Venus


Venus é um filme de e para Peter O’Toole. O resto são cantigas. Ou se ama o Homem ou então é deixá-lo estar. Não é propriamente um filme de autor, embora o argumento seja de Hanif Kureishi, um autor. Por isso talvez seja um filme de argumento. Mas um argumento que se aceita e se deixa comer, apesar de uma que outra indigestão.
Peter/Maurice envelheceu. Ele é um actor que teve o seu êxito, o seu tempo. Era “lindíssimo”. Agora é um velho impotente cuja especialidade é representar moribundos, mesmo. Ele vive tudo isto com ironia e desprezo qb. , mas o aparecer da sobrinha de um seu amigo vai permitir-lhe “uma última dança”.
E aqui a primeira questão: quando devemos parar de dançar? O tipo de dança vai evoluindo com os anos? Ou a partir de determinada década o papel passa a ser ver os outros dançar, e pagar umas bebidas? Maurice/Peter acha que não - até porque, fora dos papéis que repetidamente lhe entregam, sente que vai morrer. E daqui nasce o filme. O resto são curvas de argumento, de cujas quais aceito praticamente todas, incluindo o interlúdio melodramático com o namorado de Venus/Jodie, pois Peter/Maurice vai ter até direito à sua última luta e à sua última derrota varonil, para com ela de uma vez ganhar a rapariga.
A segunda questão é: estarão as raparigas de acordo com tudo isto? Realizador, argumentista consagrado, actor principal monstruoso, tudo são homens. A visão Peter/Maurice da vida não é um paroxismo de feminismo altruísta. Maurice/Peter é um aristocrata mas também terá sido no seu tempo um infiel praticante. Quando refere que "um corpo nu de mulher deve ser a coisa mais bela que a maior parte dos homens alguma vez verá", Jodie responde perguntando "E uma mulher?". Peter/Maurice hesita e depois reponde "Talvez (não teria muito pensado no assunto) o nascer do seu primeiro filho". Ora esta é uma visão muito masculina da coisa.
Porém, fiquemos com a mensagem principal e que é:
Tudo "to keep the flame burning". A minha, a tua, a de quem fôr. Assim deve ser, amém. Till death do us part (from the living).

Da amiga ou a utilidade dos ratos.

Acontece sempre aquela história da amiga de quem gostamos e achamos piada, apesar de toda a informação negativa, repetidamente fornecida por quem de direito. "Mas não é a tua melhor amiga?" Nada, segue. Mas resistimos. E ao resistir o rato começa a roer a rolha, a pequenina rolha que sela o perfume guardado só para determinadas ocasiões programadas e por programar, cria-se uma fenda, uma saída, o perfume começa a circular, a perder-se, chega um determinado momento e é obrigatório dar-se por perdido, foi-se, kaputt! A amiga ainda tem a sua piada, nem muita nem pouca mas confirmadamente tem, e o torcido nariz ausculta todos os odores que o dia lhe vai fornecendo, seus cambiantes, perfume, nem cheirá-lo!
Dei um exemplo. Outros podia dar em como vivemos rodeados por roedores.

Eu já estive aqui antes...

Repetem-se os lugares e diferem os sentimentos despertados pelos mesmos. É assim: os anos passam e a memória dilui-se inapelavelmente. Esta e aquela vista, este e aquele andar, este e aquele sítio onde me sentei. Acresce que a obra humana vai fazendo os seus estragos, quero eu dizer que também alguém me faz o favor de ir transformando os sítios onde antes aconteci. Enumero: Carrefour-Coruña; José Manuel Péréz, obnubilado intensivista a cujo doutoramento assisti em directo em Santiago; crepería Petite Bretagne en Riego de Água-Coruña; Plaza Millán Astray, onde já quase morei há 13-14 anos.
E nada. O defeito só pode ser meu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Servartes - Joana Cora



I remember well: you slept like a baby (at least the part I was awake listening to you breathing - i felt so important!).

Onde estávamos já não estamos.

Hoje, dezasseis de Abril, estamos aqui. O que quer dizer que ontem era quinze e catorze o dia anterior. Que o meio do mês,essa virtuosa localização, já passou. Estamos onde estamos, não onde estávamos. Acumulamos conversa e conversa, mais. E silêncio. Pequenos. Aqui, ali. Hesitações, de voz, de fala, de tronco. O não ir para a frente do touro porque não é o dia. Não, hoje não.
E nada, hoje é dezasseis de Abril do ano com a sua graça de dois mil e dez. E não cessa a delícia. E o periabismo. Que poderá rimar com a presbiopia - explico - os olhos começarem a ficar velhitos e com dificuldade de ver ao perto.
Bom, posto isto, que se fôda as letras pequenas! Onde assino?

segunda-feira, 12 de abril de 2010

abcde

a.

Os temas humilhantes
evito. Contorno.
Secciono. Assim a dose.
"Os óculos de sol!"
"Sony?" "Sony?".
Centímetros de.
A centímetros de
uma certa tragédia.

b.

O que me surpre
ende é que humilhes
tão pouco, usando o
usado, falando o
falado. Que pros
sigas a meu lado,
ainda que apenas por
uns centímetros.

c.

O desejo de um feliz
natal este ano também,
e de uma perene noite
feliz, decomposta esta
situação num tempo,
num modo. Sei exacta
mente do que estou a
falar.

d.

Corrijo: está a
água a correr, o
banho quase pronto,
os sais, o resto, de
mais nada sei nem ou
vi falar. Entro.

e.

Finalmente,
pôrra!

00.45

Até já.

terça-feira, 6 de abril de 2010

15

1.

Estava o mar encapelado.
Cinza o ar todo. Não tinha eu fumado
O dia. Perdido veículo de
Expressão, porque na manhã
Aberto?
Interessante para passeio,
Disseste. Que caminho queres
Tomar, falamos de um castelo?
Gaia, Canidelo.
Os peixes, mais do que um signo.

2.

Ligas o computador, desligas
A luz de um quarto. Movem-se
As imagens num rectângulo
Tamanho médio. Expressão que me
Definirá. Medir este quarto com um pau
De fósforo.
O mar, o vento, o meu silêncio, três
Chagas que um cristo qualquer poderia
Amenizar recorrendo ao minibar.
Eis, vagamente, o meu corpo.
Eis, concretamente, a tua noite.
Terra em vaso.

Porque esperas.

3.

Um dia voltarei a ter a razão do meu lado.
Nem me lembro da última vez.
Dás-me a tua razão de pé porque me sento eu,
E assim já se conversa.
Será um ‘otel, escolhe tu a primeira letra.
Expostos, não escolhidos
Visitantes.
A mais nobre das profissões ser
Aqui arqueiro, onde
O alvo.

4.

A frente oeste não existe.
Procurei-a de Azurara a Lavadores e
Não está.
O mar faz o seu trabalho, disfarce e
Solução. Aviso sonoro.
“Cala-te!” ou “Não deixes de dizer aquilo!”.
“Empresta-me cinco euros para o almoço”.
Em mil pedaços uma noite.
A pouca alegria no que
Reconheces, cantando.

5.

Vou comer ainda menos,
Magistratura de influência.
Voltarão as cores à sua
Simples frequência, assim os verdes
Não mais desdobrados,
Deslumbrando.
A pequena fala sucedida
Sucederá. Pastilha azul,
Spray milagroso. E nelas
Toda a nossa culpa
Distribuida.

6.

Conto os dias que
Faltam: não sei contar.
Em todos os sentidos
Dedos. Os olhos
Escuros, mediação.
Digo: o tempo
Tombado a teus pés.
Disse? Não registo.
Trabalho de recolha de
Efluentes, soberano, moeda
Antiga. Em nenhum registo
Constarás.

7.

Posto não haver tempo disponível
Será preciso pedir o empréstimo do
Costume.
Credito à habitação dos dias.
Que será uma ilha,
Onde o precário
Abrigo.

8.

Do rio es-
Tirar um curso,
Saltar o leito,
Evitar a corrente
Mais forte,
As mais a mim chegadas.

Será preciso tirar um curso.

9.

O isolado fogo tem a
Baixa temperatura da
Palavra certa uma e
Outra vez.
Vigio. Escrevo entre
Escritos. Acabo?
Dois faróis assinalam
A barra de Aveiro.
Manobrar.
Ou isso.

10.

Devastada ideia
No ano findo.
Nada resta,
Pequenos animais alimentam-se de.
Não sossego. Não alimento.
Pasto de chamas, fogo lento.
Lentos pastores,
Opostas cores.

11.

Como podemos esperar.
Um cofre: nem sequer
A palavra pesa. As
Mãos abanam. Vento,
Vento. À porta da casa
Branca a guardo.
Chave, ignição, no automático
As luzes, o resto.

12.

Eu um pouco: “sou um pouco…”
Muito e bastante, em especial.
Um continente, modelo. Não, o
Habitual tamanho. Revestido.
Da atenção ao acto a revolução e
Almansil, por exemplo. Ou a
Golpe de gesto ou com cartão de
Pontos.

13.

A tua parte do texto
Foi-se, fugiu.
Por ex.: “Não mudarás a
Tua vida!” “Estás bem assim!”
Pre-cozinhado, pré-
Aquecido. Ou lembro aquela
História das omeletes
Sem ovos. E
Sem cavalos o auriga.

14.

“…e escurinha!” A doença e a Nossa
Senhora do pela tua saúde!
Ou a perene indisposição para
Umas coisas, como por ex. uma
Longa viagem.
Entrelinhas veio de Rio Mau a
Lampreia, que é de Penafiel,
Arrifana.
Que horas são já no teu relógio?

15.

Se sozinhos vivem os meus poetas
Passarei a limpo este nosso tempo
A quase nada cor o pequeno
Almoço aos poucos quinze a
Vinte minutos escassearão as
Formas o termo tudo perderá
Definição alfa ómega
Radiação cósmica mas não
Esqueço não esquecerei
“Sou a mais vulgar
Das mulheres.”

Inultrapassável

Inultrapassável. Não sei. Where the fuck are the outer limits? Outer outer outer limits?